Carro elétrico e outros carros em ilustração
Um carro resiste | Resource Database / Unsplash+

Depois de três meses de sucessivas notícias de crescimento de vendas de elétricos no Brasil, é hora de fazer uma pausa e avaliar: onde o Brasil se encontra atualmente em eletrificação? As tendências atuais são sustentáveis? A bonança irá durar para sempre?

Nesta coluna, vamos abordar tudo o que pesa contra veículos elétricos no Brasil hoje, e o que pode prejudicar o processo que, no momento, parece irreversível.

Sem idealismo

Mas não vamos julgar a tecnologia em si. Nossa posição, como explicitamos na seção de perguntas frequentes da página Quem somos, é: acreditamos que esse debate não esteja mais em aberto.

Ao menos no ponto do consenso científico sobre emissões de gases estufa e emissões locais na cidade, e a economia prática em combustíveis e manutenção no cenário brasileiro. Elétricos são a melhor solução para o ambiente nas cidades e emissões de gases estufa, e mais ainda no Brasil.

Mas não somos idealistas: a gente sabe muito bem que ciência está longe de ser o guia universal para decisões políticas. E nem o consumidor é idealista: a adoção no Brasil (e isso está em pesquisas de opinião) tem muito pouco a ver com salvar o mundo ou as vítimas de doenças respiratórias, mas acontece por critérios financeiros, vindos da grande atratividade dos preços e tecnologia embarcada nos elétricos chineses. Isso é algo que se mantém enquanto essas condições econômicas se mantêm.

Risco 1: aumentos na China

Os bons preços podem não durar para sempre. De fato, já estão subindo na China por conta da crise do… petróleo. Isso acontece porque EVs, como qualquer carro, também usam borracha sintética e plástico. E são particularmente atingidos pela disputa com datacenters de inteligência artificial por chips e memória, inflando os preços desses componentes.

Um aumento de preços é coisa séria e poderia fazer a equação mudar. Nos Estados Unidos, o fim do subsídio governamental a EVs levou a um crash no mercado, e hoje o Brasil vende, proporcionalmente, mais elétricos puros que os EUA.

Por enquanto, os dois modelos mais populares do Brasil não estão ameaçados: a BYD acaba de lançar o novo ano modelo do Dolphin Mini por basicamente o mesmo preço do ano passado. A Geely, fabricante do EX2, ainda não anunciou reajustes diante dos aumentos nos custos.

Risco 2: fim de subsídios e do estoque chinês

Como acontece com a Noruega, o governo chinês já está se movendo para diminuir subsídios para elétricos. Mas os preços atuais não são simplesmente fruto de subsídios do governo chinês. Ao menos segundo a avaliação de consultorias internacionais, esses preços têm mais a ver com a verticalização da produção (fabricarem as próprias baterias).

No Brasil, acontece um antissubsídio: carros a combustão de montadoras estabelecidas recebem isenções de impostos com o Programa Carro Sustentável, por sua capacidade (apenas hipotética) de usar biocombustíveis. O Brasil deve ser o único país do mundo que patrocina combustão interna contra a eletrificação dizendo ser sustentável.

Por fim, há os estoques. Está sobrando carro elétrico na China, sim. Vamos ter carros tão baratos quando eles acabarem?

Carros chineses já chegam ao Brasil custando por volta do dobro de seu valor na China. Essa é mais ou menos a mesma proporção que os carros a combustão interna dos fabricantes estabelecidos custam se comparados a suas matrizes. Mas o dobro chinês e o dobro alemão ou americano não são a mesma coisa.

E se os chineses só quisessem desovar sua superprodução, não estariam construindo fábricas.

Risco 3: falta de presença nas vendas diretas

Ainda existe uma terra não colonizada para os EVs no Brasil: as vendas diretas. Diferente do varejo, a presença de elétricos nessa categoria ainda é mínima.

Ainda que vendas diretas não aconteçam, na maioria dos casos, para pessoas físicas, elas acabam sendo, indiretamente, como muitos clientes adquirem carros. Porque cerca de metade delas são para locadoras, que são avessas a elétricos por diversas razões (como carros alugados serem algo comum em viagens). Depois de algum tempo, esses carros vão parar com consumidores pessoa física, vendidos como seminovos de locadoras.

Assim, as vendas diretas são uma garantia de ao menos 25% do mercado como combustão interna, como são hoje.

Risco 4: a infraestrutura não acompanhar

A infraestrutura no Brasil cresce para atender à demanda de cada dia mais donos de EVs. Mas ela não cresce na mesma velocidade que a frota. Em março, a ABVE havia registrado que houve um aumento anual de 42% nos postos de recarga. No mesmo mês, segundo a Fenabrave, o número de emplacamentos de elétricos puros havia tido uma subida anual de 192%.

Se a frota cresce sem a infraestrutura crescer, as pessoas topam com o maior incômodo do dono do carro elétrico: não encontrar carregadores livres em viagens.

Existe provavelmente uma massa crítica que pode convencer mais empresários a investir mais em carregadores. Mas, no momento, ainda que os elétricos tenham se aproximado de 10% das vendas em abril, se eles dobrassem até o fim do ano e atingissem 400 mil exemplares, seriam apenas 1% da frota circulante do Brasil. Ainda é um negócio de nicho.

Felizmente, o Governo Federal parece ter acordado para a questão e criou um departamento para cuidar da infraestrutura no Ministério de Minas e Energia. Resta ver que tipo de decisão esse órgão irá tomar.

Risco 5: reviravolta política

O Brasil tem, até o momento, a bênção de não ver a eletrificação ser tratada como uma questão politizada. Pode ter o tipo de fã de carros que relaciona combustão interna com masculinidade, mas não na escala que vemos nos Estados Unidos.

Mas temos eleições este ano. É implícito que alguns candidatos podem mudar a política externa para agradar aos EUA. E isso significa aceitar à pressão para se afastar da China. Até o México, governado por uma presidente progressista, cedeu a essa pressão.

A outra parte é algo que já existe no governo: o Programa Mover e seu entendimento que existe um “combustível do futuro”, e portanto o futuro usa combustíveis. Em breve, deve sair um estudo cujo resultado todo mundo já sabe qual vai ser: ao medir as emissões na fabricação de um carro, “do berço ao portão”, ignorando o uso do carro, eles devem concluir que carros elétricos emitem mais gases estufa em sua fabricação. Isso é um fato universalmente reconhecido, assim como é o fato – que não entra no estudo do Mover – de que EVs mais que compensam por isso em seu uso.

O estudo admite de cara que atende a uma “demanda setorial”, deixando mais que claro quais são os interesses por trás dele. Resta saber o para que medida ele será usado como justificativa.

Conclusão

Há um processo forte de eletrificação no Brasil em andamento, certamente mais rápido do que previsto até mesmo por nós. Mas ele tem seus inimigos, e eles são poderosos. O processo também depende de um país no exterior e das relações do Brasil com uma potência estrangeira.

O momento no Brasil é de otimismo, com bons motivos para isso, e seguimos ele com grande atenção. Mas é como dissemos nas perguntas frequentes: uma tecnologia ser superior não é garantia de vencer seus concorrentes. No fim, tudo depende de os preços continuarem tão atraentes quanto hoje.

Atualização em 18/05/2026, 17h34: conclusão modificada para refletir já haver uma seção sobre política acima.