Ilustração mostrando um carro andando por uma conta
A fatura não termina | Milhad / Unsplash+

Dois estudos da consultoria internacional Cars Multiverse comparam os custos de veículos em 36 grandes mercados diferentes, incluindo o Brasil, medindo impostos, seguro e consumo de combustível. Um dos estudos se dedicou apenas aos tributos e outro, ao cenário geral. O resultado foi a constatação que o Brasil é o oitavo país mais caro para se ter um carro (Hong Kong aparece acima, mas não estamos contando porque é um território). E – essa talvez surpreenda alguns – o décimo primeiro em impostos.

O teste pegou um carro compacto com valor de 30 mil (~R$ 174 mil) antes de impostos, motor de 1,5 litro, 1.400 kg, emissões de 130g CO₂/km, e rodando 15 mil km por ano.

Abaixo, as 10 primeiras posições, mais os EUA para referência e a última posição (o mais barato). Os números são múltiplos de R$ 1000 e se referem ao período de 5 anos de uso. Na coluna “Economia EV” fica o quanto se economiza nos 5 anos ao se migrar para um carro elétrico. Na última coluna, o percentual dessa economia em comparação aos custos totais.

PaísCusto TotalImpostosCombustívelSeguroEconomia EV% Economia
1. Singapura877,4794,957,425,327,53,13%
2. Dinamarca319,6234,963,218,645,014,07%
3. Turquia266,5228,933,04,633,812,67%
4. Hong Kong250,3127,1100,023,296,438,52%
5. Noruega220,6139,355,625,742,919,47%
6. Holanda205,3107,566,434,552,025,34%
7. Malásia187,1161,320,45,3817,59,33%
8. Finlândia162,374,760,327,547,028,97%
9. Brasil161,2116,431,813,021,313,24%
10. Irlanda150,583,848,818,022,314,83%
30. EUA95,013,427,554,215,616,43%
36. Qatar38,20,314,222,112,131,71%

Visualizando num gráfico:

Custos de possuir um carro, por países | Dados: Cars Multiverse
Custos de possuir um carro, por países | Dados: Cars Multiverse

O preço gigante em Singapura é porque há uma taxa de licença para ter um veículo que é enorme. Singapura é uma cidade-estado com 744 km² – próxima à área da cidade de Goiânia, ou da Ilha de São Sebastião (SP). Ter um carro lá é privilégio, e apenas 33% das residências possuem um.

Agora, os impostos. Na taxa total de impostos do primeiro ano de uso, temos:

PaísImposto no primeiro ano% valor sem imposto
1. SingapuraR$ 781.926449,60%
2. DinamarcaR$ 229.160131,80%
3. TurquiaR$ 222.609128,00%
4. MalásiaR$ 160.87092,50%
5. NoruegaR$ 133.44976,70%
6. Hong KongR$ 110.77163,70%
7. ÍndiaR$ 101.22358,20%
8. HolandaR$ 83.80948,20%
9. TailândiaR$ 82.76547,60%
10. IrlandaR$ 78.01744,90%
11. FinlândiaR$ 69.88440,20%
12. Brasil R$ 68.06439,10%
34. Estados UnidosR$ 12.2207,00%
36. QatarR$ 1.0430,60%

Onde fica o Brasil nessa?

Verificando os números apontados para o Brasil, temos vários pontos para notar.

A fama de cobrar imposto demais é semijustificada: não estamos no topo da lista, mas a maioria dos países que cobra mais tem um PIB per capita bem maior que o nosso. Com duas exceções: Tailândia e Índia.

Há também que se considerar que o carro padrão escolhido não está no mesmo segmento por aqui. Um carro de 30 mil euros é um intermediário na Europa mas, no Brasil, é um carro de luxo. Pela própria métrica do estudo, o modelo custaria R$ 174 mil antes de impostos, e pagaria mais R$ 60 mil para sair da concessionária, ou R$ 234 mil. Isso é quase o preço de um Volkswagen Jetta GLi, que é um 2.0 Turbo.

Na parte que nos cabe enquanto canal de notícias de eletrificação, o Brasil tem uma economia medíocre em uso de EVs. Como podemos ver no gráfico abaixo, com os piores países em economia, mais o México, que é o melhor:

Não é difícil ver o porquê: o Brasil não tem incentivo nenhum e ainda cobra impostos extras em importação de elétricos (e tem ainda uma ajuda à combustão interna “sustentável”, mas o carro no teste é caro demais para contar). Dos 36 países avaliados, o Brasil se encontra entre os nove que não têm nenhum benefício fiscal para EVs.

A falta de incentivos é um velho debate, mas esses números nos levam a pensar em outra coisa: no que é considerado (e nós mesmos costumamos considerar) a maior razão para a adoção de elétricos no Brasil: a economia.

Talvez o número acabe distorcido por representar o que é aqui um modelo de luxo. Mas também pode ser visto como um indício de que há mais do que apenas a economia na decisão que os brasileiros estão tomando. Pode ser que queiram esse produto específico – o carro elétrico – e só precisam que a diferença no preço, contando o que se economiza, não seja grande demais para tornar a escolha viável.

Confira o estudo completo sobre os impostos e o estudo sobre o custo total (ambos em inglês).