
A Solvay, conglomerado franco-belga de indústria química, acaba de anunciar que está estudando obter terras raras do Brasil para a produção de componentes na Europa, que alimentarão a indústria automotiva local.
Materiais fundamentais para a fabricação de veículos elétricos, os Elementos Terras Raras (ETR) vêm ganhando protagonismo na transição energética global e impulsionando uma corrida internacional por esses recursos. Em meio à disputa geopolítica envolvendo China, Estados Unidos e Europa, a Solvay anunciou, em 1º de junho, a assinatura de uma Carta de Intenções (LOI) com a Viridis Mining and Minerals para garantir o fornecimento estratégico de terras raras até 2028. No comunicado divulgado pela Solvay, a empresa afirma que “mantém sua meta de fornecer 30% do mercado europeu de terras raras leves e pesadas de grau magnético até 2030”.
A Viridis tem a sede em Perth (Austrália), mas sua operação mais relevante fica em Poços de Caldas (MG), no chamado Project Colossus, num depósito que contém 492 milhões de toneladas de materias de terras raras. As empresas trabalharão agora na formalização de um contrato definitivo para o refino de matérias-primas em óxidos individuais de alta pureza, essenciais para a fabricação de motores de veículos elétricos e diversas outras aplicações tecnológicas.
Pelos termos da Carta de Intenções, a Viridis, mineradora australiana, fornecerá matérias-primas extraídas no Brasil para a unidade da Solvay em La Rochelle, na França. A multinacional belga contribuirá com sua expertise em separação e processamento de terras raras para acelerar o desenvolvimento da cadeia de suprimentos a partir da produção brasileira.
A matéria-prima inclui elementos essenciais para a fabricação de ímãs permanentes, especialmente neodímio (Nd), praseodímio (Pr), disprósio (Dy) e térbio (Tb), cuja demanda cresce rapidamente em todo o mundo. O material também contém importantes quantidades de terras raras pesadas, como samário (Sm), gadolínio (Gd) e ítrio (Y), utilizadas em setores estratégicos de alta tecnologia, como os segmentos automotivo, eletrônico, médico e aeroespacial.

A unidade da Solvay em La Rochelle é uma das maiores plantas de separação de terras raras fora da China e figura entre os poucos complexos industriais do mundo capazes de processar todos os elementos desse grupo em escala comercial.
A operação ainda depende da assinatura da documentação definitiva e do cumprimento de exigências regulatórias. Portanto, não há garantia de que a transação será concluída nos termos atualmente previstos.
A importância das terras raras
Enquanto governos da Europa e dos Estados Unidos buscam reduzir sua dependência da China para o fornecimento desses materiais estratégicos, o Brasil desponta como uma das principais alternativas globais.
Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), órgão federal responsável pelo levantamento e avaliação do potencial mineral do país, o Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, com aproximadamente 21 milhões de toneladas. O volume corresponde a cerca de 23% das reservas globais, de acordo com dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).
As principais ocorrências brasileiras estão concentradas nos estados de Minas Gerais, Goiás, Amazonas, Bahia e Sergipe, que reúnem depósitos com elevado potencial econômico.
Entre os minerais considerados críticos ou estratégicos, o Brasil também se destaca por possuir as maiores reservas mundiais de nióbio, com cerca de 16 milhões de toneladas, equivalentes a 94% das reservas globais. O país ocupa ainda a segunda posição em reservas de grafita, com 74 milhões de toneladas (26% do total mundial), e a terceira colocação em reservas de níquel, com aproximadamente 16 milhões de toneladas (12%).
Disputa global
Esses recursos tornaram-se peças-chave na geopolítica contemporânea. Atualmente, a China domina amplamente a produção e o refino de terras raras, cenário que preocupa Estados Unidos, União Europeia e outras economias, que buscam diversificar suas fontes de abastecimento.
Nesse contexto, o Brasil surge como um ator estratégico. No entanto, especialistas ressaltam que o desafio nacional vai além da extração mineral. A cadeia produtiva desses elementos envolve etapas complexas, como beneficiamento e refino, segmentos ainda pouco desenvolvidos no país.
Além dos aspectos econômicos, a exploração mineral também levanta questões ambientais e sociais. Segundo o professor de Geografia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Luiz Jardim Wanderley, não existe mineração totalmente sustentável.
“Toda mineração causa impactos ambientais significativos, como o comprometimento dos recursos hídricos. Também gera pressões econômicas nos municípios onde ocorre, contribuindo para o aumento da pobreza, da desigualdade e da violência urbana. O que temos hoje é um modelo completamente insustentável de mineração”, explica o geógrafo.
“É possível adotar um modelo menos degradante. Ainda assim, seriam necessários grandes cortes no relevo para a extração desses minérios, com impactos sobre montanhas e cursos d’água. Precisamos refletir cuidadosamente sobre os benefícios e os custos envolvidos, já que as perdas ambientais e os efeitos socioambientais são expressivos”, diz.
O que são Elementos Terras Raras (ETR)?
Apesar do nome, os Elementos Terras Raras não são necessariamente escassos na natureza. O desafio está no fato de estarem dispersos em baixas concentrações, o que dificulta sua exploração econômica. O grupo é composto por 17 elementos químicos: os 15 lantanídeos da tabela periódica, além do escândio e do ítrio. Entre eles estão: lantânio, cério, neodímio e disprósio.
Esses elementos são indispensáveis para diversas tecnologias avançadas, incluindo turbinas eólicas, veículos elétricos, baterias, equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa.
Minerais estratégicos são aqueles considerados essenciais para o desenvolvimento econômico e tecnológico de um país, especialmente por sua aplicação em setores de alta tecnologia, defesa e transição energética.
Já os minerais críticos são aqueles cujo abastecimento está sujeito a riscos, como concentração geográfica da produção, dependência externa, instabilidade geopolítica, limitações tecnológicas, interrupções no fornecimento ou dificuldade de substituição.
Por esse motivo, a classificação de um mineral como estratégico ou crítico varia de acordo com os interesses e necessidades de cada país. Além disso, essas listas evoluem e mudam ao longo do tempo em função dos avanços tecnológicos, novas descobertas geológicas, mudanças geopolíticas e transformações da demanda global.
As terras raras podem ser classificadas tanto como minerais críticos quanto estratégicos, dependendo do contexto analisado. Em outras palavras, toda terra rara pode ser considerada estratégica, mas nem todo mineral estratégico é uma terra rara.
Via: Solvay e Agência Brasil
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