
Clemente Gauer é uma das figuras que movem o processo de adoção do carro elétrico no Brasil. Diretor da ABRAVEi (Associação Brasileira dos Proprietários de Veículos Elétricos Inovadores) e à frente da diretoria da pasta de segurança e conselho da ABVE, ele foi uma das pessoas que contribuiu com o texto da lei que garantiu o direito à instalação de carregadores no condomínio em São Paulo.
Com passagens pela Apple e empresas do setor como a Tupinambá, sua história com carros elétricos começou em 2018, quando comprou um Mitsubishi iMiEV e tanto se encantou com a tecnologia como percebeu seus desafios.
Clemente conversou com o evdrops a respeito da evolução recente do setor no Brasil.
Fábio Marton – evdrops: Houve muita celebração em torno do fato de o carro mais vendido no varejo no Brasil em fevereiro ter sido um elétrico (o BYD Dolphin Mini). Vou confessar que foi surpresa até para mim. Esse momento já era esperado?
Clemente Gauer: Eu não tinha dúvida de que a gente ia chegar a esse momento. O brasileiro sempre surpreende de maneira muito positiva na adoção rápida de novas tecnologias. Foi assim com a internet, assim com os celulares, assim com as redes sociais e com o streaming. Diante desse cenário e da comunicação veloz, era claro que os benefícios do carro elétrico seriam percebidos rapidamente. E eles são extremamente tangíveis.
E então, assim, no momento que a gente começa a ter um carro que… não vou chamar de popular ainda, porque eles custam consideravelmente mais do que um um carro de entrada… mas quando ele passa a ser acessível e começa a trazer resultado financeiro na ponta do lápis para quem dirige muito… nesse ponto, eu não tive dúvidas de que ele iria chegar em primeiro lugar.
Isso tem a ver também com a adoção por motoristas de aplicativo, correto?
Os maiores evangelistas da eletromobilidade hoje são os motoristas de aplicativo. Para eles, a questão orçamentária é muito sensível.
Aliás, o vice-presidente da Abravei, o Thiago Garcia, foi o primeiro motorista de Uber elétrico no Brasil. Isso em 2018, 2019. Ele começou a fazer a conta na ponta do lápis lá atrás e falou: “Espera aí, com o carro elétrico eu estou economizando quase R$ 4.000 ao mês de combustível e manutenção!”. Era evidente que essa notícia e essa informação correria todo o setor no Brasil.
Surgem histórias maravilhosas, né? Um motorista usando a economia para a universidade da filha, outro pagando cursinho para poder entrar numa universidade pública e por aí vai
Hoje eu faço uma “pesquisa” com os motoristas de aplicativo. Pergunto: “Quanto você economiza por mês?”. E a resposta sempre fica entre 2.900 a 4.000 mil reais. Fiz mais de 100 corridas de aplicativo 100% elétrico em São Paulo. Nenhum desses motoristas falou que voltaria o carro a combustão. E surgem histórias maravilhosas, né? Um motorista usando esse orçamento para a universidade da filha, outro pagando cursinho para poder entrar numa universidade pública e por aí vai.
Há alguma característica no Dolphin Mini que o torne candidato a ser tão popular assim? No exterior, ele não é tão vendido assim. O que fez ele dar um “match” com o Brasil?
O Dolphin Mini é um veículo emblemático. É compacto por fora com um espaço generoso por dentro.
A BYD foi muito feliz no Brasil, por a gente ter um alinhamento muito parecido com a China, em matéria de carro. O chinês não está tão preocupado, por exemplo, sobre a suspensão do veículo ou características intrínsecas do powertrain. Ele quer conforto, uma tela grande e muita tecnologia.
E adivinha quem valoriza esses mesmos critérios? O brasileiro, né? O Brasil sempre foi o país do painel bonito, onde as pessoas julgavam muito um carro pela aparência.. Eu acho que o Mini vai absolutamente na direção do que o brasileiro desejava, e agora com um produto excelente que traz economia real.
Falando no Brasil, como ele se compara com os países vizinhos?
E a gente vive um momento diferente dos países vizinhos. No Brasil, a energia solar explodiu. Quase 80% das pessoas moram em casas. A combinação de carro elétrico econômico com energia solar é o “alvará de soltura” da amarra que sempre tivemos com os combustíveis. Hoje estamos à mercê de combustíveis caros e de qualidade não garantida, muitas vezes na mão do crime organizado. Além de se desvencilhar da adulteração e da dependência do posto, a manutenção é muito menor.
Mas o Brasil, diferente dos vizinhos, fala muito em biocombustíveis – e isso tem apoio do governo e dos fabricantes tradicionais. O consumidor também não está acostumado com essa solução?
Sempre se acreditou que o biocombustível é a bala de prata no Brasil. Só que não perguntaram ao consumidor o que ele quer: “Oi consumidor, tudo bem? Como você está? O que que você deseja se você puder escolher como energia para o seu veículo? Você quer uma energia que custe mais caro que combustível fóssil na maior parte das vezes? Ou você quer uma energia que custa 1/5 do que qualquer outra forma de combustível? E aliás, também gostaria de não ter que pagar revisão? Ou se você pagar talvez R$ 200 em vez de R$ 1.500?
