
A Bright Consulting acaba de publicar uma análise demonstrando que o preço médio deflacionado (isto é, corrigido pela inflação) dos veículos leves (carros e caminhonetes) caiu pela primeira vez desde a pandemia. O valor era de R$ 172.538 em junho 2025 e foi para R$ 169.984 em junho deste ano.
A retração é de 1,5%, o que não parece muito, mas foi a quebra de uma tendência de crescimento contínuo que se mantinha desde 2020. O preço médio da transação (que aí inclui promoções) caiu 3,5%, indo de R$ 157.677 para R$ 152.148.
“A diferença entre o preço de tabela e o preço efetivamente pago continua aumentando, refletindo descontos cada vez mais elevados e um ambiente competitivo muito mais intenso”, afirma a consultoria em sua análise.

É possível ver claramente uma curva que vai se tornando menos intensa, após um pico em 2021, até ficar quase plana em 2025, e começar a cair este ano.

A Bright não menciona dessa forma (fala em “novas marcas”) mas isso coincide com a chegada dos elétricos e híbridos chineses – grande popularizadora da eletrificação, a BYD chegou em novembro de 2021 com o Tan, lançou o Dolphin em junho de 2023, e o Dolphin Mini em fevereiro de 2024.
A Bright tem uma interpretação nessa linha. Segundo explica a consultoria, “Durante a pandemia, a falta de semicondutores permitiu sucessivos reajustes de preços muito acima da inflação. Posteriormente, a normalização da produção foi acompanhada por descontos crescentes, mas ainda insuficientes para reduzir os preços reais.”
“Agora o cenário mudou”, continua. “A principal força por trás desse movimento é o aumento da competição. O mercado brasileiro recebe um número crescente de novas marcas, que chegam com portfólios modernos, alto conteúdo tecnológico e uma política comercial bastante agressiva.”
A consultoria fala em “um nível de equipamentos significativamente superior ao dos concorrentes tradicionais”, citando os sistemas de assistência (ADAS), câmeras 360°, telas de multimídia maiores etc.
Nosso take: ventos da transição
Ainda que tudo isso seja parte dos atrativos dos carros chineses, a Bright acabou não mencionando o elefante na sala: estamos num processo de transição tecnológica. E esse processo está ocorrendo (ao menos até agora) de forma muito mais rápida do que mesmo cenários otimistas para a eletrificação previam.
Há cinco meses, o carro mais vendido para o público pessoa física (varejo)– que tem um pacote tecnológico, de fato, superior a modelos a combustão com o mesmo preço – é um elétrico puro.
Os atrativos nesse tipo de veículo vão bem além de apenas luxos (que não são mais luxos) internos: é uma outra tecnologia. As pessoas têm um outro tipo de experiência e uma enorme economia em combustível e manutenção – essa última também sendo uma economia de tempo, porque seu carro não passa o mesmo tempo no mecânico.
Existe, sim, um espaço para a combustão no Brasil, como notam fabricantes e a cobertura automotiva tradicional. Mas esse espaço existe não por qualquer vantagem intrínseca da combustão interna, mas por falta de infraestrutura de carregamento. Assim, consiste na verdade em um nicho, e um nicho que tende a se tornar cada vez menor. E, mesmo nesse nicho, não há vantagem em combustão pura versus híbridos plug-in.
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