A crise do petróleo pode acabar, mas é melhor que ninguém se esqueça de sua lição

No lugar de discutir biocombustíveis versus eletrificação, o Brasil precisa começar a levar a sério a ideia de abandonar os combustíveis fósseis
Atualizado: 8 de abril de 2026 04:04
Foto de refinaria de petróleo
Refinaria de petróleo | Getty Images / Unsplash

Ontem (7 de abril de 2026) foi um dia de grandes eventos. Um momento de excruciante ansiedade, que começou com o líder da maior potência militar do mundo ameaçando varrer uma civilização da face da Terra, terminou num anticlímax, com um cessar-fogo. E, com ele, a reabertura do Estreito de Ormuz, pelo qual passa 20% da produção mundial de petróleo.

Hoje de manhã, o Irã fechou novamente o estreito, mandando uma mensagem aos navios para não cruzarem o estreito. Segundo o governo iraniano, os ataque de Israel ao Líbano, que ocorreram durante a noite, violam as condições do cessar-fogo.

A crise começou com o ataque conjunto dos EUA e Israel ao Irã, em 28 de fevereiro. Seguiu-se a retaliação por parte do Irã, que decretou o bloqueio do Estreito de Ormuz, prometendo afundar qualquer navio de aliados dos EUA e Israel. No período do bloqueio, de acordo com fontes compiladas pela Wikipedia, 16 navios carregando petróleo foram atacados pelo Irã, com 4 deles sendo abandonados pela tripulação. O valor do petróleo atingiu seu recorde histórico em 4 de abril passado, a US$ 144.42 o barril Brent. Isso levou a um aumento de combustíveis mundial, chegando a 24% no caso do diesel brasileiro.

Durante a crise, também foi registrado um aumento no interesse por veículos elétricos mundialmente e um recorde histórico de vendas no Brasil, com um aumento de quase 200% em relação ao ano anterior – o que, num mês de grande aquecimento nas vendas, pode ou não ser coincidência, mas possivelmente é ao menos um fator no sucesso.

Se a crise chegar ao fim – e o anúncio do cessar-fogo, mesmo se frustrado, indica essa possibilidade para breve – existe a tendência natural de se voltar a fazer tudo como sempre. Mas pode também significar um ponto de virada. Quem sabe até, sendo otimista, marcando o fim do período recente de recuos na eletrificação por parte de fabricantes tradicionais.

Seja como for, a crise deixa um alerta que precisa ser ouvido: no lugar de um depósito de riquezas para o futuro, o petróleo é cada dia mais um risco para as segurança nacional.

O salário do petróleo

Não é segredo para ninguém: petróleo significa instabilidade geopolítica. Guerras no Oriente Médio acontecem por diversos pretextos, mas são vistas como ligadas ao desejo/necessidade dos EUA em assegurar o recurso para si.

E existe a chamada maldição do petróleo – oficialmente a “maldição dos recursos naturais” ou “paradoxo da abundância”. É a situação em que países ricos em recursos como o petróleo tendem a ser politicamente instáveis, autoritários e com baixo nível de vida para a população, com a riqueza indo parar nas mãos de oligarcas.

(A grande exceção é a Noruega que, mesmo tendo 50% de suas exportações na forma de petróleo, é o país que se moveu mais rápido na eletrificação – porque houve um consenso nacional em abandonar os combustíveis fósseis, ao menos internamente.)

Há mais de 50 anos, um momento semelhante causou um choque que moveu o mundo todo. A Crise do Petróleo de 1973, que ocorreu quando os países exportadores se uniram num boicote à Guerra de Yom Kippur. Ela acabou com Milagre Econômico da ditadura militar, com a era dos carrões no mundo todo, e deu início ao programa de biocombustíveis do Brasil.

Biocombustíveis: uma história brasilieira

Como consequência desse choque, o Brasil terminou com uma situação única no mundo em biocombustíveis – outros países, como os EUA, se limitam a misturar etanol na gasolina – foi inclusive elogiado pela Economist durante a crise.

Mas isso não é a história inteira. Lembrar do etanol é a oportunidade de lembrar de como ele surgiu. Isso permite etender momento atual e como esse momento pode ser decisivo.

O etanol não surgiu com qualquer preocupação ambiental – o aquecimento global já existia e já era conhecido, mas não foi tratado como uma questão urgente até a década de 1990. O Programa Nacional do Álcool (Proálcool) foi criado em 1975 para livrar o Brasil da dependência do petróleo.

Ainda que a produção nacional de petróleo tenha aumentado desde então, o Brasil produz principalmente um petróleo do tipo pesado, que não é o usado nas refinarias nacionais. Então acabamos tendo que importar tanto petróleo quanto combustíveis refinados. Em 2025, o país exportou 700 milhões de barris de petróleo, mas importou 132 bilhões apenas dos EUA. O petróleo foi o segundo produto mais importado do país. E, apenas em diesel, também importamos 17,32 bilhões de litros – 25% do consumo nacional, de 70 bilhões.

Se biocombustíveis aliviaram a crise, tanto nos anos 1970 quanto agora, eles não têm como ser a resposta definitiva. Por conta da área agrícola necessária para produzi-los, seria preciso tomar um território proibitivo do Brasil para transicionar para apenas biocombustíveis.

O consumo atual de etanol foi de 21,3 bilhões de litros em 2025. O de gasolina C (que desde agosto de 2025 tem 30% de etanol adicionado) foi 46,7 bilhões de litros – considerando o etanol na mistura, 14 bilhões de litros passam para o lado do etanol, então temos um empate técnico em cerca de 35 bilhões de litros para cada combustível. Mas, considerando que a gasolina tem 30% mais energia que o etanol, seria preciso mais que dobrar a produção do etanol para fazer uma transição completa.

E um problema ainda pior seria o diesel. Segundo um estudo publicado pelo Instituto Ar, seria necessário ocupar 25% da área do país inteiro com plantações de soja para substituir todo o diesel.

A decisão que nunca foi tomada

É comum os fabricantes tradicionais e o governo tecerem louvores aos biocombustíveis como um trunfo do país. Mas não é o único trunfo: nenhum país grande tem uma matriz energética tão limpa quanto a do Brasil e, por conta disso, em nenhum outro transicionar para veículos elétricos tem um impacto tão grande em emissões quanto aqui. Se há abundância de terras agricultáveis, há também de rios, vento e luz solar. E não há como um país invadir o Brasil e embarcar sua eletricidade em navios.

A saída de 2026 não deve ser a mesma que a de 1973. Mas, antes de escolher a saída, é preciso haver a decisão nacional de que essa saída irá acontecer. E essa decisão continua a ser adiada.

Uma das grandes frustrações da COP30 foi o Brasil não ter apresentado qualquer plano para abandono dos combustíveis fósseis. Mesmo o plano mais recente divulgado pelo governo é imensamente conservador em matéria de mobilidade, prevendo que um aumento da malha ferroviária venha com um aumento proporcional de emissões: isto é, prevendo que os trens do futuro sejam todos a diesel.

Quando o Brasil levar a sério a questão do fim dos combustíveis fósseis, mesmo se a resposta escolhida for biocombustíveis, dado o poder dos setores envolvidos, vai ficar rapidamente evidente sua inviabilidade como saída principal. E não deve tomar tanto tempo assim.

Mas é preciso dar o primeiro passo.

Atualização em 08/04/2022 15h16: refletindo o fechamento do estreito de Ormuz.

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