
A União Europeia enfrenta uma disputa que coloca de um lado fabricantes tradicionais e governos e, de outro, cientistas e ambientalistas. Atendendo à pressão de montadoras, a meta de emissões veiculares para novos veículos a partir de 2035 foi revisada de 100% para 90%.
A regra anterior acabaria na prática com motores a combustão interna, que não têm como ser zero emissões. A nova fala em “híbridos e motores a combustão interna avançados” e menciona alternativas como biocombustíveis e combustíveis sintéticos, além do abatimento das emissões pelo uso de aço de baixo carbono produzido na Europa.
Para a ONG Transport & Environment (T&E), este recuo é um erro que coloca em risco não apenas o clima, mas a competitividade dos fabricantes europeus estabelecidos frente aos recém-chegados chineses. A entidade publicou um manifesto contra o recuo, apresentando argumentos de por que a decisão, feita supostamente em nome de preservar empregos industriais, pode acabar causando o efeito oposto.
Prejuízo para os europeus
A T&E (oficialmente European Federation for Transport and Environment, “Federação Europeia para Transporte e Ambiente”) é um conjunto de entidades não governamentais reunidas sob um único nome. Recentemente publicou um estudo apontando que híbridos plug-in poluem mais do que os fabricantes afirmam em seus documentos oficiais.
A ONG estima que a mudança da regra resultará num acréscimo de 720 milhões de toneladas de CO2 entre 2025 e 2050 — o equivalente a oito anos de emissões de toda a frota automóvel da Alemanha. E calcula que a Europa pode acabar perdendo (no lugar de preservando) até 1 milhão de empregos até 2035, por conta da diminuição da competitividade e, daí, vendas, com a indústria deixando de agregar € 90 bilhões em valor no período.
Fala também no custo ao consumidor: manter motores a combustão dependentes de combustíveis sintéticos poderá custar aos condutores entre 6 a 8 euros por litro (atualmente, os preços da gasolina estão entre €1,30 e €2,00 dependendo do país).
Biocombustíveis avançados (reciclados) não são vistos como alternativas porque a forma como são produzidos, reciclando gordura animal ou vegetal, não têm escala o suficiente: um carro andando com gordura animal, segundo a T&E, exigiria 120 carcaças de porco por ano para funcionar. Um usando óleo vegetal exigiria o equivalente usado para fritar 25 kg de batatas.
(Quanto a biocombustíveis tradicionais, como no Brasil, a T&E nem considerou uma opção, e não é difícil entender por que: segundo uma pesquisa nacional publicada pelo Instituto Ar, seria necessário plantar 25% da área total do país para trocar todo o diesel por biodiesel. Já seria inviável por aqui, quanto mais na Europa.)
Biocombustíveis, só para aviões
Outro ponto crítico da revisão é o adiamento da meta de 2030. A Comissão propõe que os fabricantes possam calcular a sua média de emissões num período de três anos (2030-2032), em vez de atingirem o objetivo estrito em 2030. Segundo a análise da T&E, isto fará com que a quota de mercado esperada para os elétricos puros (BEV) caia de 57% para apenas 47% no final da década. A T&E propõe abolir essa regra e exigir as metas já em 2030.
Adicionalmente, a introdução de “supercréditos” para pequenos carros elétricos fabricados na Europa (até 4,2 metros) é vista como uma faca de dois gumes. Ainda que incentive a produção local de carros mais econômicos, o mecanismo atual permite que cada EV pequeno conte como 1,3 veículos – isto é, eles valem 30% a mais que outros EVs nas metas de cortes de emissões. Isso, na prática, irá permitir às marcas venderem mais SUVs poluentes para aproveitar a vantagem obtida nas vendas dos pequenos. A T&E propõe que o cálculo seja revisto para veículos com 4,1 metros, com um multiplicador de 1,2, e um limite máximo de desconto de 5 gCO₂/km entre 2030 e 2035.
A ONG propõe banir também qualquer incentivo ao uso de biocombustíveis e combustíveis sintéticos em carros, reservando-os para aviões e navios – ela inclusive considera que a tentativa de usar esses combustíveis em carros atrapalha a descarbonização nesses outros setores.
“Voltar atrás nos padrões consiste num sério risco para competitividade da Europa, metas de emissões, preços ao consumidor, e empregos”, afirma a T&E. “De forma geral, reverter a eliminação gradual das vendas de motores a combustão passa uma mensagem confusa, quando os fabricantes europeus precisam urgentemente alcançar os fabricantes chineses de EVs”.