Enfim, aconteceu: o evdrops recebeu um carro para testar. E o carro não poderia ser mais simbólico: o BYD Dolphin Mini. O Fusca elétrico. Basicamente o modelo que deu início à popularização do carro elétrico no Brasil.

Esse é um carro que definitivamente não precisa de nossa ajuda. Ele tem sido o número um em emplacamentos no varejo desde fevereiro. Ainda que recentemente tenha começado a sentir o peso da concorrência, ele já chegou a representar mais da metade das vendas de todos os elétricos puros (BEV) do Brasil. A BYD está se mexendo e a versão chinesa tem várias atualizações interessantes que podem chegar, inclusive uma cor vermelha (ou laranja, vai dos olhos).

Mas não foi essa que testamos: foi o Dolphin Mini feito e vendido no Brasil.

E fazer uma avaliação do Dolphin Mini assim não é realmente dizer se ele é um bom carro. Isso parece já ser um consenso nacional. E quem tem pressa pode parar aqui: ele é. A impressão foi muito boa (se vale mais que os concorrentes… bom, aí leia até o fim).

O que vamos aqui é explicar, com a experiência prática, as razões de seu sucesso – e também suas limitações, o que faz dele um carro de entrada. E, ao explicar essa porta de entrada para a eletrificação nacional, explicar também por que os brasileiros querem um carro elétrico.

Como as montadoras têm o hábito de fazer, a versão para testes que recebemos foi a topo de linha: o Dolphin Mini GS, que tem cinco lugares (em tese) e custa cerca de R$ 10 mil a mais que o GL. No momento em que escrevemos, seu preço está a R$ 119.990. Mas são de se esperar promoções, dada a concorrência que ele enfrenta hoje (recentemente, estava sendo vendido a R$ 110 mil).

Em relação ao Dolphin GL, o GS tem a mais:

  • Interior em couro sintético;
  • Câmeras 360 graus;
  • Ajuste elétrico dos bancos;
  • Carregador sem fio de celular de 50W;
  • Uma bateira de 38,88 kWh, para uma autonomia de 280 km (Inmetro) ou 380 km (CLTC, registrado no carro), versus uma com 30,08 kWh e 250 km.

Sem passar a carroça na frente dos bois, definitivamente parece valer mais a pena a versão GS.

Interior do Dolphin Mini: pequenas mordomias

Primeira das primeiras impressões: por fora. Ele já é um conhecido de quem mora nas capitais do Brasil, e dá para dizer de seu design que quer parecer esportivo.

Alguns já brincaram que é o “nós temos um Lamborghini em casa”. Eu pessoalmente gosto, ainda que seja um charme diferente dos concorrentes, que puxam mais para o carisma à la Fusca. É um objeto tecnológico, e isso vai aparecer muito nesta avaliação.

Me deram um azul para testar, mas compraria na cor verde limão porque é um design que fala alto e merece cores. Pura opinião pessoal, mas acho que não faz sentido comprar um carro cujas linhas chamam a atenção em cores sóbrias.

Para abrir, a chave é presencial, mas precisa clicar no botão.

Sentando no banco, há uma impressão de qualidade surpreendente para o que é, hoje, o elétrico mais barato do Brasil. Os bancos e as laterais são de couro sintético azul, com um plástico áspero e resistente no painel sob o vidro. Os ajustes do banco são elétricos, assim como os espelhos. Há espaço suficiente para um motorista acima da média nacional dos brasileiros: tenho 1,82 m e não encostei nem o cabelo no teto.

Interior do Dolphin Mini
Interior | Fábio Marton / evdrops

Para dar partida, há um conjunto de botões bem peculiar, com D, N e R na frente, e P ao lado. É um pouco estranho, mas fácil de se acostumar.

Do painel de instrumentos, não gosto muito: como em outros modelos da BYD mais caros, é um retângulo. Parece um celular.

Já a central de mídia, é um generoso tablet de 10,1 polegadas que pode inclusive mudar de orientação (retrato ou paisagem) com um botão no volante. Recurso útil para mapas.

E, enfim, a partida: como em carros automáticos, é preciso pisar no freio antes de escolher a marcha. Faço isso e clico no R, pois preciso manobrar. Não há feedback tátil, mas a reação é óbvia no painel e na central, ativando as câmeras.

Há o recurso de câmera de 360 graus, algo que alguns fabricantes ainda tratam como luxo. É uma simulação da calçada e do carro visto por cima, que facilita enormemente estacionar, bem mais que uma mera câmera traseira. Para ter esse recurso, é preciso também uma câmera dianteira, que pode ser acionada por um botão no volante.

Dolphin Mini, vista do banco dos passageiros
Vista dos bancos do passageiro | Fábio Marton / evdrops

Falando em espaço, há um carro subcompacto com 3,78 m de comprimento, mas com um espaço confortável também no banco traseiro. Fiquei em dúvida (e não consegui testar) sobre como seriam três pessoas maiores sentadas lado a lado nele – aí talvez não seja tão confortável. Mas, puxando completamente o banco do motorista para trás, houve espaço para não encostar nos meus joelhos.

