A Eve Air Mobility, empresa criada e controlada pela Embraer, deu um grande passo na viabilização de seu eVTOL, previsto para ser licenciado no ano que vem e entrar em operação comercial no seguinte. O protótipo em escala real do “carro voador” realizou o primeiro voo de transição parcial, manobra em que a aeronave deixa o voo sustentado pelos rotores verticais para para o voo horizontal sustentado pelas asas.
As aspas são porque de carro os eVTOLs não têm absolutamente nada. “Carro voador” é como algumas empresas (não a Eve) e a mídia popular chamam os eVTOLs (de vertical take off and landing, “decolagem e pouso verticais”, com o e de elétrico).
São veículos elétricos a hélice, parecidos com drones gigantes, que, como o nome indica, pousam e decolam na vertical, como helicópteros, mas se movem na horizontal, mais como aviões. A vantagem da versão elétrica é que podem ser muito mais silenciosos e econômicos que helicópteros.
Como a bateria limita severamente seu raio de operação, a ideia é que eVTOLs que atuem como táxis voadores nas cidades, com os helicópteros mantendo seu “emprego” em longas distâncias ou longo tempo pairando. A Eve chegou a dizer que uma viagem do centro de São Paulo até o aeroporto de Guarulhos custaria o mesmo que um Uber Black.
O que aconteceu no teste
O teste foi realizado em 3 de agosto, na unidade de Gavião Peixoto (SP), e representa uma mudança de fase no desenvolvimento do modelo. Antes disso, o protótipo havia concentrado os ensaios em voos pairados e deslocamentos em baixa velocidade. Conforme já chegamos a cobrir, o eVTOL já havia realizado mais de 60 voos verticais.
Durante o primeiro teste de transição, a aeronave chegou a 55 km/h, percorreu aproximadamente 1,55 quilômetro e atingiu 27 metros de altitude. O voo durou três minutos e nove segundos. A hélice traseira, responsável pela propulsão para o deslocamento à frente, foi acionada pela primeira vez nessa etapa.
A transição é considerada crítica porque o eVTOL pela maneira como um eVTOL voa. Na decolagem e no pouso, os rotores posicionados verticalmente sustentam a aeronave. Depois, à medida que ganha velocidade, o sistema precisa transferir progressivamente a sustentação para as asas, enquanto a propulsão passa a ser feita pela hélice traseira. Há o risco de não haver velocidade o suficiente para o voo horizontal e o aparelho acabar entrando em estol (perdendo a sustentação).
O teste realizado agora é apenas o início dessa fase. A Eve pretende repetir os ensaios nas próximas semanas e aumentar gradualmente a velocidade da aeronave. Depois da conclusão da campanha de transição, estão previstos testes de comunicação por rádio e operações em velocidades maiores, de até aproximadamente 92 km/h. O objetivo é ampliar progressivamente o envelope de voo antes das etapas mais complexas da certificação.

Certificação no Brasil está em andamento
O avanço dos testes ocorre paralelamente ao processo de certificação do EVE-100 junto à Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). Em julho, a agência abriu consultas setoriais sobre os critérios de aeronavegabilidade e de certificação de ruído aplicáveis ao modelo.
A ANAC publicou os primeiros critérios de aeronavegabilidade do EVE-100 em 2024 e agora revisa essas regras para aproximá-las das diretrizes internacionais estabelecidas pela Federal Aviation Administration (FAA), dos Estados Unidos. O processo brasileiro, portanto, ainda está em andamento e a conclusão dos testes de voo será apenas uma das etapas necessárias para que o modelo possa operar comercialmente.
A Eve também conduz o processo de certificação nos Estados Unidos. A intenção é obter as certificações brasileira e norte-americana em períodos próximos, o que permitiria iniciar as operações comerciais em dois dos mercados considerados prioritários para o projeto.
Quatro passageiros e um piloto
Na configuração inicial, o eVTOL será capaz de transportar quatro passageiros além do piloto. A Eve também prevê uma futura configuração autônoma que poderá levar até seis passageiros, mas essa versão depende de certificações adicionais.
A proposta, portanto, não é substituir carros elétricos convencionais, mas criar uma alternativa para deslocamentos urbanos nos quais o trânsito terrestre representa uma parcela significativa do tempo de viagem. A operação comercial deverá depender de uma infraestrutura própria, incluindo locais para pouso e decolagem, além das regras de controle do espaço aéreo.
O projeto já reúne aproximadamente 3 mil cartas de intenção de compra e pedidos de operadores de diferentes países. Esse volume indica que existe demanda potencial por aeronaves do tipo, embora a transformação dessas encomendas em operações efetivas dependa da certificação, da infraestrutura e da viabilidade econômica dos serviços.
Quando o carro voador começa a operar no Brasil?
A previsão mais recente da Embraer é começar a transportar passageiros comercialmente até o fim de 2028. A data é mais conservadora do que a expectativa divulgada anteriormente, que indicava a possibilidade de certificação, primeiras entregas e início da operação comercial em 2027.
O Brasil está entre os primeiros mercados previstos para receber o serviço, ao lado dos Estados Unidos. A produção inicial também será brasileira: a fábrica da Eve em Taubaté, no interior de São Paulo, está planejada para produzir aproximadamente 480 aeronaves por ano.
A localização da fábrica tem importância estratégica para o projeto. Como o eVTOL foi desenvolvido para deslocamentos urbanos e regionais de curta distância, a Eve pretende instalar unidades de produção próximas dos mercados em que as aeronaves serão utilizadas. A autonomia prevista é de cerca de 100 km, o que coloca o modelo em uma categoria diferente dos aviões convencionais usados em rotas regionais.
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