Ilustração de um carro numa estrada quebrada
O que sobe pode descer | Viyanca / Unsplash+

Sexta passada, a Bright Consulting publicou sua análise de vendas na primeira quinzena de outubro. E, por seus números, não temos notícias boas: o total de elétricos puros (BEVs) vendidos ficou em apenas 8.747. Isso significa que possivelmente será o primeiro mês desde junho a registrar menos de 20 mil emplacamentos nessa categoria. Mantida a média por dia útil, fecharíamos em 18.369.

No período, há um recuo geral de emplacamentos de veículos leves, de 5,7%, em relação a setembro. E as vendas diretas, nas quais elétricos quase não existem, ultrapassaram as vendas no varejo, onde o Dolphin Mini segue como o carro mais vendido. Ainda assim, considerando que as vendas de setembro foram de 22.119, e isso já após um crash de 18,5% na comparação com agosto, teríamos uma queda de 17% – bem acima da média do mercado.

Os híbridos plug-in se saem ainda pior: eles emplacaram 6.906 unidades, o que terminaria o mês com 14.503 emplacamentos, contra 20.202 em setembro. Uma queda de 29%.

E então? O sonho acabou? O Brasil desistiu de carros elétricos?

Hipótese 1: falta de estoque

Existe uma possibilidade, levantada pela própria Bright, de que haja uma falta de estoques para eletrificados mais acessíveis. E, de fato, no mês passado, grande parte do crash foi causada pela queda nas vendas de dois modelos: o BYD Dolphin e o Geely EX2, que ocuparam o segundo e o terceiro lugares nas vendas de elétricos em agosto.

Essa hipótese tem uma falha: entre agosto e setembro, o Dolphin Mini cresceu, enquanto os dois modelos acima caíram. O elétrico mais vendido do Brasil chegou a seu recorde de vendas, com 9.385 unidades. Trata-se do único elétrico produzido nacionalmente e isso faz dele uma exceção à possível falta de estoque.

Mas os números da Bright indicam que o elétrico número 1 do Brasil também está sendo afetado em outubro. Seguindo as 3.840 unidades emplacadas na quinzena, teríamos um outubro fechando em 8.064 unidades. Isso é uma queda de 14%.

Procuramos tanto a BYD quanto a Geely para explicar essas quedas. A BYD não quis comentar. A Geely basicamente negou haver problemas. Sua resposta foi: “O Geely EX2 é um produto de grande sucesso no mercado brasileiro. Temos a importação regular do modelo para atender a crescente demanda de mercado, seguindo a ordem de pedidos em nossa rede de concessionárias.”

Hipótese 2: o Programa Move

Outra possibilidade foi levantada por uma figura da indústria foi ouvida pelo evdrops de forma reservada. O Programa Move Brasil, que concedeu financiamento com juros reduzidos para taxistas e profissionais de aplicativos, levou a uma corrida aos elétricos por esses consumidores. Com isso, as vendas de agosto, que foi o melhor mês para elétricos da história, foram mais aquecidas do que seria natural. Isso causou tanto os problemas de abastecimento quanto uma demanda que foi atendida de forma antecipada.

Algo parecido com o que aconteceu nos EUA um mês antes do fim do subsídio a elétricos que foi cancelado pelo governo Trump. Seguiu-se um crash que transformou os EUA de pioneiros a retardatários em eletrificação.

Mas essa possibilidade também tem um furo: os elétricos se tornaram mais de 10% dos carros em julho e o crédito do Move só foi liberado em 27 de julho. O Move não explica esse pico anterior. Mas ainda assim explica uma demanda que foi saciada de uma vez e antes da hora.

Seja como for, as duas explicações da crise apontam para a mesma coisa: foram vendidos elétricos demais nos últimos meses e isso está afetando as vendas atuais.

Veremos até onde vai a crise. A Bright aposta que a nacionalização de mais modelos deva resolver.

Se serve de consolo, ao menos os elétricos continuam sendo mais de 10% dos automóveis e crescendo mais de 100% no comparativo anual. Um outubro ruim ainda fechará acima de junho no market share dos elétricos.