Na sequência da comemoração dos 50 anos da Fiat no Brasil, que aconteceu ontem (21 de julho), o CEO da Stellantis, o italiano Antonio Filosa, participou de uma reunião hoje às 11h com o presidente Lula e o vice-presidente Geraldo Alckmin. No encontro, o executivo reafirmou que o conglomerado deve investir R$ 30 bilhões no Brasil entre 2025 e 2030.

O executivo ainda prometeu aumentar em 2 mil pessoas os quadros da empresa no Brasil ainda este ano, o que significa, segundo ele, 20 mil na cadeia de fornecedores. E lembrou que 95% das peças usadas pelas marcas do conglomerado são fabricadas no Brasil.

A Stellantis é um conglomerado multimarcas que, aqui no Brasil, produz localmente Fiat, Jeep, RAM, Peugeot e Citroën.

“Todo aço é do Brasil. Todo plástico é do Brasil”, afirmou Filosa, sobre a produção das marcas da Stellantis. “O motor somos nós que produzimos. A transmissão somos nós que produzimos. Cada emprego são 10 nos fornecedores. Nós não importamos, nós não trabalhamos com CKD, nós localizamos.”

Filosa ainda mencionou a inclusividade da Stellantis, afirmando que ela emprega 44% das mulheres da indústria automotiva, e 57% de pessoas negras.

Alckmin então falou do Programa Carro Sustentável, lembrando que a Stellantis tem dois modelos qualificados, cujas vendas “cresceram 30%”.

Quanto a Lula, ele falou em números. “Estou muito realizado com o que está acontecendo com a indústria no Brasil. Ainda tem problemas, mas é bom que tem problemas porque tem a política para resolver. Mas este ano vamos emplacar 3 milhões de carros no Brasil. Em 2012 estávamos emplacando 3,8 milhões e quando voltamos em 2023 o Brasil estava emplacando apenas 1,6 milhão de carros.”

Lula ainda se dirigiu ao executivo como representante da indústria como um todo: “[Nosso trabalho é] criar condições para que vocês possam ter tranquilidade: os programas que podem motivar vocês a fazer mais investimentos no Brasil”.

Em um momento, o CEO fez uma piada quando um microfone falhou durante o evento: “deve ter uma bateria asiática”. Alckmin riu. Lula não.

Nosso take: o que a Stellantis espera produzir?

Filosa foi o executivo que propôs que o governo trabalhe com a Anfavea para “equalizar” a competição entre as marcas estabelecidas e os chineses.

O encontro foi basicamente ambos os lados vendendo seu proverbial peixe. Filosa repetiu o discurso da Anfavea contra os kits de fabricação CKD e SKD usados pela BYD, mencionando empregos. Lula e Alckmin falaram dos programas do governo – inclusive nosso “favorito”, o Programa Carro Sustentável, que talvez seja a única política ambiental do mundo incentivando carros (em boa parte do tempo) a gasolina. E que foi feito sob medida para incluir modelos a combustão já vendidos por membros da Anfavea e excluir os elétricos chineses, mesmo se produzidos no Brasil.

O que há para equalizar se as marcas tradicionais simplesmente não disputam o mercado com os chineses hoje? Não disputam porque não oferecem o mesmo produto. É como se fabricantes de TVs de CRT pedissem “equalização” com fabricantes de TVs de LCD. Não importa quantos empregos são gerados se uma marca está fazendo um produto que as pessoas não querem mais.

E a verdade é que nosso governo supostamente progressista está sendo uma mãe para a Anfavea. Deu a eles quase tudo o que pediram. Extinguiu as políticas de incentivo à eletrificação no Brasil, que vigoravam desde 2016. Foi o governo Lula que decidiu taxar elétricos chineses em 35% – com os kits de montagem pagando exatamente o mesmo que carros importados inteiros, o que significa que há zero incentivo para mais fabricantes se instalarem. Só não cancelou as cotas de isenção já devidas à BYD, previstas nas políticas que o governo extinguiu.

Os incentivos foram extintos pelo governo Lula quando havia apenas 1,76% de penetração de mercado por elétricos e híbridos plug-in. O argumento de que incentivos à eletrificação não eram necessários é simplesmente risível. O que existe é equivaler carros flex a carros elétricos, pela possibilidade hipotética de usarem só etanol – o que, mesmo se usassem só etanol, também seria risível.

Mas investir esse tanto de dinheiro é algo concreto. Indica real otimismo por parte do grupo. Filosa já afirmou que a estratégia da marca é multiplataforma, e a Stellantis já anunciou investimentos de € 60 bilhões (euros, não reais) em inovação. Assim, a dúvida é o que a Stellantis espera estar produzindo no país em 2030, e se acha que poderá fazer isso com 95% de componentes nacionais e sem kits. Se conseguir se eletrificar assim, o que dizer? Força para a Stellantis!

Só esperamos que não acredite que o governo irá “equalizar” a disputa com a nova tecnologia.