“Como um petroleiro a vida inteira, desde os anos 80, chegando a presidência da maior empresa do hemisfério sul, digo a vocês: a era do petróleo acabou. Acabou! Não está acabando, não está transitando. Ela acabou!”
Assim o ex-senador Jean Paul Prates introduziu o evento Seminário LIDE Energia/Eletromobilidade, que aconteceu em São Paulo na última terça-feira (24 de fevereiro), e reuniu diversas figuras da indústria, como Alexandre Baldy, vice-presidente da BYD Brasil, Iêda Maria, diretor comercial da Eletra, e Daniele Nadalin, sócio-diretor da McKinsey, além dop prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, e o ex-governador João Doria, que é fundador da própria Lide.
O seminário dá uma boa ideia do que é o clima entre gestores do setor: um misto de otimismo resguardado e certa ansiedade com a morosidade das políticas públicas e a facilidade com que certos lobbies tradicionais obtém concessões no Brasil.
O evdrops esteve por lá e aproveitou para obter algumas palavras dos líderes presentes. Abaixo, editamos as falas para maior clareza. É um pequeno recorte. O conteúdo do seminário pode ser acessado na íntegra no vídeo acima.
O petróleo no passado

Prates foi um dos mais contundentes em suas falas. Com uma longa trajetória no setor energético, ele foi presidente da Petrobras em 2023 e 2024, foi senador pelo PT pelo Rio Grande do Norte entre 2019 e 2023 (assumiu como suplente de Fátima Bezerra, que se afastou para se tornar governadora do Rio Grande do Norte). Hoje lidera o CERNE – Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia, um instituto privado no Rio Grande do Norte.
“Com a expectativa de intervenção no Irã, teremos talvez uma última crise de petróleo. A terceira grande crise de petróleo. Porém, é uma crise de desespero, é o grito de quem está morrendo. Então, esse setor, essa era já terminou. E o futuro passa por isto que a gente tá falando: a eletromobilidade chegou e já é o presente.”
É legítimo que os biocombustíveis, o gás natural, o biometano, se coloquem como tais, mas eles não são combustível do futuro. Isso é um engodo. O combustível do futuro é a eletricidade
Prates criticou os grupos de pressão atuando no Brasil. “Muitos dizem, por aí, mundo a fora, que o grande desafio da eletromobilidade é enfrentar o lobby do petróleo. Não é o caso do Brasil. Eu estive como presidente da Petrobras e de novo tenho o lugar de fala para dizer que o petróleo não é o inimigo do veículo elétrico no Brasil”, falou, após acrescentar em tom de ironia: “Deixo a vocês o desafio de imaginar quem é”.
E deixar claro na sequência: “É legítimo que os biocombustíveis, o gás natural, o biometano, se coloquem como tais, mas eles não são combustível do futuro. Isso é um engodo. O combustível do futuro é a eletricidade”.
A referência, se alguém perdeu, é ao programa Combustível do Futuro do Governo Federal, que obviamente considera biocombustíveis como uma saída de longo prazo, contrário ao consenso dos especialistas. Prates saiu da presidência da Petrobras após um conflito com o presidente Lula sobre sua administração, levando a sua mudança de partido.
A questão urbana

Também palestrou Iêda Maria, diretora comercial da Eletra – fabricante nacional de ônibus elétricos a bateria e trólebus. Ela falou a respeito do impacto ambiental e econômico da eletrificação da frota urbana, e a qualidade de vida nas cidades.
Lembrou o caso da Avenida Santo Amaro, em São Paulo, em que a troca dos trólebus por ônibus a diesel no corredor causou, ela acredita, a decadência do comércio local. “Muitas lojas fecharam as portas, principalmente de roupa e alimentação, por conta da poeira [provavelmente querendo dizer fuligem, que vem dos escapamentos].”
Ela afirma que empresas como a sua são o caminho para o Brasil reconquistar o mercado perdido de ônibus no continente. “O Brasil sempre liderou o mercado de ônibus na América Latina. E vem perdendo. Nós deixamos de ser o maior exportador. Hoje a gente vê as empresas da Ásia praticamente dominando o mercado de ônibus elétrico na América Latina. E a Eletra vem como um contraponto a isso.”
Previsões “malucas”: pode o Brasil criar seus próprios carros?

