Freio Brembo de uma Ferrari
Ferrari agora tem EV pra gente usar esta imagem | Glenn Rushton / Unsplash

Entre os diversos benefícios associados aos carros elétricos, a menor necessidade de manutenção costuma aparecer entre os argumentos mais citados por proprietários e especialistas do setor. Sem trocas de óleo do motor, correias e diversos componentes presentes em veículos a combustão, os custos de manutenção nas idas aos mecânicos tendem a ser menores ao longo dos anos.

Um dos sistemas que mais se beneficia da eletrificação é justamente o de frenagem. Em muitos modelos elétricos, pastilhas e discos podem apresentar vida útil significativamente superior à observada em automóveis convencionais. Isso acontece por causa de uma tecnologia que já está presente em praticamente todos os veículos elétricos modernos: a frenagem regenerativa.

Por que os freios dos carros elétricos sofrem menos desgaste?

Nos veículos a combustão, toda redução de velocidade depende do atrito gerado entre pastilhas e discos de freio. Esse atrito transforma energia cinética em calor e provoca desgaste natural dos componentes.

Nos carros elétricos, parte desse trabalho é realizada pelo próprio motor elétrico. Durante as desacelerações, o sistema passa a operar como um gerador, convertendo parte da energia do movimento em eletricidade, que retorna para a bateria.

Segundo o Departamento de Energia dos Estados Unidos (U.S. Department of Energy), esse processo permite recuperar energia que normalmente seria perdida durante a frenagem e reduz a utilização do sistema mecânico tradicional.

Imagem mostra funcionamento do freio regenerativo em um Toyota Prius translúcido Foto: Toyota|Divulgação
Frenagem regenerativa preserva uso do freio tradicional Foto: Toyota|Divulgação

O resultado é simples: quanto menos os freios convencionais são acionados, menor é o desgaste das pastilhas e dos discos e, consequentemente, maior a economia para quem resolveu trocar o carro a combustão por um EV.

Quanto tempo duram os freios de um carro elétrico?

A resposta depende de fatores como estilo de condução, peso do veículo, condições de uso e intensidade da regeneração configurada pelo motorista.

Mesmo assim, existe um consenso entre fabricantes e especialistas de que os componentes de frenagem costumam durar mais em veículos elétricos.

Enquanto muitos automóveis a combustão exigem substituição das pastilhas entre 30 mil e 50 mil quilômetros, diversos proprietários de elétricos relatam intervalos superiores a 80 mil quilômetros. Em alguns casos, as trocas ocorrem apenas após 100 mil quilômetros de uso.

O Laboratório Nacional de Energias Renováveis dos Estados Unidos (NREL), órgão vinculado ao governo norte-americano, destaca que a frenagem regenerativa reduz substancialmente a utilização dos freios convencionais e contribui para ampliar a vida útil dos componentes.

Estrada x cidade: onde o freio do carro elétrico dura mais?

A vantagem dos carros elétricos se torna ainda mais evidente em trajetos urbanos. Paradas em semáforos, congestionamentos e reduções frequentes de velocidade criam condições ideais para o funcionamento da regeneração de energia sem o uso efetivo do pedal do freio. Em muitos modelos, o motorista pode inclusive dirigir utilizando apenas o acelerador na maior parte do tempo, recurso conhecido como one pedal drive.

Nessas situações, o uso do pedal de freio se torna menos frequente e o desgaste dos componentes diminui ainda mais. Já em viagens rodoviárias, ou seja, quando o motorista resolve cair na estrada com o seu EV, a regeneração pouco atua. Afinal, nesses casos, o carro tende a permanecer por longos períodos em velocidade constante. Assim, o sistema regenerativo irá atuar com menor intensidade.

Freios poupados, mas pneus “castigados”

Se por um lado o proprietário de um EV irá gastar bem menos com a manutenção dos freios, por outro o custo tende a ser maior com as trocas de pneus. Grande parte dos veículos elétricos possui peso superior ao de modelos equivalentes a combustão por conta do sistema de baterias.

Além disso, os motores elétricos entregam torque máximo praticamente de forma instantânea, como em um autorama, que dispara a cada apertada no botão. Essa combinação aumenta os esforços transmitidos aos pneus durante arrancadas e acelerações, causando o desgaste bem mais rápido dos compostos de borracha do que em carros a combustão.

Estudos técnicos publicados pela Society of Automotive Engineers (SAE) apontam que o peso adicional das baterias e a entrega imediata de torque podem influenciar diretamente o desgaste dos pneus em determinados cenários de uso. Em outras palavras, enquanto o sistema de freios tende a exigir menos intervenções ao longo da vida útil do veículo, os pneus podem demandar atenção semelhante ou até superior à observada em carros convencionais.

Por esse motivo, diversas fabricantes passaram a desenvolver pneus específicos para veículos elétricos, buscando equilibrar aderência, autonomia e durabilidade. Marcas como Pirelly e Goodyear já contam com linhas exclusivas para EVs, com características próprias para suportar o que um carro com essas características pede.

Peso dos EVs influencia freios e pneus de maneiras diferentes

As baterias representam uma parcela importante da massa total dos veículos elétricos. Esse peso adicional exige mais dos pneus, já que toda a carga continua sendo transferida para o solo durante a rodagem.

Nos freios, entretanto, a situação é diferente. Embora o veículo seja mais pesado, boa parte da desaceleração é realizada pelo sistema regenerativo. Isso reduz a necessidade de atrito mecânico e ajuda a preservar discos e pastilhas.

É justamente essa diferença que explica por que muitos proprietários observam economia significativa com freios ao mesmo tempo em que mantêm atenção especial ao estado dos pneus.

Além da preservação dos freios, existe outro benefício importante ao usar a frenagem regenerativa. A energia recuperada durante as desacelerações retorna para a bateria e ajuda a aumentar a eficiência energética dos EVs.

Desgaste menor não invalida manutenção dos freios

Um erro comum é imaginar que os freios dos carros elétricos, por serem bem menos usados do que em um a combustão, praticamente dispensem manutenção. Embora as trocas sejam menos frequentes, o sistema continua exigindo inspeções periódicas.

Fluido de freio, pinças, mangueiras e componentes hidráulicos permanecem sujeitos ao envelhecimento natural e ao acúmulo de detritos. Além disso, o uso reduzido dos freios convencionais pode gerar um fenômeno observado em alguns mercados: a corrosão superficial dos discos.

A National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA), agência federal responsável pela segurança viária nos Estados Unidos, já publicou estudos e análises relacionados à corrosão em componentes de frenagem de veículos submetidos a determinadas condições climáticas.

De acordo com o órgão, em regiões úmidas ou frias, especialistas recomendam utilizar o freio convencional periodicamente para manter os componentes em boas condições de funcionamento. “…No Brasil, embora o frio extremo não seja uma realidade, a preocupação se volta para as regiões litorâneas e de alta umidade. O clima úmido e a maresia podem acelerar a oxidação superficial dos discos caso o veículo passe longos períodos sem utilizar a frenagem mecânica tradicional.