
Dois estudos da consultoria internacional Cars Multiverse comparam os custos de veículos em 36 grandes mercados diferentes, incluindo o Brasil, medindo impostos, seguro e consumo de combustível. Um dos estudos se dedicou apenas aos tributos e outro, ao cenário geral. O resultado foi a constatação que o Brasil é o oitavo país mais caro para se ter um carro (Hong Kong aparece acima, mas não estamos contando porque é um território). E – essa talvez surpreenda alguns – o décimo primeiro em impostos.
O teste pegou um carro compacto com valor de € 30 mil (~R$ 174 mil) antes de impostos, motor de 1,5 litro, 1.400 kg, emissões de 130g CO₂/km, e rodando 15 mil km por ano.
Abaixo, as 10 primeiras posições, mais os EUA para referência e a última posição (o mais barato). Os números são múltiplos de R$ 1000 e se referem ao período de 5 anos de uso. Na coluna “Economia EV” fica o quanto se economiza nos 5 anos ao se migrar para um carro elétrico. Na última coluna, o percentual dessa economia em comparação aos custos totais.
| País | Custo Total | Impostos | Combustível | Seguro | Economia EV | % Economia |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1. Singapura | 877,4 | 794,9 | 57,4 | 25,3 | 27,5 | 3,13% |
| 2. Dinamarca | 319,6 | 234,9 | 63,2 | 18,6 | 45,0 | 14,07% |
| 3. Turquia | 266,5 | 228,9 | 33,0 | 4,6 | 33,8 | 12,67% |
| 4. Hong Kong | 250,3 | 127,1 | 100,0 | 23,2 | 96,4 | 38,52% |
| 5. Noruega | 220,6 | 139,3 | 55,6 | 25,7 | 42,9 | 19,47% |
| 6. Holanda | 205,3 | 107,5 | 66,4 | 34,5 | 52,0 | 25,34% |
| 7. Malásia | 187,1 | 161,3 | 20,4 | 5,38 | 17,5 | 9,33% |
| 8. Finlândia | 162,3 | 74,7 | 60,3 | 27,5 | 47,0 | 28,97% |
| 9. Brasil | 161,2 | 116,4 | 31,8 | 13,0 | 21,3 | 13,24% |
| 10. Irlanda | 150,5 | 83,8 | 48,8 | 18,0 | 22,3 | 14,83% |
| 30. EUA | 95,0 | 13,4 | 27,5 | 54,2 | 15,6 | 16,43% |
| 36. Qatar | 38,2 | 0,3 | 14,2 | 22,1 | 12,1 | 31,71% |
Visualizando num gráfico:
O preço gigante em Singapura é porque há uma taxa de licença para ter um veículo que é enorme. Singapura é uma cidade-estado com 744 km² – próxima à área da cidade de Goiânia, ou da Ilha de São Sebastião (SP). Ter um carro lá é privilégio, e apenas 33% das residências possuem um.
Agora, os impostos. Na taxa total de impostos do primeiro ano de uso, temos:
| País | Imposto no primeiro ano | % valor sem imposto |
|---|---|---|
| 1. Singapura | R$ 781.926 | 449,60% |
| 2. Dinamarca | R$ 229.160 | 131,80% |
| 3. Turquia | R$ 222.609 | 128,00% |
| 4. Malásia | R$ 160.870 | 92,50% |
| 5. Noruega | R$ 133.449 | 76,70% |
| 6. Hong Kong | R$ 110.771 | 63,70% |
| 7. Índia | R$ 101.223 | 58,20% |
| 8. Holanda | R$ 83.809 | 48,20% |
| 9. Tailândia | R$ 82.765 | 47,60% |
| 10. Irlanda | R$ 78.017 | 44,90% |
| 11. Finlândia | R$ 69.884 | 40,20% |
| 12. Brasil | R$ 68.064 | 39,10% |
| 34. Estados Unidos | R$ 12.220 | 7,00% |
| 36. Qatar | R$ 1.043 | 0,60% |
Onde fica o Brasil nessa?
Verificando os números apontados para o Brasil, temos vários pontos para notar.
A fama de cobrar imposto demais é semijustificada: não estamos no topo da lista, mas a maioria dos países que cobra mais tem um PIB per capita bem maior que o nosso. Com duas exceções: Tailândia e Índia.
Há também que se considerar que o carro padrão escolhido não está no mesmo segmento por aqui. Um carro de 30 mil euros é um intermediário na Europa mas, no Brasil, é um carro de luxo. Pela própria métrica do estudo, o modelo custaria R$ 174 mil antes de impostos, e pagaria mais R$ 60 mil para sair da concessionária, ou R$ 234 mil. Isso é quase o preço de um Volkswagen Jetta GLi, que é um 2.0 Turbo.
Na parte que nos cabe enquanto canal de notícias de eletrificação, o Brasil tem uma economia medíocre em uso de EVs. Como podemos ver no gráfico abaixo, com os piores países em economia, mais o México, que é o melhor:

Não é difícil ver o porquê: o Brasil não tem incentivo nenhum e ainda cobra impostos extras em importação de elétricos (e tem ainda uma ajuda à combustão interna “sustentável”, mas o carro no teste é caro demais para contar). Dos 36 países avaliados, o Brasil se encontra entre os nove que não têm nenhum benefício fiscal para EVs.
A falta de incentivos é um velho debate, mas esses números nos levam a pensar em outra coisa: no que é considerado (e nós mesmos costumamos considerar) a maior razão para a adoção de elétricos no Brasil: a economia.
Talvez o número acabe distorcido por representar o que é aqui um modelo de luxo. Mas também pode ser visto como um indício de que há mais do que apenas a economia na decisão que os brasileiros estão tomando. Pode ser que queiram esse produto específico – o carro elétrico – e só precisam que a diferença no preço, contando o que se economiza, não seja grande demais para tornar a escolha viável.
Confira o estudo completo sobre os impostos e o estudo sobre o custo total (ambos em inglês).


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