
Em reação ao atual choque de oferta do petróleo causado pelo bloqueio o Estreito de Ormuz, a Agência Internacional de Energia lançou um e-book com recomendações aos países para se protegerem de seus impactos atuais e de eventos similares no futuro.
Reunindo 33 países membros (o Brasil é candidato a entrar), a IEA é a organização internacional mais importante do setor energético. Segundo a Agência, a crise atual é pior do que o choque de de 1973, que mudou para sempre a indústria automotiva, acabando com a era dos carros gigantes, e levou à sua própria criação. Cerca de 20% do suprimento mundial do petróleo passa pelo Estreito, e basicamente todos os navios estão parados agora, sob a ameaça de serem atingidos por drones e mísseis iranianos caso tentem cruzar a passagem.
A crise começou em 28 de fevereiro, quando EUA e Israel lançaram um ataque surpresa ao Irã, matando seu líder supremo, Ali Khamenei. O país reagiu disparando drones suicidas e mísseis contra instalações e navios dos EUA e países aliados, e decretou o bloqueio do Estreito a qualquer tráfego naval. No momento, não há sinal de um cessar-fogo por nenhuma das duas partes.
As recomendações da IEA para se proteger do choque do petróleo
Chamado Sheltering from Oil Shocks – Measures to reduce impacts on households and businesses (“Protegendo-se de Choques do Petróleo – medidas para reduzir os impactos em residências e negócios”), o e-book da IEA tem diversas recomendações imediatas. Várias, ligadas ao setor de transportes. São elas:
- Incentivar o trabalho remoto quando possível;
- Reduzir o limite de velocidade nas rodovias em 10 km/h;
- Encorajar o transporte público;
- Realizar rodízios urbanos;
- Incentivar a adoção de caronas;
- Adotar técnicas de eficiência em veículos comerciais (como controlar corretamente a pressão dos pneus);
- Reservar o gás liquefeito de petróleo (GLP) exclusivamente para casas, impedindo seu uso em veículos;
- Trocar equipamentos de cozinha de GLP para eletricidade, quando possível;
- Evitar o transporte aéreo desnecessário;
- Manejar insumos industriais de petróleo, dando prioridade aos mais importantes.
Veículos elétricos não aparecem entre essas recomendações porque são as de curto prazo. Mas eles são a primeira recomendação estrutural de longo prazo, a ser adotada em conjunto com essas ações emergenciais. Isto é o que a IEA tem a dizer sobre EVs:
Reforçar a adoção de veículos elétricos e mais eficientes e acelerar a instalação de infraestrutura de recarga de EVs: EVs hoje são1 em cada 4 carros vendidos mundialmente. Promover EVs, híbridos e outros veículos de alta eficiência energética – não apenas carros, mas também veículos de duas rodas, ônibus e caminhões –, ao mesmo tempo em que se expande a infraestrutura de recarga, pode reduzir a dependência global de petróleo. Os governos podem acelerar a adoção por meio de incentivos fiscais, subsídios, zonas de baixas emissões e outras políticas de suporte.
A IEA chega a oferecer um elogio ao Brasil logo a seguir:
Alguns países recentemente aceleraram seu processo de eletrificação em meio à atual crise: a Indonésia busca converter sua frota de duas rodas por meio de programas direcionados, enquanto o Laos está investindo em carregamento de EVs e explorando outras medidas. Enquanto isso, incentivos a EVs num contexto de estratégias industriais mais amplas podem amplificar seu impacto. Os programas Mobilidade Verde e Inovação [Mover] ilustra isso ao combinar padrões de economia de combustível com incentivos para a produção nacional de EVs.
Nosso take
É uma oportunidade interessante para o governo federal revisar e colocar seus programas de incentivo na direção correta. Atualmente, eles incentivam veículos a combustão interna, que inclusive os modelos que já eram os mais vendidos antes do programa. Protegendo esses veículos da concorrência crescente dos elétricos de entrada.
Isso é feito por conta de uma possibilidade apenas hipotética, o uso de biocombustíveis no lugar de gasolina, que não é o que se observa no mundo real, onde quase a gasolina é preferida pelo consumidor sempre que mais barata. E biocombustíveis não são realmente uma saída sustentável para o fim do petróleo.