Híbridos plug-in poluem 5 vezes mais do que o número oficial, denuncia ONG europeia

Estudo mostrou testes oficiais muito distantes do que é observado no mundo real, por conta de como os motoristas interagem na prática com os veículos
Atualizado: 17 de outubro de 2025 03:10
Foto em zoom de escapamentos de carros
Zack Szadurski / Unsplash

Um novo relatório da organização ambiental europeia Transport & Environment (T&E) traz informações potencialmente bombásticas. Ele revela que os veículos híbridos plug-in (PHEVs) vendidos na Europa poluem, na forma de emissões de CO₂, quase cinco vezes maiores do que o que é alegado nos testes oficiais de laboratório.

Intitulado Smoke Screen: the growing PHEV emissions scandal (Cortina de Fumaça: o crescente escândalo de emissões PHEV), o estudo analisou dados de mais de 800 mil PHEVs registrados entre 2021 e 2023 e afirma que a discrepância é o resultado de uma “falha regulatória” que beneficiou diretamente as grandes montadoras, acusando-as de evitar bilhões de euros em multas.

Motoristas de híbrido andam com gasolina

Um híbrido plug-in é um veículo com motor elétrico e um motor a combustão interna. Diferente de um híbrido convencional (HEV) ele pode carregar em tomadas elétricas e se mover com a força da eletricidade, sem precisar causar emissões de gases estufa. Em tese, seria uma solução para a ansiedade de alcance do elétrico puro: o motor a combustão só seria usado quando necessário, em longas viagens.

Mas não é, segundo o relatório, o que está acontecendo. A T&E descobriu que, para veículos registrados em 2023, as emissões de CO2 na estrada foram 4,9 vezes mais altas do que as estabelecidas pelo procedimento de teste WLTPWorldwide Harmonized Light Vehicles Test Procedure, “procedimento mundial de teste harmonizado para veículos leves”, o teste padrão da União Europeia, que também mede autonomia de veículos elétricos. Segundo o relatório, essa discrepância inclusive está crescendo: era de 3,5 vezes em 2021.

A principal causa dessa está no parâmetro de cálculo conhecido como fator de utilidade (UF). Isso mede o quanto de propulsão num híbrido plug-in é elétrico e o quanto é gasolina.

O WLTP baseou-se em uma suposição “excessivamente otimista” sobre o comportamento do motorista, assumindo que, em média, os PHEVs usariam modo de condução puramente elétrico 84% do tempo. Mas os dados reais coletados por medidores de consumo de combustível a bordo mostraram que o dado real é de apenas 27%.

Em 41% do tempo, os motoristas estavam usando um modo híbrido predominantemente elétrico, o modo CD (de charge-depleting, “gastar a carga”), que inclusive é por vezes chamado simplesmente “elétrico”, quando é um modo híbrido. O restante do tempo se dividiu os modos de preservar a carga (charge-sustaining, CS) e de carregamento (charge-increasing, CI) – o segundo equivalente a um híbrido não-plugin e o terceira gastando mais que um motor a gasolina, porque, em adição a mover o carro, está carregando a bateria.

Além disso, como PHEVs costumam não ter carregamento rápido, os consumidores são incentivados a usar mais combustível.

Como resultado, os PHEVs emitiram na vida quase tanto CO₂ quanto os veículos a combustão e híbridos não plug-in, apesar de suas emissões serem oficialmente, pelo WLTP, 75% mais baixas. Nos testes realizados pela T&E, a diferença das emissões se revelou ser apenas 19% menor em favor dos PHEVs .

Modo “elétrico” que não é elétrico

A discrepância principal tem a ver com o modo CD. A ideia, como o nome charge-depleting indica. é que o veículo usa sua bateria no lugar de combustível.

A T&E descobriu que as emissões CO₂ médias em modo CD chegam a 68 g/km, o que é quase nove vezes mais alto do que o valor assumido pelo WLTP. Dependendo do modelo, o número varia entre 45 g/km e 192 g/km. Isso tem a ver com o quanto de movimento é suprido pelo motor elétrico e o a combustão, mas é sempre bem acima dos 8 g/km estimados pelo WLTP.

Isso ocorre porque, nos PHEVs testados, o motor a combustão é frequentemente acionado no modo CD para fornecer potência adicional, especialmente durante acelerações bruscas ou em subidas. Em média, o motor a combustão é ligado em quase um terço da distância percorrida no modo “elétrico”.

Segundo a T&E, o problema é que o motor elétrico em híbridos plug-in é fraco demais para fazer o trabalho e o problema é agravado por modelos PHEVs premium mais pesados e potentes, cujos motores a combustão são frequentemente mais do que o dobro da potência dos motores elétricos. Ela dá o exemplo do Range Rover PHEV, cujo motor a combustão tem 2,2 vezes a capacidade do elétrico, e gera 192 gCO₂/km.

Para comparação, a média de um carro a gasolina, pelos dados da Agência Ambiental Europeia, é de 125 gCO₂/km. Nos EUA, com seu gosto por carrões, 248 gCO₂/km.

O resultado dessa ineficiência recai sobre o consumidor. A T&E calcula que os motoristas de PHEVs gastam em média €500 extras por ano em custos totais de energia (combustível e recarga) do que o sugerido pelos números oficiais. Para um motorista que roda cerca de 5.000 km em modo CD por ano, o custo extra de combustível é de cerca de €250, já que ele espera não pagar por gasolina ao dirigir no modo elétrico.

A T&E também estudou a diferença na performance ambiental de um novo tipo de motorização que têm aparecido em ofertas recentes: o EREV ou REEV. Esse é um elétrico com um gerador.

Como o motor a combustão sequer pode mover um EREV diretamente, a tração em si sempre é 100% elétrica. O relatório faz uma aposta altamente reservada no potencial da tecnologia, dizendo que é possível que EREVs atinjam um fator de utilidade (isto é, o uso de pura eletricidade) de 72%. A preocupação principal expressa no relatório é que os motoristas de EREV simplesmente andem com gasolina o tempo inteiro, por hábito ou a inconveniência de carregar.

Multas ambientais evitadas

O relatório ainda aponta que a falha do WLTP serviu como um subsídio regulatório para os fabricantes de automóveis. A T&E estima que a subestimação das emissões permitiu que quatro grandes grupos de montadoras evitassem mais de €5 bilhões em multas entre 2021 e 2023.

A T&E conclui que, se as propostas do lobby da indústria alemã para reverter a correção do fator de utilidade forem aceitas, a Europa arrisca desviar o investimento dos VEs puros. O rollback poderia resultar em 2,8 gigatoneladas adicionais de CO₂ emitidas até 2050, um aumento de 64% em relação às regras atuais. Isso é mais do que a produção anual de carbono da Índia, o terceiro maior emissor do planeta.

O relatório vem no momento em que a Comissão Europeia se prepara para a revisão dos padrões de emissão de CO₂ para carros em 2026, enfrentando pressão da indústria automotiva para enfraquecer as regulamentações. Em março deste ano, uma proposta de flexibilização foi aprovada em benefício da indústria. O plano ainda é diminuir as emissões em 55% em 2030, e o fim dos motores a combustíveis fósseis em 2035.

Para evitar que a indústria europeia caia em um “beco sem saída tecnológico”, o T&E insiste que a Comissão Europeia deve manter as metas de CO₂ para 2030 e 2035 e manter as correções no cálculo do fator de utilidade previstas para 2027/28, além de não aceitar qualquer exceção para a venda de híbridos após 2035.

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