
Comprar um carro usado costuma envolver uma série de estudos. Consumo de combustível, histórico de manutenção, valor do seguro e custo das peças têm enorme peso na hora da decisão. Nos últimos anos, porém, uma nova dúvida passou a fazer parte desse processo: vale mais a pena comprar um carro usado elétrico ou seguir insistindo em modelos a combustão?
A resposta para essa questão não é igual para todos. Ela depende da rotina de uso do motorista interessado na compra, da disponibilidade de pontos de recarga e, principalmente, do estado de conservação do veículo. Ainda assim, o mercado brasileiro começa a oferecer informações suficientes para que essa comparação seja feita de forma mais objetiva.
Com o crescimento das vendas de EVs nos últimos anos, o número de seminovos e usados disponíveis também aumentou, embora esse mercado ainda siga, para muitos, insipiente, pouco conhecido. Isso abriu uma oportunidade para consumidores que desejam entrar no universo da mobilidade elétrica gastando menos.
Diante disso, fica a pergunta: será que um carro elétrico usado realmente representa um negócio melhor do que um modelo convencional, a combustão?
Mercado de carro elétrico usado começa a crescer
Até um passado bastante recente, encontrar um carro elétrico usado no Brasil era uma tarefa difícil. A oferta era pequena e praticamente restrita a modelos importados, vendidos em volumes reduzidos. Esse cenário, porém, vem mudando rapidamente, para a alegria de quem ainda não consegue investir em um EV 0km.
Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), o país ultrapassou a marca de 220 mil veículos eletrificados vendidos em 2025, número que inclui carros 100% elétricos, híbridos e híbridos plug-in. Com mais veículos entrando em circulação, cresce também a quantidade de unidades disponíveis no mercado de usados.
Esse movimento tende a aumentar ainda mais nos próximos anos, principalmente porque boa parte dos veículos adquiridos entre 2023 e 2025 começará a chegar às lojas de seminovos, com a garantia da bateria ainda vigente por um longo período de tempo, já que costuma ser de, no mínimo, 8 anos.
Nos Estados Unidos, aliás, esse cenário aparenta estar ainda mais próximo da realidade. Um relatório publicado recentemente pela Edmunds, empresa que é referência do segmento automotivo do país, os carros elétricos usados estão vendendo mais fácil do que convencionais.
Quais as vantagens de comprar um carro elétrico usado?
Uma das maiores vantagens dos carros elétricos continua existindo mesmo após alguns anos de uso e, por isso, automaticamente se transforma em um ótimo motivo para comprar um no mercado de usados.
Ao contrário dos veículos equipados com motores a combustão, os elétricos possuem muito menos componentes sujeitos a desgaste mecânico. Não existem trocas periódicas de óleo do motor, filtros de combustível, velas de ignição, correias dentadas, escapamento ou embreagem.
Segundo o Departamento de Energia dos Estados Unidos (U.S. Department of Energy), os EVs possuem menor necessidade de manutenção justamente porque contam com menos peças móveis. Vale lembrar, porém, que isso não significa ausência absoluta de manutenção, mas sim menor frequência de intervenções mecânicas ao longo do tempo.
O ev drops conversou com um Cássio Pagliarini, CMO da Bright Consulting, empresa especializada em mercado automotivo, sobre as vantagens de optar por um carro elétrico usado e não por um veículo tradicional, a combustão. Para o executivo, o raciocínio pesa para o lado dos EVs por um motivo bem simples:
“Os elétricos usados estão subindo o valor de revenda. Por que? No começo se tinha a desconfiança de que as baterias não duravam muito e a gente está começando a ver que elas perdem 5% em 10 anos de vida. Bom, em 10 anos de vida você vai ter desgastes também no motor a combustão, pois ele perde compressão. Vamos dizer que a pessoa rode 15 mil quilômetros por ano, em 10 anos ela vai ter também algum tipo de perda nesses carros”, comparou. “Se hoje eu encontrasse um eletrificado, um plug-in, um híbrido plug-in usado em ótimo estado nessas condições que eu falo, certamente eu seria um cliente para ele”.
Bateria em EVs usados merece atenção, mas não medo
Quando o assunto é carro elétrico usado, a bateria costuma ser a principal preocupação do comprador. Essa preocupação é compreensível, já que ela representa o componente mais caro do veículo. O que é fundamental esclarecer, porém, é que não há razão alguma para ter medo de comprar um EV usado por conta da bateria.
Estudos recentes disponíveis mostram que a degradação das baterias costuma ocorrer de forma bastante lenta. Uma pesquisa realizada pela empresa Geotab, que analisou milhares de veículos elétricos em operação, identificou uma degradação média próxima de 1,8% ao ano nas baterias de íons de lítio, um número bastante aceitável.
Afinal, essa degradação, na prática, significa que muitos carros elétricos mantêm grande parte de sua capacidade original mesmo após vários anos de utilização. Na conversa com o ev drops, o executivo da Bright Consulting foi cirúrgico e fez apenas um alerta, voltado especificamente para carros elétricos puros de entrada.
“Depende muito de como o primeiro proprietário usou. Se for PHEV ou HEV ou MHEV eu compraria mesmo usado. Para um BEV eu teria alguma restrição para veículos muito baratos pois têm uma bateria de composição mais simples. Para os veículos mais caros BEV, nenhuma restrição”.
Além disso, vale pontuar que praticamente todas as fabricantes que atuam no Brasil oferecem garantias longas para esse componente, normalmente entre oito anos e 160 mil quilômetros. Antes da compra, porém, sempre é válido solicitar um relatório de saúde da bateria (State of Health ou SOH), quando disponível.
Custo por quilômetro rodado é outra vantagem
Outro ponto que pesa a favor da busca por um carro elétrico no mercado de usados é o custo por quilômetro rodado, que é substancialmente menor do que o de um modelo similar a combustão. Os dados do Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBEV), coordenado pelo Inmetro, mostram que os EVs lideram os índices de eficiência energética disponíveis no mercado brasileiro.
Esse ponto, aparentemente simples, faz toda a diferença na hora de calcular a economia no orçamento, especialmente para motoristas que rodam muito em centros urbanos diariamente. Motoristas que realizam viagens longas com frequência ou vivem em regiões com pouca infraestrutura de recarga, porém, ainda tendem a escolher modelos a combustão por conta da famosa “ansiedade de recarga”.
Vale lembrar, porém, que a solução para esse problema está cada vez mais perto de acabar. De acordo com a ABVE, a infraestrutura de carregamento no Brasil cresce mais rápido que a frota. Além disso, quem conseguir instalar um carregador residencial, certamente sentirá menos o impacto dessa limitação.
Desvalorização: quem leva a melhor entre elétrico e a combustão?
Quem está à procura de saber se comprar um carro elétrico usado é melhor do que um a combustão também costuma pensar na desvalorização. Nos primeiros anos da eletrificação, existia receio sobre o comportamento dos preços dos carros elétricos usados, já que os mitos sobre bateria e outros elementos eram ainda maiores.
Hoje o cenário já apresenta sinais mais claros. Embora alguns modelos tenham sofrido desvalorização acima da média, principalmente após reduções de preço dos carros novos, outros passaram a manter valores mais estáveis, graças ao aumento da procura.
No caso dos carros a combustão, porém, a desvalorização continua seguindo padrões conhecidos pelo mercado. Por isso, analisar o histórico específico de cada modelo desejado continua sendo mais importante do que comparar apenas o tipo de motorização ou tecnologia na hora de definir, de uma vez por todas, o que é melhor comprar.
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