
O jornal alemão Süddeutsche Zeitung entrevistou o historiador britânico Niall Ferguson e o economista alemão Moritz Schularick para falarem do momento atual do mundo e das relações entre a China e o resto do planeta.
Schularick é presidente do Insituto Kiel para a Economia Mundial e Fergusson leciona na Universidade Stanford e é autor de best-sellers de história como Império (2003). Os acadêmicos são antigos parceiros, criadores conjuntos do termo “Chimerica”, falando da relação de interdependência entre as potências, num já distante ano de 2006. Segundo Ferguson, a Chimerica foi insustentável porque só a China saía ganhando: “previmos o divórcio”.
O começo da entrevista é sobre política, e Ferguson reafirmou na prática seu apoio ao governo Trump, o que é citado no começo da matéria como sua maior controvérsia. Mais para o final, a dupla foi perguntada sobre a situação da indústria alemã, e especificamente da Volkswagen.
O jornalista Alexander Hagelüken perguntou: “Observando a expansão da China e choques geopolíticos: o modelo de negócios da Alemanha está morto, porque ele se foca muito na indústria e nas exportações?”
Recebendo respostas de ambos:
Ferguson: O setor empresarial alemão subestimou completamente a ameaça chinesa. Eu me lembro de pessoas me dizendo, com toda seriedade, que os chineses jamais conseguiriam fabricar rolamentos ou para-brisas tão bons quanto os alemães. Eles não perceberam que a estratégia da China consistia em manipular o sistema, subsidiar empresas, roubar propriedade intelectual, e assim por diante. A menos que haja uma mudança radical, prevejo o seguinte: muito em breve, os europeus estarão dirigindo carros chineses em larga escala — modelos da BYD, por exemplo. E não se trata mais apenas da indústria automobilística e de maquinário. Toda a indústria farmacêutica europeia está prestes a ser dizimada pela enorme expansão dos setores chinês de biotecnologia e farmacêutica.
Schularick: Precisamos de uma estratégia firme em relação à China. Houve uma cúpula da UE na semana passada, mas ainda não temos uma estratégia europeia. A Europa terá de usar o acesso ao seu grande mercado como moeda de troca. Permitiremos que a China venda carros da BYD aqui, mas exigiremos que sejam produzidos na Europa, para preservar os empregos. Faremos com eles o mesmo que fizeram conosco. [Uma referência aos chineses terem exigido que montadoras ocidentais fabricassem no país.]
Ao que se seguiu a pergunta: “A Volkswagen irá falir?”
Essa respondeu apenas Schularick:
A Volkswagen provavelmente será comprada por uma fabricante chinesa como a BYD.
Schularick ainda acredita que haverá no futuro um mundo tripolar, com EUA, China e União Europeia – portanto, que há um futuro para a indústria alemã, se não Volkswagen. Ferguson diz que “não é tão otimista” e acha que a UE precisa ter autonomia em tecnologia e inteligência artificial para isso (com o que o alemão concorda). Algo que ele não acha que irá acontecer. Então a UE será um parceiro menor.
Nosso take
Talvez brasileiros possam achar até irônica a ideia de a segunda maior fabricante do mundo (depois da Toyota) ser comprada pelos chineses, mas a afirmação vem no contexto de uma entrevista em que os chineses aparecem como uma ameaça existencial aos países ocidentais. (Talvez até sejam, mas não somos “ocidentais” nas definições deles).
Isso fica claro já na imagem que abre a matéria:

Definitivamente vale seguir o link abaixo e ler por si mesmo, mas há razões para desconfiar que as afirmações sejam hiperbólicas, dadas num contexto de guerra fria econômica.
Mas será o argumento infundado quando visto pelo ponto de vista das fabricantes ocidentais? Não é impossível achar que terminem mesmo engolidas pelos chineses.
É possível questionar se a causa dessa crise são mesmo subsídios, “roubo de propriedade intelectual” etc. ou se não são algo mais profundo. Outros analistas (ocidentais) apontam mais para a enorme verticalização da indústria chinesa, que não terceiriza quase nada, como seu real segredo.
O fato é que essas empresas surgiram para um produto diferente, desenvolvendo seu negócio em torno desse produto, assim como sua logística, sua pesquisa e desenvolvimento, e suas margens de lucro. Pode ser que nunca consigam realmente oferecer o que os chineses oferecem por um preço parecido. (E qual indústria consegue?) Pode ser também que outros ocidentais disputem melhor esses espaços – o exemplo mais óbvio é a Tesla, mas muitos principiantes têm propostas altamente competitivas.
Nesse ponto, a visão pragmática de Schularick, de deixar os chineses entrarem para manter os empregos (qual é a alternativa?), quem sabe possa dizer algo que interesse ao Brasil. Afinal, aqui no Brasil, os chineses apareceram para literalmente ocupar espaços abandonados pela indústria tradicional em retração, como a Fábrica da Ford na Bahia.
Apenas corrija que o Fergusson leciona na Universidade de Stanford, de acordo com matéria original.