Recentemente, a Quatro Rodas e outros meios noticiaram a curiosa chegada do carro elétrico mais barato do Brasil: o JMEV (ou E-Motors) EV2, disponível apenas em uma revenda em Minas Gerais.

Mas é bem mais do que isso: é o carro, ponto, mais barato do Brasil, salvo raras circunstâncias. E também é fruto de uma iniciativa da Renault. E só veio parar no Brasil por puro acidente, porque uma lei mudou inesperadamente. E tem opção manual. E…

Enfim, o fato absolutamente insólito de uma pequena (mas tradicional, com 33 anos de atuação) revenda em Pedro Leopoldo, na região metropolitana de Belo Horizonte, ter passado na frente de todas as gigantes do país para oferecer o carro mais barato é apenas uma das ocorrências altamente improváveis que levaram isso a acontecer.

Para esclarecer os mistérios do carro mais barato do Brasil, o evdrops conversou com Rodrigo Salomão Carvalho, líder de vendas da Lulute Veículos, única representante oficial do EV2, e Eduardo Carvalho, diretor comercial da E-Motors Brasil, a importadora responsável pelo projeto, e também a marca que ele irá assumir no país.

Isto foi o que descobrimos.

O JMEV (E-Motors) EV2…

1. É o carro mais barato do Brasil

Não confunda o E-Motors EV2 com o Kia EV2. Ainda que os outros veículos de comunicação tenham listado o EV2 como o carro elétrico mais barato no país, como lembram Rodrigo e Eduardo, para o consumidor do varejo (e geralmente também o de frotas) ele é o mais barato, ponto.

Seu preço oficial é R$ 69.990. O preço de tabela do Fiat Mobi de entrada (Like) é R$ 83.490 e o do Renault Kwid é R$ 80.690.

Recentemente, o Mobi teve uma promoção na qual se tornou (temporariamente) o carro mais barato do Brasil: seu preço então foi exatamente o do EV2: R$ 69.990. Em venda direta, às vezes é possível achar preços ainda menores, mas também temporários.

2. É secretamente um Renault

Eduardo acredita que, mesmo com esse fato tão positivo, para as vendas realmente embalarem, falta ao consumidor brasileiro vencer a desconfiança com um modelo tão básico e barato. “O pessoal está procurando, mas as pessoas que têm coragem de fechar negócio é algo que está aumentando aos poucos. 90% de nossos clientes ainda são autoescolas.”

Quem sabe então ajude dar esta carteirada: o EV2 é na verdade secretamente um Renault. É até irônico para um carro concorrendo com o Kwid na entrada absoluta, mas não é um caso muito diferente do Kwid E-Tech, já que esse surgiu de uma parceria da Renault com a chinesa Dongfeng, sendo fabricado na China. O EV2 só não usa a marca, nem é vendido na França.

A JMEV não é uma empresa chinesa, mas sim uma joint venture entre a Jiangling Motors Corporation Group, uma estatal chinesa, e o Grupo Renault, que tem 50% das ações, controlando a operação. O nome “nativo” do EV2 é Xiaoqilin e ele é produzido desde 2022. No ano passado, mais de 16 mil unidades foram vendidas na China.

Por lá, ele sai a partir de CN¥ 40.000 – o que dá cerca de R$ 29.000. Um valor pelo qual não se compra um carro popular usado com menos de dez anos por aqui.

3. É básico, mas vence os populares em alguns quesitos

“Não estamos entrando para competir na categoria do Dolphin Mini, mas da entrada absoluta, com o Mobi ou o Kwid”, afirma Eduardo.

O EV2 é um subcompacto de 4 lugares com 3,5 metros de comprimento, 1,65 m de largura, e 1,46 m de altura (quase igual ao Mobi, que tem 3,6 x 1,66 x 1,55 m). Possui uma bateria de 17 kWh (metade do Dolphin Mini), o que dá para uma autonomia de 200 km (CLTC), e um motor de 26 kW (35 cv), para um peso de 930 kg. Sua máxima é limitada a 105 km/h.

Ele vem com um adaptador para carregar numa tomada convencional, onde leva 8 horas para uma carga completa – mas também aceita carregamento AC e DC com um conector Tipo 2.

