A Anfavea (Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores), que representa a indústria tradicional, apresentou hoje seu relatório de resultados do primeiro semestre e comentou as últimas movimentações em sua batalha contra os kits de montagem pré-prontos (CKD e SKD).

Por meio de seu presidente, Igor Calvet, a entidade revisou suas projeções de vendas anuais. 2026 está com o mercado bastante aquecido e, pela nova previsão, o total de emplacamentos chegará a mais de 3 milhões de unidades até o fim do ano, com um crescimento de 12,1% em relação ao ano anterior.

Previsões de Anfavea para 2026 | Anfavea / Divulgação

Ao mesmo tempo, lamentou que o aumento nas vendas anuais seja em mais da metade absorvido pelas importações, com a produção nacional subindo apenas 5,8%. E notou que uma proporção de mais de 5% dos veículos nacionais hoje acontece no esquema de kits pré-prontos (CKD e SKD) – o que é basicamente a maior briga da entidade hoje em dia.

A questão dos kits pré-prontos

As siglas vêm do inglês semi-knocked down (semidesmontado) e completely knocked-down (totalmente desmontado). São kits usados por montadoras recém-chegadas, como a BYD, para fabricarem seus carros no Brasil, e receberam um benefício fiscal na sua alíquota de importação para que essas montadoras começassem a sua produção eletrificada nacional.

Na verdade, foi uma concessão do fim de um benefício. Em 2016, foram estabelecidas isenções para a importação de veículos elétricos por questões ambientais. Esses benefícios foram cancelados em novembro de 2023 pela Resolução 532 do Gecex (Comitê-Executivo de Gestão da Câmara do Comércio Exterior), no que a Anfavea diz ter sido a percepção de que o mercado de eletrificados não precisava de incentivo ao consumo.

Vale dizer: isso foi quando a fatia de mercado dos eletrificados plug-in era de menos de 1,76% dos veículos leves (hoje são 15%), e nenhum carro elétrico era fabricado no Brasil desde os anos 1980.

A decisão previu um restabelecimento gradual dos impostos, chegando a 35% (exatamente o mesmo dos carros a combustão) em julho de 2026. Esse prazo foi contestado pela BYD, que afirmou que não teve como fazer uso do benefício como previsto, porque as tarifas aumentaram antes do fim do prazo.

Batalha perdida, a guerra da Anfavea contra os kits continua

A Anfavea travou basicamente uma cruzada contra qualquer extensão desses benefícios. E acabou perdendo: o pedido da BYD para a extensão até o fim deste ano foi concedido, aplicando-se apenas aos kits (não de carros inteiros).

Segundo Igor Calvet, a preocupação da associação não é o uso desses kits para a instalação da linha de produção no Brasil, mas seu volume, o uso “em larga escala”. Ele reafirmou que a instituição vê a eletrificação como inevitável e “não dá para brigar com a realidade”, e que a mudança está acontecendo numa “velocidade pela qual o setor automotivo talvez nunca tenha passado antes.”

Também afirmou que, num país de “renda média” como o Brasil, a combustão interna ainda terá seu espaço: “a gente irá conviver com essa transição por muito tempo”.

A Associação chegou a dizer que iria judicializar a questão, mas mudou de ideia. Segundo Calvet, o prazo para a reversão de uma decisão assim ficaria em anos, e aí já seria tarde demais, com o prazo do benefício acabando antes do fim do ano.

Mas não é o fim da conversa. A instituição deve entrar com uma ação pedindo para melhorar o “rito de governança” da Gecex em decisões futuras, pois acredita que não foi ouvida o suficiente nessa última decisão.