Daniele Nadalin, sócio-diretor da consultoria McKinsey, falou sobre como a empresa foi criticada ao prever um mercado de 20% de eletrificados no passado e acabou provada correta (em janeiro, foram 21,7% pelos números da Fenabrave.)
“Muitas pessoas falaram para mim: ‘Você tá maluco, né? Nunca vamos ter 20, 25% de carros eletrificados no Brasil. Temos etanol, temos biocombustíveis, etc.’ Mas a gente estava convencida daquelas projeções porque a simplesmente olhamos para os dados: os dados de custo, os dados do que estava acontecendo nos outros países, fizemos pesquisa com consumidores, então tivemos bastante convicção que isso ia acontecer.”
Nadalin porém falou que era preciso dar um passo atrás e olhar a indústria hoje. “Se a tecnologia do carro elétrico de hoje fosse definitiva, provavelmente o Brasil ficaria para trás de países como a China, a Coreia e alguns europeus. A distância seria muito muito longa para ser recuperada. Mas a notícia positiva é que a tecnologia de veículos elétricos não é definitiva. Existem tantas coisas que estão acontecendo e que vão acontecer no futuro, que vão abrir oportunidade para países que não capturaram a primeira onda de tecnologia desenvolverem sua própria tecnologia.”
Ele deu como exemplo, as tecnologias autônomas. “Nossa previsão é que em 2035, no Brasil, um carro autônomo seja 20% mais barato que um Uber com motorista. Ainda não tem um país que domina claramente tecnologia autónoma.”
Um veículo elétrico tem muito menos componentes, muito menos complexidade. Então, sim, a barreira de entrada nesse mercado é muito menor e por isso é que a gente viu surgir dezenas, centenas de empresas na China
Perguntamos a ele sobre qual a chance de o Brasil desenvolver essa indústria própria, citando o exemplo da Eletra. Não seriam as barreiras de entrada para elétricos menores que a dos veículos de combustão interna?
“Com certeza”, ele respondeu. “E vou fazer uma observação sobre o que está acontecendo na China. Na China existem mais ou menos 120, 130 marcas de carros. Alguém poderia falar que muitas empresas criando carro. Mas na verdade não, quem cria de fato o carro são pouquíssimas dessas empresas, as outras simplesmente são de fato montadoras. Se a gente fala de montadoras na indústria nacional, é uma empresa que fabrica muita parte do veículo. Mas as empresas chinesas não – são de fato montadoras. Elas pegam o motor, pegam a bateria, pegam a plataforma. Isso com certeza é muito mais fácil do que um veículo a combustão. Um veículo elétrico tem muito menos componentes, muito menos complexidade. Então, sim, a barreira de entrada nesse mercado é muito menor e por isso é que a gente viu surgir dezenas, centenas de empresas na China.”
É uma resposta dupla de certa forma: fazer é fácil, mas criar é difícil – e cai no que Nadalin havia falado de alcançar a China. Então perguntamos: “Teríamos alguma chance com o que já existe por aqui? Por exemplo com a Weg, que é uma das grandes mundialmente e está fabricando motores e baterias para a Eletra”. Aqui a resposta foi mais otimista.
“Com certeza [temos chance], por dois motivos: o primeiro é ter uma logística muito mais barata, porque teríamos os meus componentes chave aqui no Brasil. E segundo, também porque aqui no Brasil há algumas necessidades de conteúdo local para os veículos terem acesso a determinados benefícios. Então, se você é uma montadora que consegue adquirir as baterias e os motores que, juntos são 50, 60% do custo de um veículo, aqui no Brasil, isso gera uma competitividade muito grande. A esperança que essa indústria, seja com a Weg, seja com outras empresas, aumente a produção de componentes no futuro para habilitar mais produção local de veículos.”
O mundo é global, senhoras e senhores

Em sua fala, o vice-presidente da BYD Brasil, Alexandre Baldy, tocou no tema de políticas públicas. Sua empresa, afinal, tem sido alvo de uma campanha por fabricantes estabelecidos tentando impedir que obtenha benefícios fiscais destinados à eletrificação.
Baldy começou elogiando as iniciativas de São Paulo de eletrificação no transporte coletivo, elogiando o prefeito Ricardo Nunes. E falou contundentemente sobre a visão da marca. “A indústria investirá na produção local? Tudo isso varia de acordo com a política pública, porque qualquer investidor brasileiro ou estrangeiro necessariamente precisa de uma regra clara, de uma política pública efetiva, para que ele acredite e arrisque o seu capital. Porque o mundo é global, senhoras e senhores!”
“Então”, continuou, “avaliar investir no Brasil, como a BYD investe hoje, quase 6 bilhões de reais uma fábrica só para carros a passeio, é da mesma forma avalia o investimento na Tailândia ou na Hungria. Esse investimento poderia ocorrer na Argentina, poderia ocorrer no México, poderia ocorrer qualquer qualquer lugar. Se nós não tivermos a política pública efetiva e adequada para o momento oportuno, nós perderemos oportunidades.”
É importante o Brasil entender qual quais são as rotas do futuro e desenvolver a regulação para que essa rota do futuro se torne uma realidade. O ecossistema da mobilidade elétrica é uma realidade, e uma realidade extremamente oportuna para o Brasil.
Perguntamos a Baldy quais políticas públicas o Brasil poderia copiar de outros países. Ele não respondeu à pergunta apontando outro país, mas disse o que acredita que o Brasil poderia fazer por si mesmo.
“São várias políticas públicas que o Brasil pode promover, seja para o consumo, seja para industrialização. Porque é importante o Brasil entender qual quais são as rotas do futuro e desenvolver a regulação para que essa rota do futuro se torne uma realidade. O ecossistema da mobilidade elétrica é uma realidade, e uma realidade extremamente oportuna para o Brasil. Haja vista que temos os minérios, que temos escala de consumo. Acho que o governo tem que avaliar globalmente o que há de oportuno para o momento e para o planejamento futuro, para que posas fazer com que políticas públicas, com que a regulação, acompanhe o avanço tecnológico e o Brasil possa estar inserido [nesse avanço mundial]. Sobretudo, com toda a oportunidade que possui na matriz elétrica, na geração, na exploração de minérios, nas nossas indústrias, para que ainda possa permitir a qualidade de vida para as pessoas.
Perguntamdos sobre a transferência de tecnologia. “Temos hoje mais de 400 fornecedores homologados na fábrica de carro. Temos dezenas de fornecedores na fábrica de ônibus, na fábrica de painéis solares. O Brasil tem é um país de oportunidade de empreendedorismo inigualável. ”