Esse foco nos passageiros não vem sem custo, porém: o porta-malas tem um espaço exíguo, de 230 litros. Há como rebater os bancos, mas eles não ficam numa posição horizontal.

Dolphin Mini, vista do porta-malas
Porta-malas | Fábio Marton / evdrops

Outra característica da cabine: um carregador sem fio para celular – que inclusive gerou um incidente de superaquecimento no teste. Superaquecimento do celular, fique claro. Usando o celular como GPS (a conexão é sem fio, via Android Auto ou Apple Car Play) num dia quente, o celular acabou se superaquecendo e o GPS terminou dando coordenadas malucas.

A conta que leva à compra

E de falar do inteior, podemos já dar uma razão para o sucesso do Dolphin Mini: usando os mesmos R$ 120 mil, você poderia comprar um carro a combustão interna muito maior (um SUV compacto), e com mais potência. Os compactos 1.0 de entrada custam R$ 40 mil a menos. Mas o Dolphin Mini entrega alguns recursos que só estarão disponíveis em combustão interna para modelos bem mais avançados.

Compare com um SUV de preço similar:

ModeloPreço BaseCaracterísticas
BYD Dolphin Mini GSR$ 119.9903,78 m x 1,71 m x 1,58 m
motor dianteiro 75 cv
0 a 100 km/h: 14,9 segundos
Interior em couro, ajuste elétrico, câmera 360, carregador Qi, central multimídia giratória 10,1 polegadas
230 litros de porta-malas
Renault Kardian Evolution ATR$ 124.690motor 1.0 turbo 125 cv
4,12 m x 1,75 m x 1,59 m
0 a 100 km/h: 9,9 segundos
Central multimídia de 8 polegadas, bancos em tecido, sem câmera de ré
410 litros de porta-malas

Esses pequenos luxos certamente acostumam o motorista, e vários deles também não estão presentes em concorrentes elétricos.

A economia no uso

A outra razão do sucesso do Dolphin Mini – e uma que, por razões óbvias, não dá para testar em uma semana – é que você recupera parte desses R$ 120 mil. A BYD tem até uma calculadora de economia. De acordo com essa calculadora, se você andar 20 mil quilômetros por ano, economiza cerca de R$ 10 mil (pelo valor da gasolina atual, R$ 6,61 e o valor do kWh de R$ 0,671).

O valor vem da própria BYD, mas 80% de economia de combustível não é realmente loucura para um carro elétrico compacto, em uso urbano. A média para elétricos é 70%. E a calculadora da BYD não está contando as economias com manutenção do carro, que são, em média, 50% menores.

Noves fora, confiando nesses números, com 300 mil km você teria economizado o carro inteiro só em combustível.

Mas essa economia toda depende de, principalmente, carregar pagando o valor do fornecimento residencial: eletropostos são no mínimo duas vezes mais caros.

Assim, para o Dolphin Mini, como para qualquer elétrico, fica a recomendação de ter carregamento em casa se possível – ainda que não seja o fim do mundo não ter, porque há outras vantagens de carros elétricos…

Sensação de Dirigir

Essa é outra parte que costuma conquistar os motoristas: dirigir um carro elétrico. Quando você sai com o Dolphin Mini, ele tem um discreto ruído artificial – isso é determinado por lei em alguns países, e vem em praticamente todos os elétricos. A função é avisar pedestres da presença do carro em movimento, já que ele não faz, naturalmente, barulho nenhum.

O som lembra um pouco uma turbina de avião e é bem suave dentro do carro. É desligado aos 30 km/h porque, a partir dessa velocidade, o som do carro é causado pelo atrito com o ar, mais que o motor.

E o motor, dianteiro, não é nada para se gabar: ele possui 55 kW (75 cv) de potência. É o equivalente a um 1.0 de entrada. E é um carro bem mais pesado: a versão GS, com bateria maior, pesa 1.239 kg. O Citroën C3 Live (o carro mais barato do Brasil atualmente) pesa 1.037 kg. O modelo a combustão 1.0 faz de 0 a 100 km/h em 14,1 segundos, enquanto o Mini leva 14,9.

Mas aqui a gente pode falar das características da condução. de como ele chega nesses 100: um carro elétrico tem o famoso torque instantâneo. Você simplesmente pisa e vai. Para quem já usou os carrinhos bate-bate do parque de diversões, é basicamente igual, mas maior e na rua (e de preferência sem bater nos outros).

O Dolphin Mini não vai, obviamente, colar você no banco, como outros elétricos são muito capazes de fazer. Mas dá para perceber certa agilidade, que também acontece no trânsito, ao se sair de um sinal, ou ao entrar em uma pista rápida.

Foto do BYD Dolphin Mini
Minha nave | Fábio Marton / evdrops

E há a talvez maior alegria de dirigir um elétrico, mesmo de entrada: a subida. Você precisa pôr um pouco mais o pé, mas é como na reta: pisa e ele sai, mais rápido e em silêncio. Ele basicamente nunca reclama, e parece não fazer esforço nenhum.