Então, eu acho que nunca se fez essa pergunta, né? A premissa de que eletromobilidade tem essa grande vantagem intrínseca a seu favor e nunca é mencionada nas pesquisas de opinião.
Os fabricantes também acusaram os kits de fabricação (CKD e SKD) de porem em risco a industrialização do país. Faz sentido isso?
Me diga uma montadora que não começou com CKD. Você acha que quando o Fusca começou a ser montado aqui, começamos com a fundição do bloco, tudo? Que não foi nada importado no começo?
Me diga uma montadora que não começou com CKD. Você acha que quando o Fusca começou a ser montado aqui, começamos com a fundição do bloco, tudo? Que não foi nada importado no começo?
E a BYD concorre com qual carro deles? Não existe concorrente similar. Então é um pouco estranho isso. Eles gozaram do mesmo benefício e vão contra.
E por que as montadoras estabelecidas não trazem seus modelos elétricos? Quase todas elas têm opções.

A resistência no Brasil não é brasileira, ela é importada por decisão das matrizes lá fora. As montadoras tradicionais estão atoladas em questões financeiras e dizem para a filial brasileira se virar com o que já tem e extrair o máximo dos investimentos já feitos em motores a combustão. O efeito colateral disso é o atraso da eletromobilidade.
Minha visão é o seguinte: a matriz fala assim: “Brasil, faz o que você puder, se vira com o que você tem. Você tem que trazer resultado com o produto que você tem aí.”
Eles poderiam até querer poder mandar elétricos ao Brasil. Mas tem que atender à demanda na Europa. Tem o custo de desenvolvimento, é um veículo caro.
Então, o gestor brasileiro responde: “Temos esse motor a diesel, vamos tacar biometano, biodiesel nele. Vamos fazer o máximo que a gente pode desse investimento já feito.”
As montadoras parecem ter preferência por híbridos. Recentemente passaram a chamar híbridos não plug-in (HEV) de “híbrido pleno”, porque “não precisa carregar”. O que você acha disso?
Um híbrido que dispensa recarga pode soar conveniente, mas também enterra o principal benefício da eletrificação: usar a rede elétrica para substituir os combustíveis reduzindo o custo do km rodado em até 80%.
Em meio a isso, há o lado do governo. As políticas brasileiras são equivocadas?
Vamos falar do IPI verde por exemplo. O que mudou do ponto de vista do carro que é beneficiado pelo IPI verde? Da versão antes da política e agora com ela? Nada! É o mesmo carro. Ele só paga menos imposto.
E isso para ter um carro totalmente pelado por dentro. Desprovido de basicamente qualquer amenidade tecnológica. Enquanto isso, você tem um carro altamente tecnológico com uma proposta econômica extremamente preciosa e apreciada já pelos brasileiros não contemplado pelos incentivos.
Se você fizer um levantamento de quanto benefício e de quanto subsídio que a gente dá aos combustíveis fósseis e também aos biocombustíveis, chega a ser um pouco sinistro olhar para a eletromobilidade e ver que não tem um centavo ali
E a gente tem uma sobreoferta gigantesca de energia elétrica. E a gente dá as costas para esta energia que é limpa, barata, abundante e renovável. Então, se você fizer um levantamento de quanto benefício e de quanto subsídio que a gente dá aos combustíveis fósseis e também aos biocombustíveis, chega a ser um pouco sinistro olhar para a eletromobilidade e ver que não tem um centavo ali.
Mesmo colocar as políticas regulatórias em pé de igualdade para os dois lados não faria sentido, porque um traz benefícios reais para a sociedade. O outro talvez trouxe no passado. Mas não traz mais. Isso tem que ser ponderado.
Eu tenho a impressão que parte do setor progressista da política brasileira ainda acha que carro elétrico é coisa de rico. Me parece que a pauta não empolga muito
A eletromobilidade é uma pauta ingrata no Brasil. Tem gente no setor progressista que assumiu ipsis literis o discurso dos conservadores dos Estados Unidos, lançando dúvidas e medos sobre a extração dos minerais da bateria, trabalho escravo e o descarte, sendo que as baterias são infinitamente recicláveis e possuem grande valor econômico.
O curioso é que eles não levantam as mesmas dúvidas sobre a origem do combustível agrícola e a origem do combustível fóssil. Ninguém aponta a quantidade sinistra de energia gasta para aquecer o óleo cru em navios no oceano e no processo de refino. Culpabilizam a bateria, transformando o salvador em vilão.
É triste ver defensores de valores progressistas atacando quem realmente pode nos salvar das mazelas climáticas, enquanto bilhões em subsídios continuam indo para os combustíveis fósseis.
Você contribuiu com o texto da lei do direito de recarga, que foi de autoria de um político progressista e outro conservador. Como ela se insere nesse debate político?
