Ilustração de pessoa guardando dinheiro no cofrinho em formato de carro
Economia acima de tudo | Imhaf Maulana / Unsplash

A consultoria Indicata, que já havia revelado que carros elétricos eram os com maior demanda de mercado entre usados, acaba de publicar dados atualizados que trazem uma revelação: enquanto a tendência geral no mercado de usados foi de queda de preços, os elétricos puros (BEV) foram a única categoria a registrar um aumento.

Abaixo, o gráfico com o preço médio de vendas de usados desde março de 2025.

Para entender: o gráfico mostra o preço de um usado hipotético com 3 anos de idade e 60 mil km de uso ao longo do período. Não é o preço do mesmo carro – o índice não mede depreciação. É o preço de comprar um usado equivalente ao longo do tempo, começando por 100% do preço relativo inicial.

Assim, se um BEV usado assim custasse R$ 100 mil em março de 2025 (100% do preço original), hoje ele custaria R$ 97.060 (97,06% do preço inicial). No caso de um Flex, ele sairia mais caro: R$ 101.170.

Isto é: o elétrico teve uma queda desde 2025, o que já havia sido notado anteriormente. Porém, quando você observa a tendência para todas as motorizações entre março e junho, o resultado é uma queda geral no mercado: todos os usados ficaram mais baratos. Menos os elétricos puros, que ficaram mais caros. Em março, o mesmo usado hipotético sairia por R$ 95.990. Enquanto o modelo a combustão estaria mais caro, a R$ 101.550.

Segundo a Indicata, isso tem a ver com o que já havia sido revelado: a demanda por elétricos puros usados está mais alta do que a de qualquer outra motorização. Abaixo, o Market Days Supply (“dias de suprimento de mercado”, MDS) das diferentes motorizações.

Gráfico com market days supply (MDS_ de carros usados no Brasil por motorização, entre março de 2025 e junho de 2026

O MDS indica quantos dias duraria o estoque de usados diante da demanda atual. Quanto menor, maior é a demanda em relação ao estoque – isto é, a oferta.

O gráfico acima indica que os carros elétricos usados acabariam em 42 dias, o menor MDS, portanto a maior procura em relação à oferta. Os flex aqui marcariam 48 dias.

Dá para ver que houve, aliás, um aumento da oferta de elétricos nos últimos meses e, com isso, um aumento no MDS. Mesmo assim, sendo o MDS mais baixo de todos, ele continua a puxar os preços para cima, segundo a interpretação da Indicata.

Carros elétricos usados devem baratear no futuro?

Segundo a consultoria, a situação possivelmente não deve se manter, com alguns fatores puxando os preços para cima, outros para baixo.

Espera-se que os carros elétricos usados barateiem à medida que mais deles passam a ser ofertados, já que a explosão de vendas é recente, e ainda não se traduz em oferta de usados. “A alta valorização e baixo MDS dos BEVs hoje são reflexo de uma demanda aquecida para uma oferta de usados ainda proporcionalmente pequena”, afirma a consultoria, num comunicado à imprensa. “No entanto, o grande boom de vendas de elétricos novos no Brasil (liderado por BYD e GWM) ganhou tração entre meados de 2023 e ao longo de 2024. À medida que esses veículos atingem a maturidade de 2 a 3 anos de uso e os contratos de financiamento ou planos de recompra começam a vencer, o mercado de varejo receberá uma onda maior de BEVs de segundo dono.”

Puxando o preço para cima, segundo a consultoria, há um reflexo da guerra no Oriente Médio na demanda no Brasil, como se observou no resto do mundo. “O custo por km rodado drasticamente menor do BEV acelera a decisão de compra do consumidor urbano. Portanto, se o combustível fóssil continuar pressionado, os BEVs são favorecidos e podem manter os seus preços em patamares elevados em vez de sofrer depreciação.”

Ainda segundo a Indicata, o custo total de propriedade (TCO) é um fator que favorece atualmente os elétricos, fazendo com que pessoas abandonem marcas estabelecidas, nas quais confiam. Isso se dá por conta da percepção de tecnologia embarcada e um menor TCO, por menores gastos em combustíveis e manutenção. Mas isso tem levado às montadoras tradicionais a adotarem políticas mais agressivas de preços com novos, o que leva à depreciação geral dos preços dos usados vista em todas as motorizações, menos os BEVs.