
Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, o economista Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia e uma das maiores autoridades mundiais do setor de energia, afirmou que o impacto da crise do petróleo causada pela guerra do Irã e o bloqueio do Estreito de Ormuz levou a uma mudança irreversível no cenário mundial de energia.
“O vaso quebrou, o dano está feito”, afirmou à editora Fiona Harvey. “Vai ser muito difícil botar os pedaços no lugar de novo. Isso terá consequências permanentes no mercado global de energia pelos anos que se seguirão.”
O argumento de Fatih é direto: o choque de preços do petróleo causado pelas ações do governo dos EUA e a reação do Irã levaram a uma perda de confiança mundial nos combustíveis fósseis. E com essa perda, a demanda por esses recursos deve diminuir no futuro.
“A percepção de risco e a confiabilidade irão mudar”, afirmou o economista. “Os governos irão rever suas estratégias de energia. Irá acontecer um incentivo significativo aos recursos renováveis e à energia nuclear e uma mudança ainda maior para um futuro mais eletrificado. E isso irá atingir aos maiores mercados para o petróleo.”
Birol também fez algumas sugestões específicas para o Reino Unido em face da crise, mas que têm alguns ecos em uma decisão recente do Brasil – a exploração da Margem Equatorial, o petróleo na foz do Rio Amazonas, aprovada no ano passado pelo governo federal.
A discussão por lá é ampliar a exploração de petróleo no Mar do Norte, nos campos de Jackdaw e Rosebank. Ele afirma que esse tipo de avanço não irá mudar o preço do combustível nem mudar a situação de segurança energética do Reino Unido
A crise e o mito da autossuficiência brasileira em petróleo
No caso do Brasil, a dependência do petróleo importado ocorre não pelo volume produzido, mas pelo tipo de petróleo. O petróleo extraído da costa brasileira, como o dos depósitos no pré-sal, é de um tipo pesado, que as refinarias nacionais não são capazes de processar diretamente. Assim, é preciso importar petróleos mais leves para a mistura. A capacidade total das refinarias também não é suficiente para atender à demanda nacional por combustíveis. Assim, a suposta “autossuficiência” em petróleo brasileira, considerando apenas o volume total sem levar em conta a qualidade do produto, é pura propaganda.
Não se sabe ainda qual a qualidade do petróleo na Amazônia e se pode atender a essa necessidade por petróleo leve. De qualquer forma, a crise e a desvalorização futura do petróleo sobre a qual alerta Birol é uma razão para acreditar que esses possam não ser bons investimentos e que a forma de atingir a autossuficiência é aposentar o petróleo – algo para o que o Brasil não tem nenhum plano sério até agora, mesmo gradual (salvo misturar mais etanol na gasolina).
Via The Guardian