
A agência Bloomberg publicou uma análise do mercado mundial de elétricos, comparando o aumento dos preços da gasolina diante da atual crise do petróleo versus a diferença nas vendas de veículos elétricos entre diferentes países.
A comparação pode ser vista no gráfico abaixo, onde os pontos amarelos indicam o aumento no preço da gasolina e os pretos, a variação anual nas vendas dos carros elétricos (somente puros, BEV) entre março de 2025 e março de 2026.

Imediatamente se notam duas coisas nas quais o Brasil foi recordista: ao mesmo tempo o menor aumento na gasolina (3%) e o maior aumento anual nas vendas de carros elétricos (184%). O segundo lugar, a Coreia do Sul, teve um aumento de 122% nas vendas contra 6% na gasolina.
Em geral, o que dá para tirar da leitura é que, ao menos imediatamente, os aumentos na gasolina não parecem diretamente ligados às vendas de EVs. O Canadá teve o segundo pior aumento de combustíveis, em 34%, mas teve uma queda anual de 16%. Os EUA viram a gasolina subir 29% e os EVs caírem 27%. E a China teve 9% de aumento da gasolina e 17% de queda nas vendas de carros elétricos.
O único país onde uma correlação forte parece ser observada é a Austrália, onde os 38% de aumento nos combustíveis (o maior no mundo) vieram junto com 68% no aumento de vendas de elétricos (o terceiro maior).
China, Canadá e EUA: três quedas, razões parecidas
O caso dos EUA é óbvio: em março de 2025 ainda havia o incentivo de US$ 7.500 para a compra de elétricos, cuja revogação pelo Governo Trump causou um quase apocalipse elétrico no país. O Canadá também cortou um incentivo, de CA$ 5.000. Ambos fizeram da América do Norte a única região no mundo que viu o total de EVs vendidos cair em 2025.
A China na verdade tem uma situação parecida: na virada do ano, o governo reduziu os benefícios tributários para veículos elétricos, levando a uma corrida às concessionárias parecida com a que aconteceu nos EUA com o fim do próprio subsídio.
Em 2024 e 2025, a China dava isenção total de impostos de compra para veículos de novas energias, no limite de até CN¥ 30.000 (~R$ 22 mil). Para este ano, o corte foi só metade do imposto (de 10% para 5%), mas com um limite de CN¥ 15.000. Março inteiro foi um mês de retração na China, com queda nas vendas domésticas de 16% em comparação ao ano anterior. Mesmo com fatores negativos, a queda dos EVs na verdade foi quase igual à média. Ao mesmo tempo, as exportações chinesas em março subiram 73% em comparação ao ano anterior.
De volta ao Brasil que, por algum motivo, a Bloomberg ignorou completamente em sua análise: por aqui, a tendência de eletrificação tem uma dinâmica própria. A ABVE credita o aumento (que foi de 192% segundo números nacionais) à nova lei do direito de carregamento no estado de São Paulo, enquanto a ANFAVEA afirma que é a consolidação de uma tendência histórica.
Nosso take
É muito provável que a crise do petróleo seja mesmo uma virada de chave mundial, como o economista mais importante do setor energético, diretor da Agência Internacional de Energia, já falou. Mas seus efeitos não devem ser sentidos de forma tão rápida, e não em sua força total desde o começo. As pessoas não irão trocar seus carros agora porque a gasolina subiu, e quem já iria trocar provavelmente já tinha feito sua decisão antes.
Quanto ao Brasil, há um fator raramente mencionado e não medido em pesquisas, porque institutos internacionais não pensariam em perguntar isso: a insegurança dos combustíveis causada pelo crime, organizado ou não. Ao decidir por elétricos no Brasil, as pessoas não estão fugindo apenas dos preços da gasolina, mas do risco de adulteração por donos de postos criminosos.
Via Bloomberg