Associação de fabricantes manda carta a Lula pedindo fim da isenção de impostos para carros elétricos chineses

Anfavea defende a não renovação do incentivo fiscal aos kits prontos (SKD e CKD) com os quais se iniciou a produção nacional de elétricos pela BYD e outras
Atualizado: 20 de janeiro de 2026 02:01
Foto de Igor Calvet, presidente da Anfavea
Igor Calvet, presidente da Anfavea | Anfavea / Divulgação

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos automotores (Anfavea) lançou hoje um manifesto incluindo uma carta ao presidente Lula pedindo que as cotas de importação de kits CKD e SKD isentos de impostos não sejam renovadas ao fim do mês.

Kits SKD (“semi knocked down”, semidesmontados) e CKD (“completely knocked down”, desmontado) são modalidades de produção nas quais o carro chega quase pronto (no primeiro caso) ou totalmente desmontado, mas com todas as peças produzidas no exterior. As recém-chegadas chinesas BYD e GWM produzem nacionalmente nesse esquema.

A Anfavea, que representa a maioria dos fabricantes estabelecidos no Brasil, como GM, Volkswagen, Honda e Stellantis, quer não sejam renovadas as cotas de importação isenta de impostos desses kits, definidas na portaria Secex 328 e resolução Gecex 532. (Secex é a Secretaria do Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Comércio, Indústria e Serviços; Gecex é o Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior.)

As decisões estabeleceram cotas de importação dos kits, em milhões de dólares, de forma que fabricantes de veículos elétricos se instalassem no Brasil. Foi o que aconteceu e tem sido um sucesso – as vendas de elétricos puro cresceram 15 vezes mais rápido em 2025 do que a de carros convencionais.

O que parece um fator de progresso é considerado um fato alarmante para a Anfavea, que cita esse crescimento como um sério problema:

A competitividade da indústria nacional depende do controle de entrada de veículos importados eletrificados sem agregação de valor e sem colaboração econômica entre os países, que já emplacaram 219 mil unidades até outubro de 2025 e representam um crescimento de 39% comparado ao mesmo período de 2024;

A associação afirma que é não é contra a eletrificação e que faz um esforço em prol da indústria nacional, já que esses kits prontos não têm a mesma tecnologia agregada ou o potencial de empregos de uma rede de autopeças baseada no Brasil, e fala na desindustrialização e perda de empregos e dinheiro.

O espelhamento dos modelos de produção CKD e SKD poderiam representar uma redução de até R$ 97 Bilhões no mercado de autopeças em um ano e, consequentemente, na arrecadação na ordem de R$ 24 Bilhões;

Comentário

Desindustrialização é um problema sério. Ninguém gostaria de ver os carros se tornando como os eletrodomésticos “brasileiros”, nos quais várias marcas “nacionais” vendem o mesmo produto chinês com rótulos diferentes, “produzindo” no esquema white label para se beneficiarem com políticas de incentivo à indústria.

Mas, com os chineses começando a operar há meros meses na forma de kits importados, e a proposta sendo justamente para facilitar essa entrada, a reação parece precipitada.

Já existem incentivos para que esses fabricantes nacionalizem a produção. Talvez o maior deles seja a Lei do Carro Sustentável (que teve grande influência da Anfavea em sua concepção), que estabelece critérios de nacionalização para conceder isenção de IPI, excluindo com isso os elétricos chineses do “sustentável” até atenderem a esses critérios. A lei beneficiou os modelos que já eram os mais vendidos no Brasil – produzidos por membros da Anfavea.

E, ainda que a Anfavea afirme (como sempre faz) que não é contra a eletrificação, se posicionar contra as portarias para favorecer a entrada carros elétricos pouco após o começo da produção, mencionando seu sucesso como uma ameaça, torna difícil não ver o manifesto como uma tentativa de proteger uma tecnologia contra sua sucessora.

Membros da Anfavea fabricam modelos eletrificados no exterior. Não os produzem no Brasil por sua decisão. Se eles se recusam a competir em fabricar elétricos, e se opõem à opção que existe, sua causa é na prática é a de proteger a combustão interna.

O mistério é que diversos membros da Anfavea têm parcerias com chineses para produzir elétricos no Brasil, e, salvo engano, no mesmo esquema pré-montado. A GM começou a fabricá-los no Ceará, a Renault é parceria da Geely e vai “emprestar” sua fábrica neste ano, e a Stellantis patrocina a Leapmotor, que também deve começar a fabricar no Brasil.

Tentamos entrar em contato com essas marcas pra entender se apoiam o manifesto da entidade da qual fazem parte. Vamos atualizar quando elas responderem.

Leia a carta na íntegra

Ref.: Não renovação de cotas de importação CKD e SKD de veículos eletrificados

A ANFAVEA apresenta seus cumprimentos e, para reiterar o conteúdo da carta anexa encaminhada em 14/07/2025, manifesta-se quanto à necessidade de não renovação das cotas de importação nas modalidades CKD e SKD para veículos eletrificados (NCMs 8703.60.00, 8703.80.00 e 8704.51.00), que vencerão em janeiro de 2026. A prorrogação dessas cotas representaria grave risco à integridade e manutenção da política industrial nacional, impactando não só a competitividade de toda cadeia automotiva instalada no país, mas também a economia brasileira:

  • A competitividade da indústria nacional depende do controle de entrada de veículos importados eletrificados sem agregação de valor e sem colaboração econômica entre os países, que já emplacaram 219 mil unidades até outubro de 2025 e representam um crescimento de 39% comparado ao mesmo período de 2024; O espelhamento dos modelos de produção CKD e SKD poderiam representar uma redução de até R$ 97 Bilhões no mercado de autopeças em um ano e, consequentemente, na arrecadação na ordem de R$ 24 Bilhões;
  • Sob a perspectiva de postos de trabalho, esses modelos simplificados de produção poderiam reduzir a força motriz em aproximadamente 3⁄4 dos empregos diretos do setor – 68 mil vagas – e, indiretamente na cadeia, em torno de 190 mil colaboradores; Diante do exposto, a continuidade dos investimentos que a indústria local tem realizado com foco na transição tecnológica e ambiental, necessitam de previsibilidade e coerência regulatória, portanto, a renovação dessas políticas (cotas CKD e SKD para alto volume), desestimulam a cadeia produtiva e ameaçam diretamente milhares de empregos qualificados, desorganizando a economia.

Diante disso, a ANFAVEA solicita respeitosamente o apoio institucional de V. Exa. no sentido de se posicionar no âmbito do Gecex contra a prorrogação das cotas de importação mencionadas, contribuindo para a preservação da indústria nacional e continuidade dos investimentos no Brasil.

Respeitosamente,

Igor Calvet
Presidente

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