Na sua versão mais básica, não tem media center, mas um rádio, e possui um sensor de estacionamento. A versão Comfort, a R$ 75.990, entrega a central de mídia e câmera de ré – nada disso disponível no Mobi Like, que nem rádio tem.

(Mas o Mobi tem 75 cv de potência e vai a até 164 km/h, é preciso registrar.)

4. Só está aqui por acidente

Rodrigo e Eduardo contam uma história altamente insólita para a chegada do modelo por aqui. Na verdade, a ideia não era vender um carro para o consumidor. “A gente ia entrar para o mercado com um produto altamente exclusivo e ao mesmo tempo altamente nichado, que era um produto voltado para autoescola”, afirma Eduardo.

Tudo começou com o mineiro Mercidio Givisiez, da cidade de Divino, a 280 km de Belo Horizonte. Atualmente CEO da E-Motors Brasil, ele tinha como seu negócio principal uma rede de autoescolas.

O empresário queria eletrificar sua frota, aproveitando a economia com elétricos, mas tinha um problema: a lei brasileira exigia que carros de autoescolas tivessem câmbio manual.

Ele então pôs em ação o que deve ser um dos maiores “faça você mesmo” de nossa história: inventou um simulador de marchas, incluindo pedal de embreagem e foi até a China procurar quem pudesse instalar seu invento num EV barato. A JMEV acabou sendo o parceiro para isso.

Inicialmente, o carro escolhido era o EV3, que é um modelo um mais sofisticado, de especificações mais típicas para a entrada, com 50 kW (67 cv) de potência, 330 km de autonomia, e 30,2 kWh de bateria. Esse modelo a E-Motors também está trazendo, por R$ 99.990.

O problema foi que a lei mudou: em dezembro passado, o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) publicou a sua Resolução 1.020. Essa foi a decisão que famosamente eliminou a obrigatoriedade de autoescolas, e atingiu duplamente aos planos de Mercídio: não só afastando alunos de autoescolas, como tornando seu projeto pessoal tecnicamente obsoleto.

“Uma coisa que a gente percebe aí dos últimos anos para cá, principalmente pós pandemia, é que o mercado brasileiro tá comprando preço, não carro”, afirma Rodrigo. “O brasileiro compra aquilo que dá conta de comprar. Então, a gente identificou que elétrico era totalmente fora de cogitação para essas pessoas. E olhamos para o outro modelo, que é o EV2, que também estava prestes a ser preparado na China para ter câmbio manual, e dissemos: ‘Opa, esse carro vai atender a gente aqui, só que de outra maneira’, ”

Como a E-Motors já tinha homologado os modelos da JMEV e já tinha tudo pronto para importá-los da China, o foco do negócio mudou (ainda que, na prática, no momento, os clientes sejam na maioria autoescolas).

A versão “manual” existe, e é única no mundo. Ela está sendo oferecida para quem quiser oferecer uma simulação de câmbio manual para os alunos. Mas você também pode ter se quiser uma experiência mais tradicional.

A dupla não quis revelar quantos modelos foram vendidos, mas afirma que já estão no terceiro lote e quase todos os emplacados são da versão “automática”.

5. Precisa ser comprado em Minas, mas é entregue

E chegamos aqui ao grande porém de uma notícia tão explosiva: é o carro mais barato do Brasil, mas não é fácil conseguir, exceto se você morar perto de Belo Horizonte.

Segundo Rodrigo, qualquer pessoa do país pode chegar na Lulute e comprar um EV2, mas é preciso ir lá pessoalmente. Com o carro comprado – mas hoje há uma fila de espera até junho – o felizardo dono pode sair andando ou fazer uso de uma transportadora especializada, um processo com terceiros que a revenda facilita fazer.

Segundo Eduardo, a E-Motors pretende ter uma rede de concessionárias pelo país e já tem peças mais comuns (como retrovisores) para reposição. A E-Motors dá 3 anos de garantia para o carro e mais 8 para a bateria.

Bônus: está sendo procurado por curiosos mais que clientes

Rodrigo e Eduardo disseram que os contatos da Lulute explodiram quando a matéria da Quatro Rodas foi publicada. Mas que 90% dos chamados são de curiosos, não clientes em potencial.

Faça um favor então aos pioneiros de Minas Gerais: só ligue se você tiver real interesse. Para curiosidades, é com a gente: mande um e-mail no endereço no rodapé do nosso site.