Após ter sofrido uma derrota nos tribunais federais – que declararam ilegal o congelamento direto dos fundos do programa NEVI (National Electric Vehicle Infrastructure) destinados à infraestrutura de eletrificação –, o Departamento de Transporte (DOT) apresentou uma nova proposta que, na prática, tem o mesmo efeito. É a exigência de que todos os carregadores financiados com dinheiro público sejam fabricados com 100% de componentes dos Estados Unidos.
Para quem tem a noção mais vaga de como funciona a cadeia global de produção de eletroeletrônicos, dá para imaginar o que isso significa: nenhum equipamento do mundo real se enquadra nisso. A medida, na prática, paralisa por tempo indeterminado os investimentos federais em infraestrutura de carregamento – algo que o governo já estava fazendo, até ser decretado ilegal.
A manobra, anunciada pelo Secretário de Transportes Sean Duffy, busca revogar a atual isenção “Buy America”, que permite que até 45% dos componentes de um carregador sejam importados, desde que a montagem final ocorra nos Estados Unidos. Pela nova regra proposta, a régua subiria para a totalidade das peças, eliminando qualquer margem para itens estrangeiros. Oficialmente, a Casa Branca justifica a medida sob o pretexto de “segurança nacional” e fortalecimento da indústria local, argumentando que o dinheiro do contribuinte não deve financiar cadeias de suprimentos globais.
Ações antiambientais
No entanto, especialistas do setor automotivo e analistas políticos enxergam a proposta como pura sabotagem, mais uma na lista de políticas antiambientais do governo Trump. “É difícil imaginar qualquer produto sendo 100% de origem doméstica”, afirmou Jay Turner, do Wesley College, ao Politico. A fabricação de um carregador depende intrinsecamente de uma cadeia global de eletrônicos, incluindo semicondutores, telas de alta resolução e módulos de potência avançados, cuja produção é dominada pela Ásia e dificilmente seria nacionalizada a curto prazo nos volumes exigidos.
Ao impor uma meta tecnicamente inatingível no cenário atual, o governo cria um gargalo que impede o desembolso dos US$ 5 bilhões do programa NEVI sem precisar cancelá-lo formalmente.
“O anúncio de hoje é mais uma tentativa de má-fé para matar o NEVI e bloquear a construção de infraestrutura essencial que o Congresso aprovou para todos os americanos, afirmou Kahterine Garcia, do programa Transporte para Todos do Sierra Club (uma das maiores associações ambientalistas dos EUA).
O Senado dos EUA, dominado pelo Partido Republicano de Trump, já está discutindo como realocar US$ 879 milhões reservados para a iniciativa NEVI em outras obras de infraestrutura.
Segundo dados compilados pela Automotive World, a indústria de combustíveis fósseis dos EUA gastou US$ 219 milhões na campanha eleitoral de 2024, 88% deles para candidatos do Partido Republicano. A indústria gasta mais de US$ 100 milhões todos os anos em lobby com legisladores, o que inclui votar contra medidas de combate ao aquecimento global ou energia limpa.
Trump, notoriamente, cancelou o incentivo fiscal de US$ 7.500 para carros elétricos no primeiro dia de seu mandato. O Departamento de Energia dos EUA proíbe as palavras “mudanças climáticas” e “emissões”. Recentemente, o governo Trump anunciou um investimento de US$ 175 milhões para ”modernizar” usinas elétricas de carvão e determinou que o Pentágono adquirisse eletricidade produzida por carvão.
Enquanto a proposta segue para o período de consulta pública, o recado para o mercado é claro: a verba para a eletrificação existe no papel, mas o caminho para acessá-la tornou-se um campo minado burocrático.
Via: Automotive World, Politico Pro, Departamento de Transporte dos EUA