
Enquanto os fabricantes europeus pressionam para manter a combustão interna o mais tempo possível, a elite técnica da indústria automóvel alemã tem outra ideia: a Europa precisa da China para sobreviver num cenário de incerteza vindo dos Estados Unidos.
Ferdinand Dudenhöffer, fundador do Centro de Pesquisa Automotiva da Universidade de Munique, frequentemente apelidado de “padrinho” da indústria automóvel na Alemanha pela imprensa alemã, concedeu uma entrevista ao jornal chinês Global Times esta semana. A sua tese é direta: a indústria automotiva da Europa deve deixar para lá os EUA e investir tudo numa aliança com a China.
Dudenhöffer celebrou o recente “pouso suave” nas negociações entre a China e a União Europeia, onde tarifas punitivas estão a ser substituídas por acordos de compromisso de preços mínimos (saiba mais aqui).
Segundo o especialista, a acusação de dumping (isto é, venda com prejuízo para acabar com a concorrência) contra as montadoras chinesas é incorreta. “Os custos de marketing e distribuição na Europa são altos, e é isso que eleva o preço, não uma estratégia predatória”, explicou. Para ele, o acordo de preços mínimos é benéfico, pois estabiliza o mercado sem fechar as portas para a tecnologia que a Europa necessita.
“Falando de baterias de íon de lítio por exemplo, empresas como CATL e a Guoxuan High-Tech proveram um suporte chave para a fabricação de veículos elétricos europeia“, afirma o especialista. “No setor de baterias, a Europa está patinando 20 anos atrás da China, mas com as baterias de provedores chineses, a Europa pode superar essa desvantagem.”
Uma nova aliança
Além da tecnologia, há a geopolítica. Dudenhöffer repetiu o que já havia falado à imprensa alemã, que os EUA são perigosos para o seu país. “Muitas das ações atuais do presidente Trump estão fundamentalmente destruindo a confiança das pessoas nos Estados Unidos e e trazendo enorme incerteza para nossa economia”, afirma. “Ele faz novas ameaças à Europa quase diariamente, como impor tarifas e comprar a Groenlândia. Assim, é crucial que a Europa estabelece ligações próximas com a China. Se Beijing, Bruxelas e Berlim puderem travar um diálogo mais profundo, será altamente benéfico. Isso será uma excelente oportunidade para a Alemanha e a China se alinharem mais nos campos do comércio e da economia.”
O pesquisador também falou da recente decisão da União Europeia de reverter seu anterior compromisso de parar de vender carros com emissões de carbono (assim extinguindo carros a combustão interna) em 2035. “Infelizmente, muitos políticos alemães, especialmente políticos conservadores, têm uma atitude negativa com veículos elétricos”, afirma. “Eles acreditam que motores a combustão interna podem liderar o futuro com sucesso e promover o desenvolvimento da indústria automotiva alemã. Mas a realidade é exatamente o oposto. Essa hesitação e vai e vem irá apenas confundir o mercado e as expectativas dos consumidores, aumentando ainda mais a distância com os fabricantes chineses de veículos elétricos.
Ele fala da eletrificação como uma questão além das mudanças climáticas. “Precisamos de veículos elétricos, não apenas para lidar com a mudança climática, mas também para fazer de nossas cidades mais vivíveis”, diz Dudenhöffer . “Assim, eu acredito que relaxar as exigências para veículos com emissões de carbono zero em 2025 é um erro. Antes tínhamos regulamentações exigindo que novos carros deveriam ser zero emissões a partir de 2025, o que era a abordagem correta, mas agora isso foi derrubado, refletindo a inconsistência da política industrial europeia. A China demonstrou ação e pensamento estratégicos, com o que eu chamo de ‘persistência‘”.
Duas tradições diferentes
Dudenhöffer reconheceu as qualidades positivas da indústria alemã: “Fabricantes alemães têm grande expertise e experiência em design de chassis, materiais de alta qualidade para os interiores dos veículos, e tecnologias de design. Mais que isso, o design de produtos da indústria automotiva alemã é durável”. Em comparação, os chineses tem uma avanço de pesquisa e desenvolvimento 50% mais rápido.
Segundo ele, isso tem a ver com as características dos consumidores, com um mercado que valoriza muito menos a tradição na China. “Na Alemanha, compradores geralmente valorizam o legado da marcas e o valor a longo prazo dos veículos. Quando eles compram um carro, eles frequentemente já tem uma relação de confiança com a marca que durou por dez ou mais anos. Em contraste, o mercado chinês tem um grande número de pessoas comprando carros pela primeira vez, o que significa que a construção de marcas e estratégias de vendas tem que diferir.”
O engenheiro elogiou os planos da Volkswagen e Audi na China, que deixaram quase todo o processo de desenvolvimento localizado, com a estratégia “Na China, para a China”.
“2026 será um ano emocionante, pois veremos os primeiros frutos reais dessa colaboração a chegar às ruas”.