Dito em outras palavras, dirigir um elétrico é muito mais simples e suave. É uma sensação para ser experimentada para quem nunca dirigiu. Quem adota, costuma não querer voltar nunca mais para a combustão interna.

Mas vamos falar agora da parte menos vantajosa: a estrada.

Viagem na prática

O Dolphin Mini é chamado de carro urbano pela própria BYD. Significa que ele não é realmente planejado para fazer viagens, mas para o uso urbano no dia a dia. Mas isso não significa que seja incapaz de fazer viagens: ele continua a ser um carro, e não um patinete.

Para não correr nenhum risco, o teste foi uma modesta viagem entre São Paulo e Atibaia, que são cerca de 66 km, contando os trechos urbanos. Carreguei a 100% antes de sair, colocando 20% a R$ 24,50, o que levou cerca de 25 minutos.

Um ponto a se notar: o carregamento “rápido” do Dolphin Mini é apenas 40 kW. Não importa a potência do carregador, isso é o máximo, e desacelera quando se chega perto dos 100%. Na prática, carregar de 0 a 100% levaria mais de uma hora.

A primeira pernada da viagem foi no modo de direção Sport. Não estava preocupado em economizar. Nesse modo, a sensação é perfeitamente adequada para um carro modesto: não há nenhuma emoção, mas também não há dificuldade em ultrapassar, nem a chegar aos 120 km/h – a máxima é limitada a 130 km/h, o que é mais que o limite máximo em qualquer estrada brasileira.

Muitas pessoas reclamaram da suspensão dos carros chineses, que é macia demais e os carros parecem flutuar na estrada. Impressão pessoal, ou talvez a BYD tenha ajustado mais ao gosto do brasileiro (foi um modelo produzido na Bahia no teste), mas não dá para dizer que percebi nada de incômodo.

Chegar a Atibaia custou 22% de bateria – quase o mesmo que havia carregado no eletroposto antes de sair. Usando a bateria inteira, a gente teria 4,54 (100 dividido por 22) vezes os 66 km de distância, levando a 299 km de autonomia total – na estrada, seguindo o trânsito, no modo Sport. A autonomia oficial pelo Inmetro é 280 km, e o marcador a 100% mostra 380 km (que é a medida no ciclo chinês, o CLTC). A verdade está no meio.

Na volta, usei o modo Eco. Nesse modo, você sente a diminuição da potência e o limite da máxima a 100 km/h. Ainda é viável fazer uma viagem, mas com mais cuidado e se mantendo à direita – o que eu fiz. Não é uma sensação confortável – na verdade, é bem desagradável. Mas é algo que existe para ser funcional, não para dar prazer ao motorista.

Ao chegar de volta a São Paulo, a surpresa foi o quão menos gastamos: quase nada a menos. Deu 19% de bateria o retorno. A economia foi de três pontos percentuais, ou apenas 15%.

Com isso, no resto da semana, usei o Dolphin Mini apenas no modo Sport na cidade. É muito mais agradável, ainda que definitivamente nada “esportivo”, e aparentemente não gasta tanto assim a mais.

O que é que o Dolphin Mini Tem?

A hora de entregar um carro emprestado para testes é um bom momento para refletir sobre a sensação geral dele. E a parte mais importante disso é: vai deixar saudades?

Dá para dizer que não causou paixão, mas deixou uma excelente impressão. É um carrinho, e não é um hot hach, mas é uma beleza de carrinho. Não se propõe a fazer muita coisa, mas faz muito bem o que foi feito para fazer, e muito confortavelmente. A gente até se esquece, mas todas as pequenas mordomias fazem a diferença.

Dolphin Mini com os faróis acesos no por do sol
Faróis automáticos ao por do sol | Fábio Marton / evdrops

A sensação geral então é de um carro “Cachinhos Dourados”: nem muito quente, nem muito frio, tudo na medida certa.

A razão de seu sucesso é que os brasileiros notaram que poderiam ter um carrinho assim, muito decente, por um preço que definitivamente não é de entrada, mas acaba sendo com as economias em seu uso. E já chega da concessionária com muito mais vantagens tecnológicas que um modelo a combustão de preço similar – ainda que menor e menos potente.

Chegamos ao final, para responder a grande pergunta. Mas, antes disso, se ainda não fez, avalie se um elétrico é para você. Recomendamos elétricos sempre que possível, mas às vezes a situação pede por um híbrido. Veja aqui nosso guia.

Lá vai a pergunta…

Você deveria comprar um Dolphin Mini?

Se essa pergunta houvesse sido feita há um ano, eu diria: compre de olhos fechados.

Mas concorrentes bem competentes chegaram ao mercado, por um preço maior, mas próximo. Eles têm algumas vantagens claras, e também algumas desvantagens. A função desta avaliação não é comparar o Dolphin Mini com eles (que só testamos por uma hora), mas fica a recomendação de fazer um test drive com todos.

O Mini continua a ter um certo encanto pelo conforto do interior, design e recursos. Se isso for o que te convencer, pode mergulhar. Dificilmente irá se arrepender de adquirir um carro tão certinho assim. E o clube ao qual você está se filiando é grande.