A informação foi levantada primeiro por transeuntes, divulgadas por contas de fãs, e confirmada pelo próprio Elon Musk no X: Tesla Robotaxis passaram a circular sem condutor de segurança em Austin, capital do estado Texas, onde fica a sede da montadora.
Segundo o próprio Musk, é um teste sem ocupantes. Isto é: viagens com passageiros continuam sendo com motorista de segurança por enquanto.
A informação é extremamente relevante para o futuro da Tesla, porque, em termos financeiros, a empresa é uma imensa anomalia e uma das maiores apostas dos investidores é justamente o Robotaxi.
A Tesla, em capitalização (o valor somado de suas ações na cotação atual) é maior que todas as outras grandes montadoras do mundo combinadas. Mas a empresa sequer aparece na lista das 15 maiores em veículos produzidos, surgindo em 11ª em renda bruta e 9ª em renda líquida, superada aqui em 6 vezes pela campeã, a Toyota. Mesmo em meses de más notícias (em termos de produção ou renda), suas ações ainda assim sobem.
Analistas financeiros – como Steve Eisman, que comparou a Tesla a uma “seita” – acreditam que isso seja porque os investidores confiam no que a Tesla tem afirmado: que não é uma montadora de carros, mas uma empresa de tecnologia. A aposta é que o Robotaxi fará dela uma gigante de outro setor, o de transporte individual urbano, concorrendo não com a Toyota ou BYD, mas com o Uber e, claro, a Waymo, a provedora de robotáxis do Google (mais precisamente Alpabet, empresa mãe do Google).
Tesla muito atrás da concorrência

A aposta é num cavalo azarão: enquanto a Tesla anuncia o começo de testes sem humanos, a Waymo fez isso em 2017 e começou a operar comercialmente sem motoristas em 2020. Para isso, a Waymo atingiu o nível de autonomia 4 dos 5 níveis da SAE – significa que o carro pode dirigir sem motorista num território limitado. Nenhum fabricante conseguiu autonomia total, em qualquer lugar do planeta, mas a Tesla está bem abaixo da concorrência. O sistema Full Self-Driving da Tesla, apesar do nome (“Direção Autônoma Completa”), nunca passou do nível 2 (o motorista tem que estar com as mãos ao volante o tempo todo).
A Waymo anunciou recentemente declarou servir 450 mil horas semanais de trajetos comerciais sem motorista, aumentando 80% em 6 meses, e operando em 10 cidades – inclusive Austin. A Uber também se movimentou em uma parceria com robotáxis da chinesa WeRide e passou operá-los no Oriente Médio.
A maior diferença da Tesla para a tecnologia da concorrência é que Tesla dispensa o Lidar (radar a laser), porque Elon Musk acha desnecessário e caro. O FSD se baseia em apenas câmeras. Essa simplicidade é vista como uma razão para a demora no desenvolvimento de autonomia real e segura em comparação aos concorretnes.
Por que investidores acreditam na Tesla
Mas por que os investidores acreditam na Tesla mesmo assim? A narrativa é que, dominando toda a cadeia desde o desenvolvimento, criação e fabricação do veículo, ela se saia muito melhor que as concorrentes, que se focam no software e usam veículos de terceiros.
Vale notar que a promessa infalível da Tesla mudou. Inicialmente, era a de que quem comprasse seu carro teria lucro – diferente do que notoriamente acontece com qualquer outro carro (incluindo os Teslas na vida real). A ideia é que, com uma atualização do FSD, o carro passaria a ser um robotáxi, com o qual o dono faria dinheiro.
Na prática, a fortuna dos investidores da Tesla depende na fé em seu futuro fora do setor automotivo. Se a Tesla fosse precificada enquanto montadora, e tivesse a mesma capitalização da Honda, que está a frente dela em lucro líquido (U$ 7,31 bi, versus US$ 7,21 bi da Tesla, nos últimos 4 trimestres fechados), sua capitalização de mercado iria de US$ 1,589 trilhão para US$ 40,31 bi. Os acionistas da Tesla veriam evaporar 97,5% de seus investimentos. A fé não move montanhas, mas move investidores a prometer 1 trilhão de dólares para quem mantém a fé viva.