Foto mostrando uma chave de carro passando entre mãos
A criação | Getty images

Dados da consultoria de inteligência de mercado Indicata, apresentados ontem num evento corporativo em São Paulo, revelam como o mercado de carros (elétricos ou não) usados no Brasil tem se comportado. Por esses dados, elétricos usados ainda são uma fração minúscula das vendas: menos de 1% – diferente do cenário com novos, no qual se aproximam de 10% dos emplacamentos. Mas são atualmente os carros com a relação entre disponibilidade e procura mais pendente para o lado da procura.

Em bom português: são os que saem mais fácil e, com isso, tendem a se desvalorizar menos – nos modelos mais procurados.

Abaixo, o índice da Indicata trazendo o MDS (market days supply, “dias de suprimento de mercado”) por diferentes tipos de motorização:

Gráfico com o MDS dos carros com diferentes motorizações

O MDS mede quantos dias de estoque existem para atender à demanda de certo produto. Assim, quanto mais baixo ele é, maior a procura em relação à oferta. E carros elétricos usados puros (BEV) hoje têm o menor MDS.

Dá para ver uma queda geral do MDS, indicando um mercado aquecido, mas é notável a mudança da posição dos elétricos. Em janeiro de 2025, eles tinham um MDS de 83 dias, liderando a lista como os menos desejados. Em abril de 2026, esse número caiu para 38 dias, o menor entre todas as motorizações, seguido por híbridos convencionais (HEV) e plug-in (PHEV). Os híbridos leves (MHEV) se saem pior.

E essa é a média. Quando você pega entre todos os carros, os três mais rápidos de vender, com um MDS abaixo de 18 (menos de 3 semanas) são todos elétricos da BYD. O Dolphin Mini tem metade do MDS do segundo modelo a combustão mais desejado, o Mitsubishi Eclipse Cross, e quase metade do primeiro, o Chery Tiggo 7.

Modelos de carros de até 4 anos de venda mais rápida por market days supply, Indicata

A questão da desvalorização do carro elétrico usado

Parece haver uma contradição aqui. Índices como os da Webmotors mostram elétricos se desvalorizando mais do que outros veículos – 11,95% em 2025, versus 3,94% dos carros a combustão.

E a própria Indicata aponta que, quando você considera um veículo padrão com 3 anos de idade e 60 mil km, os elétricos são os que sofreram mais desvalorização. Um carro com essas características hoje custa 87,51% do que custaria em janeiro de 2024, enquanto um modelo flex hoje custa mais caro, 104,06% em comparação com essa data.

Índice de preço desde janeiro de 2024 da Indicata

De acordo com Lucio Groch, chefe de vendas da Indicata Brasil, esse índice ainda não reflete a mudança no mercado observada com a entrada dos chineses hoje populares. O critério para o índice são veículos usados com 3 anos e 60 mil quilômetros rodados. Três anos atrás, em abril de 2023, 565 elétricos foram vendidos – contra 17.488 em abril de 2026. O modelo mais vendido foi o Volvo XC40, que custava então a partir de R$ 309.000,

E esse é basicamente o segredo da má fama dos elétricos usados. Historicamente, eram modelos de luxo, e essas ainda são as opções saindo do seminovo. E modelos de luxo desvalorizam rapidamente, porque serem zero é, afinal, parte do luxo. “Isso acontece com qualquer carro de luxo, não apenas elétricos”, afirma Lucio Groch, chefe de vendas da Indicata Brasil.

Isso explica como o Dolphin Mini desvalorizou menos que o VW Polo em 2025.

Fizemos um teste: uma pesquisa na Webmotors realizada hoje (13/05/2026), incluindo o país inteiro, encontrou apenas duas opções para o Dolphin Mini usado abaixo de R$ 100 mil. Ambas estavam acima de R$ 99 mil. Segundo elétrico mais vendido do Brasil (entre os novos), o Geely EX2 mais barato no site estava em R$ 122 mil – um valor maior do que seu preço promocional de lançamento, R$ 119.900. Você leu certo: o usado está mais caro do que o novo.

O que acontecerá no futuro dos EVs usados?

Mas o que acontecerá quando o Dolphin Mini, o EX2 e seus colegas de geração se tornarem mais velhos? Vão vender tão bem e desvalorizar tão pouco quanto hoje?

Possivelmente não. José Éverton Fernandes, presidente da Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto), esteve presente no evento e tem uma posição sobre EVs. Ele acredita que, no futuro próximo, deve haver uma queda nos preços dos usados porque eles passarão a competir com tecnologias mais avançadas.

“Uma variável deve influenciar na direção da depreciação do veículo”, afirmou, respondendo a uma pergunta do evdrops direcionada ao painel. “É que é uma tendência natural de que novas tecnologias, novas baterias cheguem ao mercado. E esses carros, com três, cinco anos de uso, vão ficar, de certa forma, obsoletos ou ultrapassados em tecnologia. E, no nosso entendimento, aqueles carros com três, cinco anos, perderão seu valor.”

Se carros elétricos jovens se tornam obsoletos, isso não tornaria os carros a combustão ainda mais obsoletos? Everton respondeu: “É algo que por enquanto é cedo para a gente estimar, mas a tendência é que realmente no futuro a gente tem um equilíbrio.”

“Eu acho que isso vai ter muito a ver com a montadora”, complementou Felipe Pessoa, vice-presidente Carbel Auto Group e membro Open Mind Brasil. “Vamos pegar um exemplo. Quando a gente fala do mercado de usados, o celular da Apple tem valor de mercado. O Samsung, menos, mas ainda tem. As outras não têm, né? Eu acredito que isso vai ter muito a ver com o trabalho da montadora no país.”