
Atendendo a pedidos… a UE divulgou ontem (16) uma nova proposta para sua legislação de controle de emissões, que previa 0% de emissões nos veículos em 2025 – na prática banindo veículos equipados com motores a combustão interna, mesmo se híbridos. O novo plano é mudar essa meta para 90% em comparação a 2021.
Em tom que faz parecer um avanço, o novo Pacote Automotivo da UE foi anunciado como “Comissão age para um setor automotivo limpo e competitivo”. Mas fica claro pela linguagem quais as forças por trás da proposta: “Ele [o pacote] define uma estrutura regulatória ambiciosa porém pragmática para garantir a neutralidade climática e independência estratégica em 2050. Ela também responde a pedidos da indústria da UE para simplificar as regras.” O texto segue mencionando como a indústria automotiva da Europa por décadas tem sustentado milhões de empregos e gerando inovação tecnológica.
Na prática, o pacote representaria uma liberação de veículos com diversos tipos de combustão interna – a Comissão inclusive menciona biocombustíveis e e-fuels como forma de alcançar a meta.
Apesar de diversos meios de imprensa terem noticiado a mudança como algo que já está valendo, a decisão ainda precisará ser discutida e votada em plenário ao longo do ano que vem. Salvo uma reação em massa (que já estaria acontecendo), a aprovação é dada como certa.
Entidades se pronunciam
A proposta gerou reações imediatas de organizações ambientais e de defesa do consumidor, que classificam a medida como um retrocesso regulatório e um risco econômico frente à concorrência chinesa.
Principal ONG europeia de mobilidade limpa, a Transport and Environment criticou a revisão, falando que as regras adicionam complexidade desnecessária, e criando um paralelo irônico ao slogan do trumpismo, “Make America Great Again”. O diretor-executivo da T&E, William Todts, afirmou: “Criar cavalos mais rápidos nunca seria capaz de parar a ascensão do automóvel. Cada euro divergido para híbridos plug-in é um euro não gasto em EVs, enquanto a China dispara na dianteira. Se apegar a motores a combustão interna não vai tornar os fabricantes europeus grandes novamente.”
O Greenpeace também trouxe uma metáfora equina. O diretor-executivo da Alemanha, Martin Kaiser, assim se pronunciou: “Esse plano é um presente adiantado de natal para os fabricantes chineses de carros elétricos, pondo milhões de vidas e empregos europeus em risco. Ele pode gerar retornos de curto prazo para a indústria automotiva, mas nenhum futuro de longo prazo. Montadoras europeias iram continuar a gastar dinheiro e energia e tecnologia no meio da próxima década descendo a chibata no cavalo morto chamado motor a combustão interna, enquanto o resto do mundo segue adiante. [o original, flogging a dead horse, é uma expressão típica britânica, querendo dizer tentar obter vantagem de algo que já se esgotou]”
A Organização Europeia de Consumidores (BEUC) alertou para o impacto financeiro nas famílias. Segundo a entidade, veículos movidos a e-fuels ou híbridos complexos tendem a ter um custo total de propriedade (TCO) superior ao de veículos elétricos a bateria, devido ao preço elevado dos combustíveis sintéticos. A BEUC argumenta que a medida pode elitizar a mobilidade individual na Europa.
Do outro lado da cerca, a Associação dos Construtores Europeus de Automóveis (ACEA) apoiou a proposta, mas disse que foi pouco e chamou de “primeiro passo”. “A proposta de hoje corretamente reconhece a necessidade mais flexibilidade e neutralidade tecnológica para fazer da transição energética um sucesso”, afirmou Sigrid de Vries, diretor-geral da ACEA. “Porém, o diabo pode muito bem estar nos detalhes. Vamos agora estudar o pacote e trabalhar com co-legisladores para fortalecer criticamente as propostas onde necessário.”
A Associação se diz contra criar “condicionalidades rígidas” e contra a exigência parcial para a produção na União Europeia.
Análise: combustão interna para sempre?
Olhando por cima, não parece irrazoável ter uma meta ainda assim ambiciosa – melhor do que o Brasil, que não meta nenhuma, sequer para impor o propalado etanol. É possível discutir se banimento total não era mesmo um passo maior que as pernas – até os chineses, afinal, também investem em híbridos. Mas a própria proposta já mostra como pode ser contornada. Além dos biocombustíveis (que não são zero carbono), a meta pode ser contornada usando de aço “livre de carbono” europeu para a fabricação. Essa é a “complexidade burocrática” do qual fala a T&E, e ao mesmo tempo o protecionismo do qual reclama a ACEA.
Além disso, números teóricos de emissões dos carros híbridos – com os quais seriam calculados os 10% – não parecem corresponder à realidade, na qual o motor a combustão é usado muito mais do que o calculado pelos fabricantes.
Mas o problema maior é o precedente: a regra atual não tem três anos, e passou por debate e votação pelos mesmos países. O que impede de a nova regra virar 80%, 60%, 10% nos próximos anos? Por que investir em algo que pode mudar do dia para a noite? Como os chineses dominam também os híbridos, é de se pensar que o plano é que a proposta atual também não seja a que vai valer em 2035, mas seja, como a ACEA falou, só um “primeiro passo”.
Falando em que: o que afinal mudou tanto no último ano para justificar essa revisão? Recebemos alguma notícia positiva sobre o aquecimento global? Um palpite: começa com T e termina com “rump”. A eleição passa uma mensagem sobre o potencial de lucro investindo no futuro do passado. E isso nem de longe se limita à combustão interna.