Mais um capítulo da novela (ou seria thriller? ficção científica? crime?) da desconhecida startup finlandesa que afirmou em janeiro ter passado na frente de todos os grandes nomes do setor. A Donut Lab demonstrou com aparente sucesso o carregamento de sua bateria, que afirma ser em estado sólido, já instalada numa moto.
A Donut é uma subsidiária do fabricante de motos elétricos Verge Motorcycles. O nome vem de seu primeiro produto: motores circulares – ou em formato de rosquinha, daí o nome – para as motos da Verge, que não possuem raios nas rodas traseiras, com o interior completamente vazio.
Antes deste último, ela já havia apresentado dois testes por laboratórios independentes, que conseguiram carregar e descarregar com sucesso uma célula de sua bateria. Desta vez, o teste foi bem diferente: um pacote completo de baterias foi apresentado pela primeira vez, já instalado numa moto Verge TS Pro, e essa foi abastecida num carregador público.
O que efetivamente foi demonstrado foi carregar essa bateria de 18kWh de 9% a 80%, num processo que levou 12 minutos e pode ser visto no vídeo abaixo:
A bateria foi capaz de ir de 9% a 50% em 5 minutos e se manteve carregando a 100 kW (carregamento rápido) por um período longo.
O que a Donut provou?
O teste é interessante por diversas razões: uma, essa velocidade de carregamento é três vezes maior do que o que a bateria usada no modelo atual da moto é capaz de realizar. Duas: é o primeiro teste de uma bateria completa e montada no veículo. Anteriormente, apenas células individuais foram levadas ao laboratório independente.
Por fim, carregar a 100 kW geralmente só é possível para carros com resfriamento líquido de bateria. Numa moto com resfriamento a ar, isso levaria a um rápido aquecimento e à perda de velocidade de carregamento por controles automáticos de segurança. Ou, pior: a um incêndio.
São indícios que a Donut não está mentindo em seu argumento mais fundamental: eles de fato parecem possuir uma bateria altamente competente, fazendo várias coisas que uma bateria de íon de lítio regular não é capaz de fazer. No teste anterior, ela havia operado a temperaturas próximas a 100 °C, e de forma mais eficiente que o normal – uma bateria íon de lítio perde eficiência aos 60 °C, e corre risco de incêndio aos 80 °C. Essa tolerância ao aquecimento explicaria como a moto foi capaz de carregar tão rápido com um sistema de refrigeração tão rudimentar.
Ainda não é um teste do produto final, aliás: a Verge prometeu uma bateria de 30 kWh para a versão com autonomia máxima de sua moto. O modelo testado foi a versão mais básica.
Será que os finlandeses falam a verdade?
Quando a Verge apareceu em janeiro dizendo que tinha uma bateria em estado sólido pronta para o consumidor, levantou muitas e justificadas suspeitas. Ainda que essa tecnologia seja considerada até hoje uma revolução – o Santo Graal das baterias – eles não estão sozinhos. Desde então, empresas como a BYD, Changan e a CATL (o maior fabricante de baterias do mundo), apresentaram seus projetos, e todos com prazos relativamente próximos.
A densidade energética que a Donut afirma ter, 400 Wh/kg, é a mesma que a Changan promete para ainda este ano, e é considerada baixa para baterias em estado sólido, algumas das quais já marcaram mais que o dobro em laboratório.
Assim, a promessa da bateria por si só não é nada de outro planeta. A parte que ainda não foi provada é a capacidade de resistência dela – a Donut afirma que sua bateria é capaz de perfazer até 100 mil ciclos até se desgastar – isso significa que, se a moto carregasse todo dia, a bateria duraria 273 anos.
Como a Donut pode refazer a geopolítica da indústria automotiva
Mas o maior desafio de todos é uma promessa que não tem a ver com tecnologia: a de que a bateria custa menos do que uma bateria convencional e não utiliza lítio ou terras raras. Nenhum outro fabricante prometeu algo assim e espera-se que baterias em estado sólido inicialmente equipem veículos de luxo.
O real desafio não é criar essas baterias, ou fazê-las funcionar em laboratório – isso já foi feito no início do século 19, pelo cientista Michael Faraday. O problema é fazer isso em escala industrial e de forma economicamente viável.
A Verge, assim, pode mostrar a moto funcionando e recarregando, mas o real teste é só quando os clientes tiverem a chave em mãos e a empresa continue a produzi-las e vendê-las de forma financeiramente sustentável ao longo de anos.
Bem antes disso, é verdade, devem surgir outros interessados. E outra razão para desconfiança é que o único parceiro da Donut continua a ser a Verge.
Mas, se estiver dizendo a verdade, a pequena startup finlandesa pode mudar tudo na geopolítica automotiva mundial, já que se trata de um país ocidental e da União Europeia, passando à frente dos chineses num momento em que o Ocidente parecia prestes a comer poeira indefinidamente para eles.
O grande revertério na eletrificação visto entre fabricantes ocidentais recentemente tem a ver com haver um governo acabando com basicamente todos os controles de emissões no país mais rico do mundo, abrindo oportunidades inéditas para o atraso. Mas também com eles basicamente jogarem a toalha e dizerem que não são capazes de concorrer com os chineses em baterias sem barreiras comerciais. Um fabricante europeu produzindo localmente baterias melhores e mais baratas que os chineses poderia mudar absolutamente tudo para a indústria.