
Nota de atualização: esta matéria havia sido publicada em 24 de fevereiro, mas novas informações permitiram que fosse relançada com uma resposta mais elaborada; mantivemos o começo do título por coerência.
Os elétricos puros (BEV) continuam a crescer no mercado brasileiro. Em abril de 2026, eles registraram um explosivo crescimento de 272% em comparação ao ano anterior. Mesmo assim, muitos consumidores se mantêm receosos em aderirem à inovação – às vezes por medo infundado, mas às vezes com motivos reais.
E um dos medos é o de perder o valor investido no carro do dia para a noite. Estará ele no primeiro ou no segundo grupo?
Desvalorização de elétricos usados: o que dizem os números?
Em princípio, os números parecem indicar que faz sentido esse medo. Um levantamento do Índice Webmotors, com base em anúncios de compra e venda de usados em 2025, apontou que os elétricos desvalorizaram cerca de 3 vezes mais do que carros convencionais. No último ano, a depreciação dos elétricos puros chegou a 11,95% ante 3,94% dos modelos a combustão.
Um outro índice, publicado pela consultoria Indicata, revelou que os elétricos usados – carros com mais de 3 anos e 60 mil km rodados – foram os que mais sofreram queda nos últimos dois anos.

E, ainda assim, tente entrar na própria Webmotors e comprar um Dolphin Mini usado. Nós tentamos, no dia em que esta matéria foi atualizada (13/05/2026) e só achamos, no Brasil inteiro, duas opções por menos de R$ 100 mil. A própria Indicata revelou que a procura por elétricos usados tem uma desproporção com a oferta maior do que em qualquer outra categoria. Isto é: eles saem muito mais fácil que qualquer outro tipo de carro e, pela lógica, deveriam desvalorizar menos.
Os números – e a fama – de desvalorização estão simplesmente errados? O que explica esse paradoxo?
A questão do Luxo
Para esclarecer a situação, o evdrops conversou com Cassio Pagliarini, CMO da Bright Consulting, empresa de consultoria estratégica com ampla experiência no setor automotivo que frequentemente é tema de nossas coberturas.
Pagliarini mencionou diversos fatores, como o desconhecimento do consumidor, a infraestrutura de recarga e o medo da degradação das baterias. Mas um dos mais fundamentais foi o preço: se você mede entre as opções disponíveis ao consumidor, elétricos são ainda um luxo.
Assim sendo, se você medir a desvalorização modelo a modelo, vai achar uma queda típica de veículos de luxo. E veículos de luxo despencam porque, afinal, é parte do luxo o fato de serem zero-quilômetro. “Isso acontece com qualquer carro de luxo, não apenas elétricos”, afirma Lucio Groch, chefe de vendas da Indicata Brasil.
O passado e o presente dos elétricos usados
Esse luxo é definitivamente coisa do passado. Se você pega a lista da ABVE, os seis modelos mais emplacados em abril – BYD Dolphin Mini, Geely EX2, BYD Dolphin, Chevrolet Spark, BYD Yuan e GWM Ora 3 – são todos abaixo de R$ 170 mil. Descontando o Ora 3, que perdeu suas versões mais em conta recentemente, ficam abaixo de R$ 150 mil.
Somados, esses seis modelos representaram 88% dos emplacamentos de BEVs no Brasil nesse mês. O modelo de luxo mais popular, o Volvo EX30 (que nem é tão luxuoso assim, a R$ 240 mil), teve um volume de vendas mais de 20 vezes menor que o Dolphin Mini.
E o Mini, o carro mais vendido no Brasil por dois meses consecutivos, não desvaloriza mais que carros a combustão interna: um estudo do ano passado revelou que ele perdeu menos da metade do valor perdido pelo VW Polo. O mesmo comportamento pode ser observado em outros elétricos na lista dos mais populares.
Se você considerar um elétrico de três anos, o cenário é radicalmente diferente. Três anos atrás, em abril de 2023, 565 elétricos foram vendidos – contra 17.488 em abril de 2026. O modelo mais vendido foi o Volvo XC40, que custava então a partir de R$ 309.000. É desse tipo de veículo que se trata a fama – e os números – da desvalorização dos carros elétricos usados.
Assim, as leis de mercado não foram abolidas: o que acontece é que, quando falamos em carros usados, estamos pensando em um mercado que ainda não reflete a atual explosão dos EVs. E, ao tentar aplicar isso aos seminovos já nessa explosão, cometemos um erro: avaliar o comportamento de preços de veículos de R$ 120 mil por aquele dos de R$ 300 mil. Um Volvo EX40 de 2023 não desvaloriza como um Dolphin Mini 2025.
E as duas coisas são verdade ao mesmo tempo: os elétricos usados se desvalorizaram muito na média, mas boa sorte tentando achar um Dolphin Mini por menos de R$ 100 mil.
Não hoje. Mas como será daqui a 5 anos?
O futuro do elétrico usado: será que a bonança perdura?
Pagliarini, da Bright, acredita que o futuro será positivo para quem aposta nos veículos elétricos. Ele explica que os estudos recentes mostram que a degradação das baterias é muito menor do que se imaginava. Segundo Pagliarini, a fase de queda é (ou foi) apenas uma etapa de adaptação: “Esse início é difícil porque é uma tecnologia nova e desconhecida. Mas é transitório. Em três anos, a desvalorização não será mais um problema tão relevante”, afirma.
Outros especialistas trazem um ponto de pessimismo. José Éverton Fernandes, presidente da Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto), acredita que, por conta da evolução tão rápida dos EVs, eles podem se depreciar como um celular usado. “Uma variável deve influenciar na direção da depreciação do veículo”, afirmou ao evdrops. “É que é uma tendência natural de que novas tecnologias, novas baterias cheguem ao mercado. E esses carros, com três, cinco anos de uso, vão ficar, de certa forma, obsoletos ou ultrapassados em tecnologia. E, no nosso entendimento, aqueles carros com três, cinco anos, perderão seu valor.”
Felipe Pessoa, vice-presidente Carbel Auto Group e membro Open Mind Brasil, acredita que, como com os celulares, o fabricante é tudo. “Vai ter muito a ver com a montadora. Quando a gente fala do mercado de usados, o celular da Apple tem valor de mercado. O Samsung, menos, mas ainda tem. As outras não têm, né? Eu acredito que isso vai ter muito a ver com o trabalho da montadora no país.”
E Juliano Cheng, gerente de estratégia de vendas da BYD Brasil, tem ainda outra opinião: “Eu uso hoje um Dolphin Plus de um ano e meio e rodei 70.000 km. O estado do carro está zero. Como veículo elétrico tem menos componentes, você tem menos gasto na manutenção e desgaste. Em 2030, quando os primeiros modelos da BYD saírem de garantia, vai depender de se trocar a bateria terá um custo similar a fazer uma retífica de motor a combustão. Porque, se você trocar a bateria, tem um carro zero.”
Nosso take
Fazemos uma aposta: as pessoas ainda irão descobrir que elétricos se desgastam menos do que carros a combustão, porque tem menos peças para estragar. E, quando tudo está ok com a bateria, um elétrico de 100 mil km é muito mais conservado do que um modelo a combustão. Assim, mesmo sem a troca de bateria pelo preço de retífica mencionada por Cheng, devem manter melhor seu preço que carros a combustão interna. Isso se aplica aos carros de hoje, cujo desgaste de bateria é pequeno.
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