Ou o Brasil acaba com os combustíveis fósseis, ou podemos acabar como a Venezuela

Captura de Maduro é um recado brutal ao Brasil: não há futuro para o petróleo; ou ele se torna obsoleto, ou pode ser tomado à força
Atualizado: 7 de janeiro de 2026 12:01
Presidente Venezuelano Nicolás Maduro capturado com agentes da DEA
Maduro capturado | DEA / Domínio Público

No último sábado, uma ação militar dos EUA capturou o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, que foi levado como prisioneiro aos EUA. A justificativa oficial foi de que o líder venezuelano seria um “narcoterrorista” (sem nenhuma prova), mas nem Trump parece muito preocupado em manter essa fachada: em uma coletiva no seu avião presidencial (o Air Force One), ele afirmou que conversou com executivos da indústria do petróleo dos Estados Unidos “antes e depois” da ação.

A ação foi considerada uma violação da lei internacional e nacional nos EUA, porque não houve uma consulta ao Congresso. Mas, segundo o presidente, houve consulta aos executivos da Big Oil. Ele também afirmou que a Venezuela “roubou” o petróleo dos EUA, citando a nacionalização do petróleo no país em 1976 – na qual as indústrias americanas foram compensadas com US$ 1 bilhão (cerca de US$ 6 bilhões hoje).

Não é preciso muito para ver na ação a versão nua e crua, à luz do dia, do o que até há pouco era visto como uma caricatura da política externa dos EUA. Um país sedento pelo petróleo dos outros, e disposto a derramar seu sangue por isso.

É um ato imperialista mais assumido do que que os aqueles que foram realizados durante a Guerra Fria: então os EUA se aliavam a figuras “locais”. Foi assim na invasão da Baia dos Porcos em Cuba, feita por cubanos treinados pela CIA, e também por aqui em 1964, com porta-aviões prestes a ajudar aos militares (brasileiros) a “pacificar” o país se houvesse resistência.

Trump está destruindo nem da para dizer só a política, mas a própria ideia de transição energética em seu país. Sua eleição é um fator para explicar por que fabricantes europeus tentam reverter o banimento da combustão interna decidido há menos de três anos em seu próprio continente. Primeiro, ninguém sabe se o eleitor europeu vai acordar particularmente com vontade de castigar minorias qualquer dia desses. E, segundo, parece haver um grande mercado para o atraso no que ainda é a maior economia do mundo. Investidores estão vendo um promissor futuro para o passado.

Tristes trópicos

Mas esse futuro não nos pertence. Nem países da OTAN parecem estar a salvo, já que Trump também ameaçou a Noruega e Canadá. Aqui, no que eles acham ser seu quintal ameaça traz um recado particularmente sonoro.

Sabe as preciosas reservas de petróleo no Amazonas? A exploração na Margem Equatorial defendida pelo presidente no ano da COP30?

Se tudo desse certo no mundo, essas reservas não valeriam nada, porque o petróleo se tornaria obsoleto. Por outro lado, se tudo der errado no mundo, e seguirmos alegremente os EUA como o flautista de Hamelin, rumo ao Armagedom ambiental, elas tampouco são um grande investimento. O ladrão está na vizinhança, está de olho na nossa goiabeira, e nossa espingarda é de sal. Na nova era da truculência mundial, ninguém realmente parece poder fazer frente a isso.

Nada garante que não acabem querendo tomar outras coisas do Brasil, como os minérios. Mas é mais sábio investir no que não pode ser roubado. Tecnologia, capital humano, e energia produzida localmente não podem.

O Brasil é um dos países com mais potencial para abandonar os combustíveis fósseis. Nossa rede elétrica basicamente não precisa deles, e é uma das matrizes mais limpas do mundo. Isso torna os EVs no Brasil os carros com maior potencial para cortar emissões entre quaisquer grandes economias.

E, sim, os biocombustíveis, tão defendidos pela indústria nacional (que são multinacionais), se não são uma alternativa à a eletrificação, podem fazer parte da transição. Mas precisam se levados a sério, e não tratados como uma opção hipotética em veículos flex.

Mas, mais que isso, o país domina mais a tecnologia de produção elétrica do que a de carros a combustão interna. Quando falamos em “tecnologia flex nacional”, falamos em montadoras estrangeiras e adaptações em motores desenvolvidos fora. Motores a combustão são muito complexos e tem muita coisa que pode dar errado: os carros produzidos pelas indústrias brasileiras, como Agrale, Troller e Gurgel (salvo o BR 800 e o elétrico Itaipu), usaram de motores de fabricantes estabelecidos. Mas de eletrificação, as indústrias nacionais têm um domínio maior: ônibus elétricos já são fabricados com tanto baterias quanto motores e carroçaria nacionais.

É urgente então, que nosso governo que se afirma progressista passe a tomar iniciativas de transição energética mais… enérgicas. Deixando para trás ideias extrativistas de riqueza como algo que se arranca do chão (e que podem arrancar da gente), e se focando no real desenvolvimento tecnológico de longo prazo.

Ou o Brasil acaba com os combustíveis fósseis, ou corre o risco de acabar como a Venezuela.

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