
Num momento em que elétricos se aproximam de 10% do mercado de automóveis no Brasil, e eletrificados no geral marcam 23% (números da Fenabrave), escolher um carro novo é apostar numa tecnologia. O consumidor precisa ter em mente o futuro e decidir qual é a opção mais segura para sua compra pelos anos que virão.
Geralmente, quando uma pessoa pensa no termo “opção segura”, está pensando numa escolha conservadora, no que foi consagrado pelo tempo. Isso significa evitar o produto “de nicho” – que, no senso comum, seria o carro elétrico, em particular o puro, que não tem opção para se abastecer na onipresente rede de postos de combustível.
Mas é um caso em que o senso comum pode induzir ao erro. O crescimento rápido que o Brasil tem visto de carros elétricos (273% no anual medido em abril, segundo a Fenabrave) vem de motivações puramente econômicas e sem apoio do governo (pelo contrário, o governo brasileiro incentiva a combustão interna, algo que nem os EUA de Trump fazem). Isso aponta para uma mudança estrutural em andamento, que fará com que o que parece seguro hoje pareça obsoleto no futuro. Como comprar um player de Blu-ray na chegada dos serviços de streaming.
Para entender como o “seguro” na verdade pode ser um risco, basta entender por que os brasileiros estão optando por carros elétricos – contra qualquer conversa de falta de infraestrutura ou de que a real opção nacional seria os biocombustíveis.
E a resposta está em dois números: 75 e 50.
Por que os brasileiros estão optando por carros elétricos?
O primeiro número são os 75% a menos que se gasta no Brasil para usar um carro com eletricidade em comparação com combustíveis (considerando o etanol). E o outro são 50% a menos em manutenção gasta com um EV.
Motoristas de aplicativo fizeram a matemática antes dos demais consumidores e se tornaram os pioneiros na adoção. Mas, aos poucos, todo mundo começa a perceber.
É importante notar que, quando falamos em carros a combustão interna, estamos incluindo os híbridos. Ainda que eles sejam melhores que veículos tradicionais, e que mesmo os fabricantes chineses estejam felizes em vendê-los, eles não possuem todas as vantagens que levam a essa escolha.
Essas vantagens são a razão pela qual estamos dizendo que carros a combustão interna já são um nicho (só falta todo mundo perceber): como são economicamente desvantajosos, seu uso tende a se limitar a trabalhos que os elétricos puros não são capazes de fazer. E isso é um campo que cada dia fica menor.
A maior parte das pessoas, na maior parte do tempo, dirige seus carros na cidade ou em pequenos percursos. E a maioria dos brasileiros mora em casas – mesmo na cidade de São Paulo, que é um mar de prédios, 68,1% das pessoas moram nesse tipo de residência, de acordo com o censo de 2022.
Quem mora em casa não tem dificuldade de instalar um carregador em sua garagem. E esse carregador torna a infraestrutura local irrelevante: é como ter um posto de combustível em casa.
E para quem mora em prédios, a situação está também mudando, como com a lei de São Paulo que obrigou condomínios a aceitarem carregadores desde que atendam a critérios de segurança.
O que restará para a combustão interna? Viagens intermunicipais longas, em estradas com falta de infraestrutura. Para a maior parte das pessoas, essa é uma ocorrência rara, o que significa que podem ter elétricos puros em casa e alugar um carro com combustão interna (não tem por que não ser híbrido) quando necessário. Como a infraestrutura só cresce, esse também é um nicho que irá diminuir cada vez mais.
Fora isso, provavelmente sobram os esportivos de luxo, para os quais os compradores ainda parecem valorizar o barulho e o comportamento geral do motor, visto como “emoção”. Emoção, assim como status, são coisas subjetivas e sujeitas a mudanças culturais. Como outros luxos do passado vistos como negativos – como usar peles reais de animais – a combustão pode acabar se tornando um símbolo de anti-status.
E isso não é tudo: possivelmente há um outro custo em não optar por um elétrico quando é possível fazer isso. Que é a revenda do carro.
Uma aposta: usados a combustão terão mais defasagem que usados elétricos
Hoje elétricos têm fama de representarem um anti-investimento por conta da desvalorização na revenda. Ser um “anti-investimento” se aplica a qualquer carro, e na verdade não é bem por aí (ou não mais): são modelos de luxo que perdem valor rápido, mas modelos como o Dolphin Mini já estão perdendo menos valor anualmente que similares a combustão interna. E essa matemática – essa é uma aposta nossa – deve se inverter completamente em breve.
Em parte porque o desejo por elétricos em novos também se reflete em usados, e produtos com mais demanda são mais caros. Em outra, pelo fim do preconceito mais amplo contra elétricos usados: a ideia de que sua bateria os torna uma “bomba-relógio”: algo que simplesmente não condiz com a realidade, na qual a bateria deve durar mais que o carro.
E a outra parte tem a ver com a já citada manutenção.
A manutenção de um carro convencional é mais alta porque um motor a combustão interna é extremamente complexo, com múltiplas partes móveis, enquanto o motor de um veículo elétrico é uma máquina muito mais simples, que quase nunca dá problemas. A mesma razão para a manutenção também se aplica à degradação.
Enquanto um elétrico está sujeito a se degradar em partes comuns com o carro a combustão interna, como suspensão, lataria e interior, ele não sofre a mesma perda com o motor ou transmissão – e mesmo os freios tendem a se desgastar bem mais devagar, porque raramente são usados – na maior parte do tempo, o carro faz frenagem puramente magnética.
Isso significa que um carro elétrico usado é melhor que um carro a combustão usado. A idade tem menos efeitos negativos sobre ele. Quando o mercado descobrir isso, carros a combustão usados verão sua defasagem superar em muito a dos elétricos. E serão eles a “bomba”.
É claro que podemos estar errados aqui: os Estados Unidos mostram que o cenário pode mudar no dia em que o eleitor acorda particularmente raivoso (ainda que, abençoadamente, até o momento carros elétricos não foram politizados no Brasil).
Mas isso está aqui para plantar a ideia: há, sim, um risco ao fazer uma aposta conservadora numa época de mudanças.