Eu acho que, em ano de eleição, a lei de direito de recarga passou não só porque ela deve ser um direito, mas porque é uma lei popular, uma dor latente e comum. Hoje, eletromobilidade, não é só uma coisa elitista, mas ela é principalmente do empreendedor individual. Do motorista de aplicativo né?
Então, ela passa a ser uma pauta creio que muito politicamente difusa e boa. Acho que é importante que os nossos políticos entendam que se eles puderem entender a empolgação para defender a eletromobilidade, eles têm mais a ganhar do que perder.
E, graças a Deus, no Brasil – e espero que jamais aconteça isso – não politizamos o debate de eletromobilidade.
Falei que lamento às vezes que alguns progressistas sejam contra o carro elétrico, mas, de certa forma isso pode ser até positivo. Porque evita que a gente tenha uma situação igual aos Estados Unidos, onde só um lado está defendendo.
O que você dirige hoje?

Estou no meu segundo Chevrolet Bolt. O primeiro eu rodei 105.000 km e vendi para um amigo do grupo. E ainda tenho um antigo Subaru como coringa da família, que não vejo a hora de trocar por um 100% elétrico.
Eu fiz uma conta: a autonomia com gasolina deste Subaru era de 400 km. Então, você pega 105.000 km que rodei com o Bolt dividido por 400 km. Então, dariam 262 abastecimentos. Curiosamente, a autonomia do meu carro elétrico é exatamente a autonomia do meu Subaru. Então isso quer dizer que se eu tivesse rodado essa quilometragem toda com o Subaru, eu teria ido 262 vezes ao posto de gasolina.
Se eu pego 262 vezes e multiplico por 20 minutos, só para enfiar a mangueira, ficar R$ 300 mais pobre e voltar para casa. A gente está falando de um total de 87 horas da minha vida só para abastecer o Subaru em 5 anos. Eu teria consumido quase três dias e meio da minha vida só para ir ao posto, ou uma semana interna se eu dormisse à noite.
Carro elétrico para mim é como ter uma geladeira. Tem que pôr na tomada e passar um pano de vez em quando. Acabou. Você esquece que existe.
O Bolt eu carrego em casa enquanto durmo. Não perdi tempo de vida indo ao posto.
E a bateria degradou 4% em 5 anos. Foi o primeiro carro que eu tive na vida que nunca quebrou. No Subaru eu já troquei um monte de coisa. Mas no Bolt nada. Nada mesmo. Então troquei por outro igual novo, quando surgiu uma oportunidade.
Carro elétrico para mim é como ter uma geladeira. Tem que pôr na tomada e passar um pano de vez em quando. Acabou. Você esquece que existe. O problema em ter um carro elétrico é esquecer o inferno que era a vida que você tinha antes dele.
E a experiência de conduzir? Recentemente, a Lamborghini voltou atrás em criar um carro elétrico, dizendo não haver demanda por não haver “emoção”. A Ferrari vai entregar um, mas com um ruído amplificado. Barulho é importante?
O ruído é afirmativo, ele comunica as credenciais da máquina e faz você ser notado. Parte de nós, culturalmente, ainda mora nesse hábito. Mas o ruído, para a sociedade, gera doenças cardíacas e mentais, é um incômodo no trânsito. Andar de elétrico numa cidade caótica como São Paulo é como estar dentro de um spa: silêncio, ar-condicionado perfeito e sem vibrações.
Com carros novos chegando com mais de 800 km de autonomia, como alguns modelos da Volvo, você não vai precisar de um lugar para carregar na estrada, vai precisar é de um penico no carro, porque a bateria vai competir com a sua bexiga!
E tem a questão do que é um bom carro. Um carro amplifica o poder humano. O carro ideal é como um cavalo ideal: tem muita força, obedece instantaneamente e não come muita ração. O motor a combustão precisa pensar: reduzir marcha, encher turbina, jogar combustível. No elétrico, o torque é no milissegundo, e sem gastar muito. As máquinas a combustão são admiráveis pela sua complexidade, como eram as locomotivas maria-fumaça. Mas a conveniência e o custo da eletricidade as deixarão no passado para o uso diário.
Para finalizar, o que alguém que lida tanto com carros elétricos pensa da questão da tão falada “ansiedade de autonomia”? É esse bicho-papão todo?
Culpa-se muito a infraestrutura como obstáculo, mas cerca de 80% dos brasileiros que têm carros elétricos carregam em casa. Se você tivesse uma bomba de gasolina na sua garagem, você só iria ao posto quando estivesse viajando.
Com carros novos chegando com mais de 800 km de autonomia, como alguns modelos da Volvo, você não vai precisar de um lugar para carregar na estrada, vai precisar é de um penico no carro, porque a bateria vai competir com a sua bexiga em matéria de autonomia!
É sabido, a ansiedade de autonomia some poucos meses depois da compra de um elétrico. O elétrico acessível entrega liberdade e, curiosamente, a palavra que o define é: autonomia, no caso, financeira.