Carros coloridos na cidade em ilustração
1 em cada 5 | Alona Savchuk / Unsplash+

Após números preliminares divulgados por consultorias e por fabricantes, saíram os números oficiais dos emplacamentos de maio, pela Fenabrave. Contando apenas automóveis, temos o recorde histórico de 51.213 unidades emplacadas de eletrificados, dentre as quais figura o número também recorde de 20.878 elétricos puros (BEV).

Num mês aquecido, no qual 214.300 automóveis foram vendidos (27,93% a mais que em maio de 2025), esses valores representam, respectivamente, 23,89% e 9,74% do total. Isto é: quase um entre cada quatro carros vendidos no Brasil já é eletrificado e quase um em dez é elétrico puro. Os eletrificados subiram 131,95% em comparação ao ano anterior, enquanto, para os elétricos, a cifra do aumento foi de 201,33%.

Dá para refinar esses números, que acabam sendo otimistas: a Fenabrave considera que híbridos leves (MHEV) são carros eletrificados, o que não é algo aceito pela Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) ou por organizações internacionais. Removendo esses veículos (6.534 emplacamentos em maio, de acordo com a ABVE), temos ainda assim um marco em eletrificados: 44.679, ou 20,85% de todos os carros emplacados no Brasil.

É importante notar que falamos de apenas carros porque a penetração de eletrificados em comerciais leves (caminhonetes, minivans etc.) é ainda quase nula: foram apenas 383 unidades vendidas em maio, de acordo com a Fenabrave, o que representa 0,76% do total de 49.743 unidades emplacadas.

A evolução da eletrificação no Brasil

Como esses números situam o Brasil no mundo? Segundo o último relatório da Agência Internacional de Energia, com os números fechados de 2025, a participação de mercado de EVs no Brasil (market share) hoje é o dobro que nos EUA (10%), empatando com Israel (21%). Também temos o segundo lugar na América Latina após o Uruguai (28%), que marcou acima da União Europeia (27%) no período avaliado. E ainda tivemos o dobro de market share de eletrificados em maio dos que o próprio Brasil registrou em 2025, de acordo com o mesmo relatório – os números envelheceram muito rápido por aqui.

A seguir, compilamos alguns gráficos sobre como a eletrificação no Brasil se comportou no último ano, não só para dar dimensão do aumento, como também trazer alguns motivos para manter os pés no chão.

Primeiramente, o número bruto de emplacamentos de eletrificados no último ano, mostrando o crescimento explosivo que começa em março de 2026, após uma queda nos dois primeiros meses.

Gráfico com emplacamentos de eletrificados no Brasil entre maio de 2025 e maio de 2026
Emplacamentos mensais por eletrificados no último ano | Gráfico: evdrops sobre dados da Fenabrave e ABVE
Gráfico com emplacamentos de eletrificados no Brasil entre maio de 2025 e maio de 2026
Emplacamentos mensais por eletrificados no último ano | Gráfico: evdrops sobre dados da Fenabrave e ABVE

A seguir, a evolução do market share das motorizações eletrificadas, mostrado como os elétricos puros passaram a dominar ao mesmo tempo em que a explosão aconteceu. Dá para ver aqui uma queda na preferência por híbridos convencionais (HEV) e também uma estabilização dos elétricos e híbridos plug-in (PHEV) entre abril e maio – vendendo mais, mas mantendo quase a mesma participação.

Participação da motorização no total de eletrificados no Brasil entre maio de 2025 e maio de 2026
Evolução das motorizações eletrificadas | Gráfico: evdrops sobre dados da Fenabrave e ABVE
Participação da motorização no total de eletrificados no Brasil entre maio de 2025 e maio de 2026
Evolução das motorizações eletrificadas | Gráfico: evdrops sobre dados da Fenabrave e ABVE

E, por fim, o market share dos eletrificados no Brasil, de acordo com diversas categorias, entre elétricos puros e adicionando híbridos leves.

Market share de eletrificados no Brasil entre todos os automóveis, divididos por grupo
Participação de mercado dos eletrificados no Brasil no último ano, por categorias | Gráfico: evdrops sobre dados da Fenabrave e ABVE
Market share de eletrificados no Brasil entre todos os automóveis, divididos por grupo
Participação de mercado dos eletrificados no Brasil no último ano, por categorias | Gráfico: evdrops sobre dados da Fenabrave e ABVE

Por esses gráficos, é possível notar que há uma evolução de vendas forte no começo do ano, que acompanha uma evolução geral das vendas em automóveis, mas a participação começou a mudar mesmo em dezembro, caiu um pouco em março, e se manteve estável em maio.

Bônus: o enigma do varejo

Uma coisa muito notável ao se falar de eletrificação no Brasil é o abismo que existe entre as vendas no varejo e vendas diretas. As vendas no varejo são as que acontecem para consumidores pessoa física, e são, via de regra, a forma como cidadãos comuns podem comprar seus carros. Comprar direto das montadoras – a venda direta – é permitido para pessoas jurídicas, taxistas, produtores rurais e pessoas com deficiência.

Os dois mercados se comportam de forma muito diferente. Enquanto, em vendas no varejo, quatro dos cinco carros mais vendidos eram eletrificados – e três deles elétricos –, em vendas diretas, o primeiro eletrificado vai aparecer na 17ª posição (o BYD Song).

Há diversas razões para isso, e uma das mais relevantes é que locadoras representam cerca de metade das vendas diretas – e suas prioridades são muito diferentes de consumidores comuns, inclusive empresas comuns. Mas isso nos leva a perguntar: qual a participação de mercado de elétricos apenas em vendas diretas?

E, por incrível que pareça, ninguém sabe responder. Nem a Fenabrave, nem a ABVE, nem a Bright Consulting fornecem esses números.

Vamos então a um pouco de matemática criativa – não considere isso dados de mercado. Segundo a Fenabrave, 51,5% das vendas de automóveis são no varejo. Considerando o total de 214.300 automóveis emplacados em maio, seriam 110.364 carros no varejo.

Cruzando o total de elétricos com esse valor, no lugar do total, teríamos 46% de eletrificados entre os carros no varejo, e 18,9% de elétricos puros. Porém, vendas diretas de eletrificados também acontecem, ainda que em número menor, então precisamos considerar isso. Como esse número não existe oficialmente, vamos considerar as vendas diretas da BYD: 22,2%. Cortando esse percentual dos 44.679 de eletrificados, temos 34.670. Para apenas elétricos, o número vai de 20.878 para 16.743.

Suponhamos que esses sejam os emplacamentos no varejo. Comparando eles com o total (esse oficial) de vendas, teríamos: 31% de eletrificados, dos quais 15% são elétricos puros, sendo emplacados no varejo em maio. Possivelmente o número verdadeiro fique acima disso, porque a BYD tem um percentual de vendas diretas bem acima daquele de outras marcas de eletrificados.