Foto de incêndio veicular
Incêndios ocorrem em todos os carros | Florian Olivo / Unsplash+

A cobertura vem do G1: ontem (19 de julho) um acidente grave na BR-277, na cidade de Candói (Paraná), envolvendo um incêndio em carro elétrico, deixou um morto e seis feridos. Durante uma ultrapassagem, houve uma colisão frontal entre o veículo elétrico (que o G1 não identifica, mas parece um Geely EX2 pela roda na foto abaixo) e uma caminhonete na pista contrária.

O carro elétrico se incendiou e o motorista morreu carbonizado na cabine. As outras pessoas presentes no carro – a esposa e três filhos, um menino de 2 anos e duas meninas de 9 e 11 anos – sobreviveram com ferimentos graves.

Por que esta coluna existe?

Em primeiro lugar, vamos deixar aqui as condolências às famílias das vítimas. Um incidente fatal é, antes de tudo, uma tragédia humana.

O propósito desta coluna é nos adiantarmos a possíveis reações na imprensa e em redes sociais com pânico moral. Acidentes com carros elétricos ainda rendem notícia, e rendem porque causam medo, e o medo causa o clique.

Já havíamos previsto que chegaria este dia, com um acidente fatal envolvendo um ou mais carros elétricos. Simplesmente é uma inevitabilidade estatística. O que a gente pode falar desse dia é – mais uma vez, respeitando a família atingida – o que esse tipo de incidente diz sobre a tecnologia elétrica.

Incêndio em carro elétrico: no que é diferente

Incêndios em carros elétricos, quando envolvem a bateria, são mesmo diferentes de modelos a combustão interna. Baterias de lítio são mais tóxicas que combustíveis e queimam de forma violenta.

Vamos começar então pelo fato de que acidentes fatais com carros a combustão interna geralmente não viram notícia. Não há estatísticas sobre o exato número de pessoas que sofrem esse destino, apenas sobre quantos morrem em acidentes automotivos (veja mais abaixo) e quantos incêndios automotivos existem (apenas em São Paulo, cerca de 4.200 em 2025). Mas não é difícil de estimar que sejam múltiplas vítimas por dia no país.

De fato, incêndios são muito mais comuns em carros a combustão interna – proporcionalmente ao número deles, não apenas no valor absoluto, porque ainda são muito mais comuns.

Porque, afinal de contas, esse tipo de veículo leva um líquido inflamável que necessariamente está sofrendo ignição o tempo todo. Isso é simplesmente a forma como funcionam.

Elétricos levam um líquido inflamável, o eletrólito da bateria, por falta de opção – até novas tecnologias, como baterias em estado sólido, deixarem isso no passado. Mas não é uma necessidade intrínseca da forma como funcionam. E a engenharia da bateria é feita para evitar ao máximo possível que exista uma ignição, mesmo num acidente.

Quão mais comuns são os incêndios em carros a combustão interna? Os números apresentam uma discrepância enorme, com alguns colocando incêndios a combustão até 83 vezes mais comuns. Mas vamos ficar com o número mais baixo, vindo da Noruega, que tem quase 100% de adoção de elétricos entre veículos novos. Por lá, foi estimado que carros a combustão têm 5 vezes mais chances de pegar fogo.

Benefícios e malefícios sociais

Uma colisão frontal é o tipo de acidente mais letal que existe, porque somam-se as velocidades dos dois veículos vindos em direções opostas. Testes de colisão têm por padrão a velocidade máxima de 64 km/h porque é estatisticamente mais comum, mas também porque, a partir daí, não é mais viável construir carros que garantam a sobrevivência dos ocupantes.

Foto de acidente com carro elétrico no Paraná
O que sobrou do carro elétrico no acidente no Paraná | Lucas Polak / RPC / Reprodução

É possível ver na foto que o modelo estava completamente destruído mesmo antes do fogo, pelo impacto da colisão. E é até um trunfo da segurança do carro e do trabalho das equipes de resgate que os demais ocupantes tenham saído vivos.

Mas vamos estabelecer então: mesmo sendo bem menos comum que em combustão interna, sim, pessoas podem morrer em acidentes com carros elétricos não apenas como em qualquer carro, mas por uma característica exclusiva deles, que é sua bateria.

E não é preciso dizer que muitas pessoas morrem por qualquer veículo. Não há ainda o total de 2025, mas foram 37.150 vítimas em 2024 no Brasil. São mais de 100 pessoas por dia.

Isso mostra que há um malefício social e um perigo no conceito de veículos autopropulsionados, seja qual for sua motorização. Mas toleramos esse malefício. Fazemos isso porque o lado positivo – a sociedade moderna seria impensável sem eles – compensa os negativos.

E, ousamos dizer, além de acidentes, existe também um malefício inerente ao automóvel, que são cidades feitas para carros, gerando múltiplos problemas urbanísticos. Isso um carro elétrico não muda.

Mesmo com malefícios compartilhados, veículos elétricos possuem um benefício único, que é o de eliminar a poluição local. Centenas de milhares de vidas, milhões mundialmente, seriam poupadas pelo fim da poluição veicular, que é causada por qualquer combustão – etanol e biodiesel não ajudam nessa parte. Certamente mais vidas do que seriam perdidas por incêndios de bateria. Isso é a maior razão para tolerar os malefícios de uma tecnologia nova.

E há, claro, toda a questão do aquecimento global – mas essa é uma batalha muito maior e mais complexa do que apenas mudar a propulsão de veículos.