
A Norsk elbiforening (Associação Norueguesa de Veículos Elétricos) é a ONG de consumidores mais importante da Noruega, país campeão mundial da eletrificação. Um país que acabou sendo tão bem-sucedido em seus esforços que basicamente declarou “missão cumprida” e está encerrando os incentivos porque acredita que se tornaram redundantes.
Em visita ao Brasil a convite da ONG brasileira que desempenha o mesmo papel da ANVE por aqui, a ABRAVEi, Thomas Haug, conselheiro político da entidade, reservou um tempo para conversar com o evdrops pessoalmente em São Paulo.
E, na conversa, ele respondeu à nossa maior dúvida: afinal, o que deu certo? Como a Noruega zerou o jogo da eletrificação?
Entrevista: Thomas Haug
Fábio Marton (evdrops): É sua primeira vez no Brasil?
Thomas Haug: Segunda. Estive primeiro aqui em junho do ano passado.
Você está aqui à convite da ABRAVEi. Como essa parceria começou?
Ambos somos organizações de consumidores. A Norsk elbiforening conta com 120 mil membros. E temos esse projeto internacional em que cooperamos com outros parceiros em outros países, e o Brasil é um deles. Nós compartilhamos da crença de que o foco no consumidor na adoção de EVs é muito, muito importante. E é nesse terreno em comum que estamos nos entendendo.
O que é importante em haver uma associação de consumidores, em contraste com uma associação de fabricantes como a ABVE?
Ambas são importantes para a adoção de EVs. aAs contar com os consumidores durante a adoção dos EVs é algo que acho que crucial. Ter o foco no consumidor, no lugar das empresas, porque empresas, ao fim das contas, têm interesses financeiros. E, ultimamente, são os consumidores que escolhem um veículo elétrico na concessionária.
O que deu certo na Noruega? Como vocês atingiram quase 100% de vendas de veículos elétricos?
Em 2017 o Parlamento Norueguês passou uma lei dizendo que, em 2025, o mercado de carros novos deveria ser totalmente elétrico. Então 2025 foi a meta aprovada em 2017. Depois disso, os parlamentares usaram o sistema tributário para tornar os EVs competitivos em frente aos carros a combustão interna. Então, no mercado Norueguês, a mudança foi principalmente por conta dos incentivos econômicos. Fizemos isso ao mesmo tempo em que aumentamos os impostos nos carros a combustão interna e fizemos uso dos recursos desses impostos para incentivar e baixar os impostos para os EVs.
A indústria do petróleo da Noruega está no mesmo barco que o resto do país. É importante dizer que a maioria do nosso petróleo é exportado e não é usado localmente. Sequer temos refinarias: precisamos exportar o petróleo e importar de volta o combustível.
Thomas Haug
Então os EVs ficaram mais baratos que os carros a combustão?
Sim, ficaram. Isso foi muito importante no começo, porque EVs eram muito mais caros de produzir. Para que pudessem competir, foi preciso baixar o preço.
O governo da Noruega está hoje discutindo acabar com esses incentivos, dizendo que foi “missão cumprida”. Como você enxerga isso?
O mercado de EVs na Noruega agora está maduro, então é um passo natural na eletrificação. Os incentivos que tivemos até agora foram muito, muito fortes. Mas hoje os EVs são competitivos. As pessoas amam dirigi-los, a autonomia muito boa e são apenas os carros normais. Então acreditamos que não precisamos desses incentivos hoje da mesma forma que precisamos no passado. Começamos a cobrar o VAT [imposto de valor agregado] nos EVs em 2023 e, em 2028, eles irão pagar o imposto integral.
Como é o mercado de carros na Noruega? Não há muitos chineses, não?
Temos carros chineses na Noruega. A Nio é uma marca. Temos BYD também, mas as vendas são principalmente da Tesla. O Model Y é um carro realmente popular por lá. E também há algumas marcas europeias como a Volkswagen. E também a Toyota.
As pessoas fazem muitas viagens de longa distância na Noruega?
É uma coisa comum na Noruega ter um chalé e viajar até ele nos fins de semana. Então, nas viagens longas, as pessoas usam carregamento rápido, e uma coisa importante é que os carregadores foram atualizados. A maioria deles hoje é de alta potência, entregando mais de 150 kW. E isso significa que você não precisa carregar por tanto tempo como quanto você carregava a 50 kW.
Então, mesmo com os EVs todos, não há filas?
