
Algum tempo atrás, noticiamos que a consultoria Indicata descobriu que os elétricos usados (seminovos) eram os veículos com maior procura em relação à oferta entre todas as motorizações no Brasil.
Isso se mede pelo índice MDS (Market Days Supply, “Estoque de dias de mercado”). Esse número indica quantos dias duraria o estoque disponível no momento em relação à demanda diária por vendas. Quanto menor o índice, mais a conta pende para o lado da procura – isto é, há muita procura para pouca oferta, e o produto tende a ser valorizado. Os elétricos puros são os carros com o menor MDS no Brasil no momento.
Mas quem compra um carro agora não quer saber quanto seu elétrico usado vale hoje, mas quanto valerá no futuro. E o cenário atual, no qual há um boom na demanda, ao ponto de já dar para dizer que um em cada dez carros novos no Brasil é elétrico, não necessariamente significa que a situação será a mesma no futuro.
Conversamos com Lúcio Groch, chefe de vendas da Indicata Brasil, sobre o que esperar do mercado de carros elétricos usados no Brasil.
Fábio Marton (evdrops): Os dados da Indicata mostram os carros elétricos usados com a maior demanda entre todos hoje. Por que isso está acontecendo?
Lúcio Groch: O atual MDS baixo resume uma história muito longa, que é a história de aprovação pelo público. No fim das contas, quer dizer que existe uma percepção do mercado de que aquele é um bom carro, por razões que são variadas e que poderiam demandar uma pesquisa de muitos dados.
A gente vê os elétricos seminovos muito demandados, com preços bons de revenda, e isso ocorre também porque existe pouco carro à venda. Então, a gente tem um mercado que não foi alimentado, por exemplo, por veículos de venda direta.
Mas, observando a realidade, a gente vê que os BYDs de entrada têm hoje um MDS muito baixo porque são carros que têm uma percepção de boa qualidade, porque têm um custo por quilômetro rodado muito baixo, porque foram aprovados por quem roda muito: motoristas de aplicativo em geral e frotistas de vários tipos.
A gente vê uma evolução de uma marca que era desconhecida, começou a vender alguns carros, passou a ter mais atenção do público, passou a ter mais espaço, mais recall na mídia. E esses carros passaram a ser mais demandados.
Esse baixo MDS não pode também estar indicando que o estoque é baixo?
É o que acontece. A gente vê os elétricos seminovos muito demandados, com preços bons de revenda, e isso ocorre também porque existe pouco carro à venda. Então, a gente tem um mercado que não foi alimentado, por exemplo, por veículos de venda direta.
Então, esse cenário de MDS muito baixo e preço alto, ele vai sofrer uma correção. Não significa que vai derreter, que vai virar o mercado completamente. Mas vai talvez ter um ajuste nisso.
Se a gente pegar todos os veículos de grande volume… Volkswagen Polo, Fiat Strada, Fiat Palio, Onix, Onix Plus, Fiat Cronos, Voyage… Se a gente for olhar esses carros, o mercado de seminovos é abastecido por muito carro de venda direta, aproximadamente 40%, 50%… dependendo do mês, mais de 50% desses veículos são de venda direta*.
A gente sabe que, na venda direta, depois de um ano esse carro pode ser vendido pelas locadoras. Isso gera uma oferta de seminovos gigante para esses veículos a combustão de grande volume. E isso não acontece nos elétricos… hoje. Não acontece hoje, mas daqui a um ano vai começar a acontecer.
[*NOTA: apuramos que em junho, pelos números fornecidos pela Bright Consulting, todos os carros mais vendidos até chegar ao primeiro elétrico, o BYD Dolphin Mini, na oitava posição, tinham mais de 60% de vendas diretas. O Dolphin Mini teve apenas 20,6% de vendas diretas. A mesma situação já havia sido notada em maio.]
Em um ano você acredita que as locadoras irão mudar seu perfil de compras e adquirir mais elétricos?
Sim. A gente vê as locadoras começando a comprar em maior volume. Tem a Localiza, que anunciou a compra de 10.000 carros ao longo de um ano. E tem a própria BYD, que é a líder de mercado de longe em elétricos e eletrificados. A BYD está declarando para a mídia brasileira que eles querem agora acelerar as vendas em venda direta.
Você pode botar no relógio daqui a 12 meses. A gente vai começar a ver uma correção de preços e de giro de estoque desses carros, porque eles, depois de um ano, passarão a chegar no mercado de seminovos. Então haverá uma oferta muito maior. E aí teremos o ajuste.
Então, a gente sabe que em breve, entre um e dois anos, a gente já vai ter muito mais carro elétrico ou o início de uma fase de alta na disponibilidade de oferta desses carros do varejo como seminovos. Então, esse cenário de MDS muito baixo e preço alto, ele vai sofrer uma correção. Não significa que vai derreter, que vai virar o mercado completamente. Mas vai talvez ter um ajuste nisso.
A situação de preços atual dos elétricos usados não é sustentável, então?
O reajuste vai acontecer a partir do momento que a gente tiver volume grande de veículos elétricos vendidos novos. Você pode botar no relógio daqui a 12 meses. A gente vai começar a ver uma correção de preços e de giro de estoque desses carros, porque eles, depois de um ano, passarão a chegar no mercado de seminovos. Então haverá uma oferta muito maior. E aí teremos o ajuste.
Inclusive esse é um cenário que a gente utiliza nas nossas ferramentas de projeção de valor residual para locadoras, montadoras e todos tipos de frotistas.
Isso significa que pessoas deveriam se preocupar com esse reajuste e evitar comprar um elétrico agora?
Mas a revenda não é tudo. É interessante você ver a conta que fez quem foi early adopter dos elétricos. Como fizeram os motoristas de aplicativo.
