
Em entrevista concedida à Reuters nesta quinta-feira (5), a BYD revelou um plano para blindar a sua operação brasileira das tarifas crescentes, de forma a atingir sua promessa de se tornar a maior montadora do país até 2030. O vice-presidente sênior da BYD no Brasil, Alexandre Baldy, afirmou que a meta é atingir 50% de conteúdo local, seja diretamente ou por parceiros, nos veículos produzidos na fábrica de Camaçari até 1º de janeiro de 2027.
Isso muda tudo nos rumos da discussão atual. A maior polêmica do momento na indústria automotiva brasileira é o fim da isenção de impostos para a importação de kits CKD (totalmente desmontados) e SKD (semidesmontados), que são usados por montadoras recém-chegadas como a BYD para fabricar carros eletrificados no Brasil. Atualmente, a fábrica baiana opera em regime de montagem de kits SKD – basicamente os carros chegam quase prontos da China.
A Anfavea, que congrega os fabricantes tradicionais e fabricantes de peças, chegou a mandar uma carta ao presidente Lula exigindo a não renovação desses descontos, calculando que esses kits levariam à desindustrialização e perda de empregos no setor.
O desconto caducou dia 31 de janeiro, sem que ninguém sequer tivesse pedido formalmente a sua renovação. E ontem, executivos da BYD se encontraram com o vice-presidente Geraldo Alckmin numa reunião a portas fechadas.
A expectativa da reunião é que os kits estivessem na discussão, e Baldy afirmou à Reuters que a BYD irá pedir a renovação dos descontos. Também afirmou que o SKD é um “regime de transição”, e que “carros devem ser produzidos com componentes locais para serem econômica e financeiramente viáveis”.
Exportações para o Mercosul
A BYD tem todo interesse em nacionalizar sua produção. Os impostos na importação dos kits foram de 0% na semana passada para 18% atualmente e chegarão a 35% no ano que vem. Também é necessário nacionalizar para cumprir as regras do Programa Mover, permitindo que seus carros se qualifiquem para o Programa Carro Sustentável.
Segundo a reportagem da Reuters, os principais alvos para nacionalização imediata são pneus, vidros, pintura e estamparia, com as áreas de soldagem e pintura em construção na fábrica de Camaçari.
Desde outubro de 2025, a fábrica da BYD já montou no complexo que pertenceu à Ford cerca de 25.000 veículos (entre híbridos e elétricos, mas a maioria elétricos puros na forma do Dolphin Mini). A meta é elevar a capacidade anual para 150.000 unidades até o final de 2026, podendo chegar a 300.000 numa segunda fase.
“Chegamos aqui numa velocidade muito rápida e precisamos manter esse ritmo para alcançar a meta de nos tornarmos a maior montadora do Brasil em volume de vendas até 2030”, declarou Baldy.
O aumento do conteúdo local não serve apenas para o mercado interno. Com 50% de nacionalização, os carros da BYD produzidos na Bahia poderão ser exportados para os vizinhos do Mercosul (como Argentina e Uruguai) com isenção de tarifas, transformando o Brasil no hub de exportação da marca para a América Latina já a partir deste ano.
Via: Reuters