Imagem mostra tabela com ciclos de medição de autonomia
PBEV do Inmetro é mais rigoroso que outros ciclos (AEM-MS | Divulgação)

A autonomia dos carros elétricos aumenta sempre, mas ainda é vista como um calcanhar de Aquiles para a sua adoção. E acaba sendo um fator de decisão para os consumidores: “Afinal, quantos quilômetros um veículo consegue rodar com uma carga completa? Será que consigo encontrar um posto com esse alcance?”

O número é dado pelos fabricantes e instituições de testes, mas muitas vezes ele não corresponde ao que o consumidor observa na prática. Isso não quer dizer que esses ciclos sejam errados, inventados ou inúteis: apenas que medem coisas diferentes.

China, União Europeia, Estados Unidos e Brasil adotam ciclos de teste próprios, chamados CLTC, WLTP, EPA e PBEV. São esses quatro que, cada um à sua maneira, simulam condições de uso e definem os valores divulgados pelas montadoras.

Para quem estuda comprar um carro, entender como funcionam esses diferentes ciclos é essencial. Eles explicam as razões pelas quais um mesmo carro elétrico pode ter, por exemplo, 600 quilômetros de autonomia na China, 500 km na Europa e pouco mais de 300 km de alcance total declarado no Brasil.

A seguir, entenda como cada um deles é calculado e o que você pode estimar sobre um carro ao ler esses números discrepantes.

CLTC:  Ciclo chinês é a vitrine dos elétricos

A China é hoje o maior mercado de carros elétricos do mundo, e não por acaso criou seu próprio ciclo de teste: o China Light-Duty Vehicle Test Cycle (CLTC). Oficializado em 2019 pelo Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação (MIIT), dentro da norma GB/T 38146.1-2019, o CLTC foi desenvolvido pelo China Automotive Technology & Research Center (CATARC).

O ciclo nasceu de um levantamento amplo: mais de 3.700 veículos monitorados em 40 cidades. O resultado foi um padrão que privilegia longos períodos em baixa velocidade e acelerações suaves – exatamente o cenário dos congestionamentos urbanos chineses.

Para os elétricos, isso é uma vantagem. Como o motor elétrico é mais eficiente em baixas velocidades e não desperdiça energia em marcha lenta, os números de autonomia divulgados pelo CLTC costumam ser generosos. Modelos que no WLTP ficam abaixo de 500 km podem ultrapassar 600 km no CLTC. Essa diferença ajuda a explicar por que os anúncios de montadoras na China exibem autonomias tão altas.

WLTP: O rigor europeu e a busca por “realismo

Na União Europeia, a preocupação era outra: aproximar os resultados de laboratório da experiência real do motorista. Em 2017, o bloco adotou o Worldwide Harmonised Light Vehicles Test Procedure (WLTP), regulamentado pelo Regulamento (UE) 2017/1151, substituindo o antigo NEDC.

O ciclo de teste WLTP foi desenvolvido pela UNECE (United Nations Economic Commission for Europe) e trouxe mudanças profundas. O ciclo é mais longo, inclui velocidades médias maiores, acelerações intensas e até o uso de equipamentos como ar-condicionado. Além disso, considera diferentes perfis de condução, em especial urbano, suburbano e rodoviário.

Para os elétricos, isso significa autonomias menores do que as divulgadas pelo CLTC, mas muito mais próximas da realidade. Um carro que promete 500 km no ciclo chinês pode ter 420 km no europeu, número que o consumidor realmente percebe no dia a dia. Nos híbridos, o WLTP mede tanto o consumo em modo elétrico quanto em modo combinado, oferecendo uma visão mais completa da eficiência.

EPA: ciclo americano preza pelo rigor

Nos Estados Unidos, a principal referência é o ciclo da U.S. Environmental Protection Agency, conhecido simplesmente como EPA. O método norte-americano é considerado um dos mais rigorosos do mundo quando o assunto é medição de autonomia de carros elétricos. Isso acontece porque o protocolo utiliza velocidades elevadas, acelerações mais agressivas e cenários considerados mais próximos do uso real em estradas americanas.

Na prática, os números de autonomia obtidos pelo EPA costumam ser menores do que os apresentados no CLTC e, em muitos casos, também abaixo do WLTP. Por conta disso, especialistas do setor frequentemente consideram os dados do EPA como os mais conservadores entre os grandes protocolos globais.

PBEV: Ciclo de teste brasileiro é o mais pessimista

No Brasil, o desafio é traduzir essas metodologias globais para a realidade local. Desde 2009, o Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBEV), coordenado pelo Inmetro, fornece dados de eficiência energética e autonomia por meio da Etiqueta Nacional de Conservação de Energia (ENCE).

O ciclo de teste padrão no país segue as normas da ABNT NBR 7024 para híbridos e da SAE J1634 para elétricos. Mas há um detalhe importante: como os resultados de laboratório tendem a ser mais otimistas, o Inmetro aplica um fator de correção de cerca de 30% para aproximar os números da “realidade brasileira”. Isso significa que, se um carro elétrico rodou 400 km em laboratório, a etiqueta pode indicar algo em torno de 280 km.

O PBEV é usado para decidir políticas públicas como o Rota 2030 e o Programa MOVER.

ATENÇÃO

O PBEV ser ciclo o mais pessimista não significa que seja impossível um carro acabar tendo uma autonomia abaixo do que ele indica. Mesmo sendo pessimista, o PBEV ainda assim não mede apenas uso na estrada, em velocidade rápida, na subida e no modo esportivo. Ainda é possível você acabar com uma autonomia pior que a do PBEV num percurso exigente.

CLTC x WLTP x EPA x PBEV: diferenças entre os ciclos de teste

Depois de conhecer um pouquinho melhor a origem e os princípios de cada um dos quatro principais ciclos de teste, é interessante também entender, na prática, o que isso significa para o usuário, em especial de carros elétricos puros, que é o que mais sofre com a chamada “ansiedade de autonomia”.

De uma maneira bem simples, é possível dizer que todos os ciclos têm objetivos semelhantes, que é o de informar a autonomia máxima de um EV, mas com realidades distintas.

  • CLTC: favorece os elétricos em tráfego urbano, com autonomias mais altas – considere este o resultado máximo, em condições ideais;
  • WLTP: rigoroso e internacionalmente aceito, aproxima os números da experiência real;
  • EPA: medição bastante conservadora, bastante similar ao ciclo PBEV;
  • PBEV: utiliza de uma margem de segurança, o que significa que quer medir uma base, não o máximo ou a média.

E então: em qual ciclo devo confiar?

Diante da sopa de letrinhas, é possível adotar um método prático para entender o que o carro medido pode fazer. Se você está pensando em comprar um carro elétrico, considere:

  • O PBEV como a base mais segura – sua surpresa provavelmente será positiva;
  • O EPA como ainda pessimista, mas menos;
  • O WLTP como uma ideia do que pode ser observado no uso urbano;
  • O CLTC como o potencial máximo, em condições ideais.

Se você usa o carro principalmente na cidade, provavelmente o resultado prático ficará entre o mostrado pelo WLTP e o CLTC. Se faz muitas viagens, deve estar entre o PBEV e o EPA. Use o PBEV e EPA para calcular até onde você pode ir fora da cidade, dirigindo de forma moderada, e os demais para prever o que você pode observar no cotidiano urbano.