
Antes de começar uma análise sobre um possível governo Flávio Bolsonaro, é preciso dizer do ponto do qual partimos: o evdrops se comprometeu com a ciência climática, não com qualquer montadora, político ou país. Quase toda nossa cobertura sobre o governo Lula foi altamente crítica.
Mas, tendo esse compromisso que temos, um candidato que defende o negacionismo climático, assim como o presidente dos EUA, Donald Trump, não tem como ter um retrato muito simpático por aqui. Isso é apenas seguir nossos princípios.
Mas essa provável antipatia vai ficar para depois que, se vencer, o candidato assumir o governo. Ela não estará presente nesta análise. O ponto desta matéria é uma leitura o mais fria possível do que pode acontecer e o quão provável é acontecer a respeito da eletrificação automotiva no Brasil num governo Flávio Bolsonaro.
Sem guerra cultural
A primeira coisa a ser dita é que o Brasil não é os EUA. Não existe guerra cultural em torno de carros elétricos, que não são ligados a pessoas de esquerda – ao menos não no mesmo grau que isso acontece nos EUA. A adoção de elétricos é completamente não ideológica no Brasil e é até provável que a proporção de eleitores de FB e Lula entre os seus donos seja exatamente a mesma que na população em geral.
No Brasil, figuras conservadoras como o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, e o governador do estado reeleito, Tarcísio Freitas, tiveram políticas pró-eletrificação. Nunes deu um grande incentivo à eletrificação da frota de ônibus da cidade. Tarcísio Freitas sancionou a lei do direito de recarga.
Isso porque a escolha do brasileiro por carros elétricos é absolutamente pragmática, para economizar em combustível e manutenção. (De fato, é o que está acontecendo no mundo inteiro hoje por conta da crise do Estreito de Ormuz.) O fato de que ops EVs impedem a poluição urbana e não emitem gases estufa no uso é uma coincidência feliz para esses compradores.
E. mesmo se Flávio Bolsonaro decidisse seguir Trump em sua antipatia a EVs, não há muito o que mudar. O governo Lula foi, na prática, um grande incentivador da combustão interna, e fez o jogo das montadoras tradicionais e produtores rurais. Programas de incentivo à eletrificação, que vinham do fim do mandato Dilma, foram abolidos com Lula.
O Brasil basicamente não tem qualquer incentivo federal a veículos eletrificados hoje. Não temos um equivalente ao subsídio federal de US$ 7.500 que o governo Trump aboliu. Há vagas promessas no Plano Clima, sem mecanismos propostos. Então não há realmente o que acabar por aqui.
E se os chineses saírem?
O que deve mudar muito é o alinhamento da política externa do Brasil, em favor dos EUA. Isso é uma promessa de campanha. E nisso podemos estudar talvez o que foi a carta de exigências do governo Trump ao Brasil para cortar o tarifaço.
São imposições a um governo que Trump considerava hostil, e talvez não sejam mais exigidas de um aliado. Podem ou não ser atendidas, total ou parcialmente. Mas indicam um desejo por parte do parceiro ideológico e geopolítico do possível novo governo.
Entre as 21 exigências estão:
- Conformidade integral com sanções financeiras impostas pelos EUA;
- Garantia de direitos de preferência e aviso prévio sobre minerais críticos e terras raras;
- Aquisição exclusiva de aeronaves de fabricação norte-americana (como da Boeing);
- Fim de restrições à importação de bens remanufaturados e isenção de taxas para automóveis e produtos industriais dos EUA.
As exigências podem representar o fim (seria mais provável a restrição) do comércio com a China. Em último caso, o fim da presença das montadoras chinesas no Brasil.
A primeira exigência significa aderir a possíveis sanções contra a China – lembrando que os EUA basicamente proíbem carros chineses. A segunda significa não ceder aos chineses recursos que poderiam ser usados na criação de baterias por aqui.
E a terceira não tem nenhuma implicação direta, mas pode ser eventualmente estendida a outros produtos.
A quarta leva a uma hipótese mais ou menos otimista: ela pode baratear EVs americanos. A Tesla possivelmente viria. Quem sabe a nova caminhonete da Ford a R$ 150 mil. Dada, porém, a reação da indústria tradicional brasileira à chegada dos chineses, é um tanto implausível que uma abertura total aconteça.
Se acontecer, ela barateará todos os veículos americanos, de uma indústria que tem investido novamente em combustão interna. Então seriam mais veículos poluentes que EVs chegando. E os EVs seriam ainda assim mais caros que os chineses – talvez retornando o Brasil a uma situação de anos atrás.
Quem sabe, porém, os EUA aproveitem o entusiasmo do Brasil com eletrificação para despejar sua produção indesejada por aqui. Foi o que alguns analistas viram na chegada da Cadillac.
E se os chineses ficarem?
Há, é claro, a possibilidade de os chineses terem o direito de continuar. Certamente seria uma opção impopular simplesmente excluí-los. Como histórico, apesar da pressão do governo americano, o governo Jair Bolsonaro não baniu a Huawei do Brasil. Cortar o atual maior parceiro comercial de um golpe só seria implausível.
Mas quase certamente os preços dos carros chineses serão revisados para cima. Em dezembro passado a presidente do México, a esquerdista Claudia Sheinbaum, anunciou 50% de impostos sobre produtos chineses, incluindo carros. Isso foi visto como uma capitulação às pressões do governo Trump.
Mas, novamente, temos, na Era Lula, 35% de taxas de importação para carros elétricos chineses. A diferença pode não ser muita coisa. No México, o efeito foi limitado.
Um processo irreversível
Aconteça o que acontecer, a eletrificação é uma transição tecnológica irreversível. Particularmente onde ela foi adotada sem qualquer incentivo e por razões pragmáticas, como no Brasil. Foi a tecnologia em si, não benefícios governamentais, a levar à adoção. Isso não tem volta.
Se Flávio Bolsonaro for eleito, independentemente do que prometa, deve inicialmente deve haver uma corrida para os EVs chineses, aumentando ainda mais as filas.
Depois disso, talvez o processo seja atrasado. Talvez mudem os atores. Mas a peça segue a mesma.
Disclaimer final: esta foi uma análise exclusivamente voltada ao mercado de veículos eletrificados. Ela não reflete as opiniões pessoais do jornalista sobre o político em questão, e inúmeras críticas que podem ser feitas às suas propostas.
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