
Pesquisadores da Universidade Tecnológica de Graz (TU Graz), na Áustria, estão liderando uma iniciativa para dar um destino às sobras da produção do ketchup de seu sanduíche e do molho da sua pizza. O projeto, batizado de “ToFuel”, desenvolveu um método para criar combustível para aviões a partir de resíduos da produção industrial de tomates – como cascas, sementes, caules e, sim, tomates, rejeitados ou podres.
Trata-se de um Combustível Sustentável de Aviação (SAF). Essa é uma saída para controlar as emissões dos aviões. Podem ser combustíveis sintéticos ou, como no caso, biocombustíveis. A ideia busca combater tanto a pegada de carbono da aviação, um dos setores mais difíceis de descarbonizar, já que baterias são pesadas demais para o ar e não há jato sem combustão. E, no caso, também combater o desperdício da indústria alimentícia.
Da roça para o tanque
Há dois métodos que os cientistas estão testando para mover uma avião com tomates. Em um deles, os restos são macerados e fermentados. O resultado final não é etanol, mas um óleo adequado para ser transformado em combustível de aviação (bioquerosene).
O outro é tratar essa biomassa com altas temperaturas e alta pressão para produzir carvão (biocarvão) e óleo, que passa por um refinamento adicional para gerar combustível.
“O nosso objetivo claro é produzir um combustível sustentável a um preço de venda competitivo. No final das contas, o SAF precisa ser economicamente viável para ser adotado”, explica Marlene Kienberger, líder do projeto no Instituto de Engenharia de Processos Químicos e Ambientais da TU Graz.
Segundo ela, “de acordo com estimativas, cerca de 3% dos combustíveis de avião sustentável requeridos pela Europa em 2030 poderiam ser cobertos com o bagaço de tomate produzido no continente, isto é, os resíduos do processamento do tomate”.
Além do combustível, o processo foi desenhado para ser “lixo zero”. Os subprodutos da reação química podem ser aproveitados como fertilizantes, ração animal e até óleos nutricionais humanos.
O SAF no Brasil
Naturalmente, em se tratando de biocombustíveis, o Brasil não ficaria de fora. Não pretendemos alimentar nossos aviões com tomates, mas outras plantas.
O país tem projetos de produção de SAF, impulsionados pelo programa Combustível do Futuro, que estabelece metas de redução de emissões para operadoras aéreas a partir de 2027. (Metas extremamente modestas, vamos notar: 1% de redução em 2027 e 10% em 2037.)
Agora em dezembro, a Petrobras realizou sua primeira entrega de SAF produzido no Brasil, num volume de 3 mil m3, na Refinaria Duque de Caxias (Reduc) e projeta ampliar a oferta com a Refinaria Henrique Lage (Revap), em São José dos Campos (SP), a Refinaria de Paulínia (Replan, também SP), e a Refinaria Gabriel Passos (Regap, MG), iniciando atividades comerciais em 2026.
O SAF da Petrobras é produzido a partir de matérias como óleo de milho e óleo de soja, ainda acrescidos de querosene fóssil convencional.
Paralelamente, a canavieira Raízen obteve certificação internacional para seu etanol como matéria-prima para SAF e anunciou investimentos em plantas de tecnologia para alimentar jatos com etanol.
A Embraer que tem investido em veículos aéreos urbanos elétricos, também tem intensificado seus esforços para garantir a compatibilidade de suas aeronaves com SAF. A fabricante tem por meta atingir 25% de uso de SAF em suas aeronaves até 2040.
Biocombustíveis possivelmente tem um futuro mais promissor na aviação do que em carros. Eletrificação pode servir na cidade, com eVTOLs, mas não é uma opção para voos de longa distância (por enquanto).