Não hoje. Observamos algumas se formarem por volta de 2022. Mas, depois que instalamos mais carregadores, a situação começou a melhorar e hoje está muito boa. É importante que haja uma satisfação do consumidor, e, para isso, garantir que o número de estações acompanhe sempre o tamanho da frota elétrica.
Aqui no Brasil a gente vê certa pressão do setor agrícola por conta dos biocombustíveis. A Noruega é um país exportador de petróleo. Vocês não passaram por algo similar?
A indústria do petróleo da Noruega está no mesmo barco que o resto do país. É importante dizer que a maioria do nosso petróleo é exportado e não é usado localmente. Sequer temos refinarias: precisamos exportar o petróleo e importar de volta o combustível.
Há um debate em aberto na Noruega sobre o que fazer da indústria do petróleo no país. Acredito que o caso norueguês mostra como é possível ter produção de petróleo e ainda assim ter políticas verdes em outras áreas.
Thomas Haug
Aliás, como os noruegueses se sentem criando uma política de carbono zero enquanto seu maior produto de exportação é o petróleo?
Existe um debate em aberto na Noruega sobre o que fazer da indústria do petróleo no país, mas a classe política não decidiu ainda. Acredito que o caso norueguês mostra como é possível ter produção de petróleo e ainda assim ter políticas verdes em outras áreas – como, por exemplo, a eletrificação. É possível ter as duas coisas ao mesmo tempo e tem funcionado bem [para nós].
No impacto local, dá para sentir a diferença comparando ao passado? Na poluição do ar e sonora.
Absolutamente. Nas maiores cidades da Noruega também houve eletrificação da frota de ônibus. Hoje, todos os ônibus são elétricos. Então, em grandes cidades do país, as emissões estão melhorando e não são mais tão nocivas quanto já foram. [Oslo] é também uma cidade muito mais silenciosa. Hoje é muito melhor sentar para fora de casa no verão e tomar um café, porque você não é perturbado mais pelo barulho do tráfego. Então a situação das cidades está muito, muito melhor do que era antes.
Sei que a Noruega não é parte da União Europeia, mas como você enxerga o retrocesso na regra que previa eletrificação total em 2035?
Não somos parte da UE, mas somos conectados à ela pelo acordo da Área Econômica Europeia. Então a regulamentação de carros na UE também vale para a Noruega. É uma parte importante que tenhamos essa regulamentação, porque isso força os fabricantes a produzir veículos elétricos.
Vejo o que está acontecendo na União Europeia como um recuo nas metas climáticas de 2035. E acho que é triste de ver. Não é uma coisa boa o que os fabricantes estão propondo, e eles têm apoio de políticos da UE.
Acredito que esse é um momento decisivo para os fabricantes da Europa. Eles podem se acomodar e decidir que querem produzir carros a combustão interna e perder a competição contra as marcas automotivas chinesas.
Thomas Haug
E acredito que esse é um momento decisivo para os fabricantes da Europa. Eles podem se acomodar e decidir que querem produzir carros a combustão interna e perder a competição contra as marcas automotivas chinesas. O que achamos que eles deveriam fazer é tomar uma decisão e assumirem um compromisso com a eletrificação, e enfrentar a competição com os chineses.
Essa é uma razão por que os incentivos foram importantes na Noruega. Eles fizeram com que os elétricos se tornassem a primeira opção dos consumidores. Você tem que compelir os fabricantes a produzirem carros elétricos, mas também tem que dar algo aos consumidores. É importante fazer ambas as coisas.
A atual crise do petróleo pode acabar beneficiando a eletrificação?
A crise atual mostra aos consumidores a situação atual e eles escolhem abandonar o petróleo por razões financeiras. Acho que é um momento para mostrarmos para as pessoas que o preços dos combustíveis mudam muito e se você depende do petróleo para o transporte, você depende do que está acontecendo no resto do mundo. No caso da Noruega, produzimos localmente nossa eletricidade, então é mais seguro do que depender do petróleo.
Qual é o seu carro elétrico?
Eu não tenho um EV próprio. Eu só alugo quando preciso de um carro. Eu moro no centro de Oslo e só preciso de um carro três vezes por ano, e aí posso alugar. Na maior parte do tempo, eu uso ônibus, ando no centro da cidade, ou vou de bicicleta.
Mas é importante dizer que, para muitas pessoas na Noruega, um carro é algo muito importante de ter, para levar as crianças à escola, ir trabalhar, fazer compras. É importante para todos nós que eles possam comprar um veículo elétrico.