Eles disseram a si mesmos: “Poxa, esse carro elétrico aqui custa 20% do que custa por quilômetro rodado de um carro a combustão. Posso comprar esse carro! Vou economizar muito no quilômetro rodado. Mas daqui a 1, 2, 3 anos quando eu for vender esse carro, que preço será que eu vou pegar?”
Se a gente for olhar, fizer uma conta fria, pode ver que se eu comprar um elétrico de entrada e rodar direto com ele – em todos os dias úteis, uns 200 km por dia… Se fizer isso, ao final de 3 anos, mesmo se o valor de revenda desse carro for zero, ainda saio ganhando.
Você acha que a atual “eletromania” no Brasil deve durar?
Essa é uma boa pergunta. Tem tanto fatores mostrando que a gente pode ter uma aceleração da adoção dos elétricos, quanto também fatores mostrando que pode haver um teto para essa evolução. Quando a gente olha para o para o custo por quilômetro, esse fator é totalmente imbatível. Quando a gente olha para o custo de manutenção dos elétricos também… imbatível.
Enfim, quando a gente olha para o lado financeiro da equação, é excelente. Isso tudo vai rompendo essas amarras.
Mas aí a gente começa a olhar para os fatores que limitam o crescimento do carro elétrico. E autonomia certamente é o principal deles. Tem a questão do range anxiety, essa ansiedade de se vou ou não chegar no meu destino. Isso se reduz porque os carros têm uma autonomia cada vez maior.
Se a gente for olhar, fizer uma conta fria, pode ver que se eu comprar um elétrico de entrada e rodar direto com ele – em todos os dias úteis, uns 200 km por dia… Se fizer isso, ao final de 3 anos, mesmo se o valor de revenda desse carro for zero, ainda saio ganhando.
Outro grande obstáculo à expansão desse mercado era e ainda é a infraestrutura de carregamento. Só que essa também, uma vez que a gente passa a ter uma frota maior, há mais oportunidades de mercado para vender energia. Então, os investidores passam a prestar atenção nisso.
Aí você começa a ter, por exemplo, corredores nas estradas principais com estrutura de carregamento. Muito rapidamente essas limitações vão se reduzindo, algumas são eliminadas e a penetração do carro elétrico aumenta.
E há as baterias. O grande público talvez não saiba, não percebeu… ou até já recebeu a informação, mas não acredita nela porque existe uma crença de décadas de que bateria é sempre ruim e, no fim das contas, vai precisar trocar. Mesmo que tenha uma garantia de 8 anos do fabricante.
A gente percebe que a gente tá num ponto de inflexão muito relevante das crenças e da percepção do consumidor sobre esses carros.
E a questão da preservação do veículo? Um elétrico dá menos manutenção porque tem menos o que quebrar. Não significa também que um carro assim estará mais preservado que um modelo a combustão com a mesma quilometragem? Isso não pode se refletir no preço no futuro?
Entendo que isso ainda não entrou na conta, dada a novidade que é o elétrico, e não só no Brasil. É um fator que ajudará no valor de revenda.
Algo que pode ajudar na questão da autonomia é entender se as baterias poderão ser trocadas. Se, no futuro, a gente pode trocar essas baterias e utilizar todo o sistema eletrônico e elétrico que já existe no carro. Isso ajudaria no valor residual, no valor de revenda desses elétricos usados.
Quando a gente vai olhar para esses carros, a gente percebe que eles realmente terão uma manutenção muito menor. Inclusive, no mundo dos dealers (concessionárias), já se prevê uma queda de 80% na receita de pós-venda com os elétricos, em função da manutenção extremamente simplificada, mesmo numa fase tecnológica ainda relativamente inicial desses veículos.
Mas tem muitos fatores, outras questões mercadológicas. Talvez uma das principais é a questão da evolução das baterias. A gente vai ter aí baterias de estado sólido, baterias de sal… tem outras tecnologias que estão vindo também, e isso vai aumentar muito a autonomia desses carros. Então esse é o maior fator hoje, ou um dos maiores fatores hoje, afetando o valor de revenda desses carros. A gente já percebe isso acontecendo porque já tem carros chegando agora com gerações de baterias mais modernas, e isso afetando os carros que estavam até agora aqui.
Algo que pode ajudar na questão da autonomia é entender se as baterias poderão ser trocadas por baterias mais novas, utilizando todo o sistema eletrônico e elétrico que já existe no carro. Isso ajudaria no valor residual: o valor de revenda desses elétricos usados. Ainda é uma questão a se entender.
Quando a gente vai olhar para esses carros, a gente percebe que eles realmente terão uma manutenção muito menor. Inclusive, no mundo dos dealers (concessionárias), já se prevê uma queda de 80% na receita de pós-venda com os elétricos, em função da manutenção extremamente simplificada.
O que você recomendaria a alguém que quer comprar um carro agora e está preocupado com o valor de revenda?
Para quem tem como prioridade a questão do valor de revenda, recomendaria comprar um seminovo. Porque aí, depois do primeiro ou segundo ano, você já passou da depreciação mais acelerada.
Eh, isso valeria aí para qualquer pessoa, seja física ou jurídica. E, no caso de quem roda muito, essa vantagem ou o risco da depreciação acaba sendo muito diluído. Porque, rodando mais, você facilmente paga o carro. Mesmo que no final ele tenha valor residual zero, ainda está no lucro. Qualquer valor acima de zero na revenda é positivo.
Também porque, se for o primeiro carro elétrico desse usuário, é interessante para a pessoa colocar isso no dia a dia e ver como funciona. Se a experiência não der certo, o prejuízo é menor na hora de se desfazer desse carro, porque ele já era um seminovo.
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