
A consultoria escocesa Wood Mackenzie, que lida com mercado de energia, minérios e renováveis, lançou um estudo calculando a demanda global por lítio causada pela transição energética – não só veículos elétricos, como baterias estacionárias, como as usadas com a geração eólica e solar, e também o uso industrial.
Segundo a consultoria, a demanda global por lítio pode chegar a 13 milhões de toneladas (Mt) em 2050 (versus 1,8 milhão de toneladas ano passado). A WM avisa que, sem investimentos significativos, déficits de produção podem começar a aparecer já em 2028 e que, mesmo no cenário mais conservador, a produção atual, seja existente ou planejada, não deve ser capaz de suprir a demanda na metade da década de 30.
A consultoria calculou quatro cenários possíveis. Um, o caso base, é como as coisas estão hoje – nesse caso, a demanda teria problemas em 2035. Com uma transição desacelerada, o suprimento duraria até 2037. Mas se os países cumprirem com seus compromissos climáticos, os déficits passam a aparecer em 2029, exigindo um aumento de produção de 6,7 Mt de lítio até 2050. E, caso o planeta opte por emissões zero, os problemas começariam em 2028 e o suprimento terá que aumentar em 8,5 Mt até 2050.
Reciclagem deve levar tempo
Os veículos elétricos são a principal razão do aumento da demanda, representando 72% a 80% do aumento da demanda nos cenários avaliados pela consultoria. Eles representariam 75% dos novos veículos no cenário dos compromissos de emissão, e 95% no cenário de zero emissões.
A reciclagem de baterias foi levada em conta na projeção. Porém, como os carros produzidos hoje ainda devem estar circulando por um tempo considerável, deve levar tempo até que ela possa se aproximar da demanda de lítio. Em 2050, ela deve responder por 2,3 a 2,7 Mt de lítio anualmente.
Os investimentos necessários para obter tanto lítio iriam de US$ 104 bilhões, no cenário atrasado, a US$ 276 bilhões, no de emissões zero.
“O mercado de lítio caminha para uma crise de oferta [crunch] muito antes do que muitos players da indústria esperam”, afirma Allan Pedersen, diretor de pesquisas na Wood Mackenzie. “A questão não é se vamos precisar de mais lítio. É se a indústria pode mobilizar capital rápido o suficiente para atingir a demanda num mercado global cada vez mais fragmentado.”
“Os vencedores serão aqueles que empregam capital de forma eficiente enquanto navegam por fragmentação do comércio e garantem o acesso a mercados regionais”, afirma Rebecca Grant, analista sênior da Wood Mackenzie.
Nosso take
O cenário mostrado pela Wood Mackenzie soa alarmante, mas o “pior” caso – que, em amarga ironia, seria o melhor para o planeta – é improvável. Tanto que o cenário base apresentado por eles é bem próximo de uma transição desacelerada.
A evolução tecnológica não necessariamente evita o cenário previsto pela WM. A maioria das baterias de estado sólido hoje propostas ainda faz uso de lítio.
Mas pode haver surpresas no caminho: a Donut Lab, criadora de uma bateria que parece ser real, mas sobre a qual ainda pairam sérias dúvidas, afirma que sua bateria não usa lítio ou terras raras, e custa mais barato que uma bateria convencional. E até o Brasil pode ter a saída, com uma química baseada em nióbio em desenvolvimento.
Via Wood Mackenzie