
O Rhodium Group, consultoria especializada em estudos sobre o mercado chinês, publicou um estudo comparativo entre os fabricantes automotivos ocidentais e chineses. Laconicamente chamada Why Chinese EVs are So Cheap? (“Por que veículos elétricos chineses são tão baratos?”), a análise se ocupa de diversos fatores que explicam as vantagens chinesas – a maioria deles não muito intutiva.
A Análise é centrada numa comparação de custos entre dois modelos semelhantes das duas maiores montadoras mundiais de elétricos: a BYD e a Tesla. O estudo comparou o quanto custa à empresa um Tesla Model 3 versus um BYD Seal, ambos fabricados na China.
Mesmo considerando as diferenças naturais de materiais e acabamento nos modelos, a BYD acaba economizando US$ 4.700 comparada à Tesla – ou 20% do custo do veículo (sem se esquecer que esse é o custo de um Tesla feito na China, não no Ocidente). Cada parte desses US$ 4.700 é explicada a seguir.
O real tamanho dos subsídios
Vamos tirar da frente logo o mito: frequentemente as pessoas dizem que carros elétricos chineses são tão baratos porque o governo chinês simplesmente paga para isso. Dando a entender que, no momento em que deixar de pagar, tudo cairá como um castelo de cartas.
O estudo reconhece esses subsídios, que vêm na forma de financiamento direto e facilidades para empréstimos. Nos números citados, a BYD recebeu US$ 1,4 bilhão em subsídios em 2024, a SAIC, US$ 730 milhões, a Geely, US$ 113 milhões e a Leapmotor, US$ 24 milhões.
São números vultosos, mas menos impressionantes quando se considera o total de veículos vendidos. Segundo o Rhodium Group, quando se considera que a BYD venceu mais de 4 milhões de veículos, o subsídio se reflete numa vantagem de custo de US$ 292 por carro, se comparado com a Tesla, que não os recebe. Isso dá 1,2% do valor total do veículo, ou 6% da vantagem.
“Esses são valores significativos – e, no caso da BYD, a vantagem de custo subsidiada está crescendo – mas permanecem pequenos comparados às vantagens estruturais”, afirma a consultoria.
O valor de empréstimos facilitados pelo governo chinês também foi calculado pelo RG. Esses também contam pouco: U$ 12 de vantagem por carro.
Produtividade: quando mais é menos
Um outro fator que as pessoas costuama considerar é a produtividade, medida pelo quanto de renda à empresa cada funcionário pode gerar. Se soa óbvio que salários menores na China representariam mais receita ficando com as empresas, na verdade é o oposto: as empresas chinesas são as que obtém menos por funcionário.

Na tabela acima, o valor em dólares no lucro líquido por funcionário em 2024. A operação mais lucrativa de todas é a Volkswagen na China, seguida pela Toyota e pela Tesla, e a menor de todas é a BYD.
Segundo o Rhodium Group, isso não é uma questão de eficiência, mas da estrutura dos negócios. Os fabricantes chineses estão em rápida expansão, aumentando as exportações, e entrando em novos segmentos, contratando mais pessoas nisso. O lucro por cabeça cai com esse tipo de investimento.
Chineses não vendem com prejuízo
Outra possibilidade levantada é a de que os fabricantes chineses estejam vendendo com prejuízo para dominar o mercado – o famoso dumping. Essa se revelou simplesmente uma inverdade, ao menos no que se refere à montadora chinesa mais bem sucedida.

A margem de lucro da BYD na verdade foi maior que a da Tesla e da Volkswagen. Todas as montadoras apresentaram uma queda de margem de lucro entre 2023 e 2025, exceto pela Geely (a Leapmotor partiu do zero, então não conta para a comparação).
As reais vantagens dos chineses
Até agora explicamos o que não são as causas para os chineses venderem seus carros elétricos tão baratos. Agora vamos a quais são elas.
O fator mais importante de todos, segundo da Rhodium Group, é a chamada integração vertical. Os fabricantes chineses terceirizam menos de seu trabalho que os ocidentais, frequentemente produzindo eles mesmos componentes vitais como a bateria. A Leapmotor produz entre 60% e 70% de seu material internamente. A BYD usa até a 80% para componentes de categoria 1 (os componentes cruciais, como motor, bateria, chassis e suspensão) e 36% dos categoria 2 (detalhes como bancos). O primeiro número é mais que o dobro do caso da Tesla.
“A integração vertical exige maior investimento de capital em pesquisa e desenvolvimento, mas elimina despesas com fornecedores por uma parte muito maior da produção do veículo”, afirma o RG. Segundo a consultoria, com a integração vertical da BYD, ela consegue economizar até U$2.369 por veículo comparando com a Tesla. Isso dá oito vezes mais que com os subsídios.
Outra vantagem dos chineses é que desenvolvem principalmente para seu vasto mercado interno. Veículos ocidentais geralmente tem um projeto central adaptado a diversos países, gerando maiores despesas de burocracia e pesquisa e desenvolvimento. Por poder se focar na China, a BYD economiza mais U$1,719 em comparação com a Tesla.
Então, há uma vantagem algo problemática: chineses demoram a pagar a seus fornecedores, obtendo vantagens disso. Na China, no período entre 2023 e 2024, a BYD levou em média 155 dias para realizar seus pagamentos, a Geely, 149, e a Leapmotor, 225. A Tesla levou 60 e a Volkswagen, 43. Isso não é ideal aos fornecedores, obviamente, e o governo chinês está intervindo para evitar abusos. Mas esse procedimento gerou mais US$ 214 de economia para a BYD comparada à Tesla.
Por fim, o custo de licenças: os chineses evitam pagar licenças, como as diversas patentes de comunicação por celular pertencentes ao Avanci Pool. Os detentores dessas patentes simplesmente não tem o mesmo poder na China que em países ocidentais. Isso resulta numa economia de mais US$ 50.
Somando tudo, temos o tamanho da vantagem chinesa e suas causas. Que podem ser vistas no gráfico abaixo.

O estudo, que é voltado a executivos do setor, termina recomendando a fabricantes ocidentais que quiserem continuar a vender na China que façam como a Volkswagen e localizem o máximo possível de sua operação no próprio país.
Para o consumidor, fica: subsídios são uma parte da vantagem competitiva dos chineses, mas são bem menos influentes que a capacidade dos fabricantes de produzirem tudo por conta e o valor de ter um mercado interno enorme.
Via: Rhodium Group