
Incêndios de carros elétricos são feios – e letais. Mas seriam eles motivo para as pessoas evitarem carregadores na garagem ou evitar comprar carros elétricos? Quão raros (ou comuns) são esses incêndios? E como se comparam a carros tradicionais?
Para quem está com pressa, resposta curta: incêndios de elétricos são extremamente raros em comparação a carros convencionais, mas são mais difíceis de controlar e são mais tóxicos.
É como um voar de avião. Acidentes aéreos geram grandes tragédias, mas eles são muito raros, com milhões de voos ocorrendo todos os dias sem qualquer ocorrência. E, no caso dos carros, eles podem ser comparados com carros a combustão interna, e o fato é que a chance desses pegarem fogo é muito, muito maior que a dos carros elétricos. Só não vira notícia.
Quão comuns são incêndios de elétricos no Brasil?
A reportagem do evdrops foi procurar quem entende do assunto para se certificar de que no Brasil, assim como lá fora, o medo de incêndios em carros elétricos é real, mas pouco justificável por conta dos números verdadeiros.
O Capitão Murilo Rinaldi Amendoeira, do Departamento Operacional do Corpo de Bombeiros de São Paulo, explicou que os incêndios em veículos elétricos ainda são menos frequentes, mas alertou para o impacto que pode ser causado pelo crescimento da frota.
“Os incêndios em EVs são proporcionalmente menos frequentes que os ocorridos em carros com motor de combustão interna. Entretanto, trata-se de uma frota em plena expansão e, pela lógica do crescimento dessa frota, a tendência é que o número de ocorrências, sejam incêndios ou acidentes de trânsito, também aumente.”
A última ocorrência de fogo em carro elétrico ocorreu em novembro, em uma concessionária da Volvo em Maceió (AL). Um EX30 em exposição pegou fogo sozinho, sem se alastrar para outros carros.
Antes disso, em outubro, em Santa Maria (RS), um BYD Dolphin Mini virou notícia por ter pegado fogo, mas a perícia determinou que a causa do incêndio foi uma recarga improvisada, feita com extensão elétrica inadequada (a famosa gambiarra), e não por causa de uma falha da bateria ou qualquer outro componente do EV.
Agora podemos pensar o seguinte: apesar de o Brasil ter uma frota circulante de cerca de 600 mil carros elétricos, a última notícia de fogo é de meses atrás. Quando foi o último incêndio de um carro a combustão interna no Brasil? Dica: provavelmente se mede em minutos.
Em 2024, no Estado de São Paulo (não há estatísticas nacionais) ocorreram 3.872 incêndios veiculares. Isso representa mais de dez incêndios por dia, e em apenas um estado. O fato é que esses incêndios são tão corriqueiros que sequer viram notícia. São acidentes comuns.
Por que carros elétricos pegam fogo?
Segundo o oficial dos Bombeiros ouvido pelo evdrops, cada tecnologia apresenta riscos específicos. Nos veículos convencionais, o perigo está diretamente ligado ao combustível líquido, altamente inflamável. Já nos elétricos, o desafio é diferente.
Enquanto carros a combustão pegam fogo porque carregam coisas feitas para pegar fogo, em elétricos, a substância da bateria pegar fogo é causada por um tipo de acidente que não ocorre comumente, mesmo quando os carros colidem.
“Nos EVs, a energia é liberada pela movimentação de íons de lítio. O perigo surge quando ocorre uma falha crítica, fazendo com que os materiais internos se decomponham e passem a liberar seu próprio oxigênio. Esse fenômeno é conhecido como fuga térmica, reação em cadeia que gera calor excessivo e pode se propagar para células vizinhas da bateria”, explicou.
O Capitão Murilo Amendoeira explicou que a “fuga térmica” é, sem dúvida, a maior diferença e o maior risco no comparativo entre os tipos de incêndio. “Nos carros elétricos, a liberação de calor pode ser mais intensa e instável. Eles podem atingir picos de temperatura superiores e manter a queima por períodos prolongados. Além disso, há o risco real de reignição horas ou até dias após o combate inicial do fogo”.
Incêndios de elétricos são mais perigosos?
Podemos dizer que sim: não é só impressão, fogo de baterias de lítio é mesmo violento.
O oficial dos Bombeiros foi bastante didático ao explicar a diferença do comportamento do fogo quando o incêndio é em um carro elétrico e quando ocorre em um veículo com motor térmico, a combustão. “Nos veículos a combustão, o incêndio segue uma curva de energia relativamente previsível: há um pico inicial de calor que declina à medida que o combustível é consumido. Já nos elétricos, a liberação de calor pode ser mais intensa e prolongada, com possibilidade de reignição mesmo após o combate inicial”, explicou Amendoeira.
O capitão ressaltou também que a química jogada na atmosfera quando ocorre incêndio em EVs é diferente e mais perigosa para a saúde. “Os gases liberados pelas baterias são mais tóxicos, exigindo protocolos diferenciados de segurança. Essa diferença explica por que os incêndios em veículos elétricos, embora menos frequentes, são considerados mais complexos de controlar”.
Há, porém, uma característica “a favor”, se podemos dizer isso, do incêndio do carro elétrico: eles geralmente não explodem em incêndios como é comum em carros a combustão interna.
O que dizem as estatísticas mundiais?
Finalmente, vamos aos números. Começando por uma curiosidade: a ONG IIHS (Insurance Institute for Highway Safety, “Instituto de Garantia de Segurança nas Estradas”), conduz testes de colisão com veículos elétricos desde 2011, e, em 2025, fez 55 testes em diferentes modelos de EVs. Mesmo com todos carregando sua bateria normalmente nos testes (carros a combustão fazem testes sem combustível), nenhum deles jamais pegou fogo nas colisões testadas.
Um relatório publicado pela Kelley Blue Book mostrou que os EVs são estatisticamente menos propensos a incêndios do que os modelos a combustão. Segundo a publicação, os carros híbridos estão envolvidos em cerca de 3.475 incêndios a cada 100 mil unidades vendidas. Os veículos a gasolina registram aproximadamente 1.530 ocorrências por 100 mil. Já os elétricos puros apresentam apenas 25 incêndios por 100 mil unidades vendidas, uma diferença que evidencia a menor probabilidade de fogo nos modelos eletrificados.
Isto é: por esse estudo as chances de um carro a combustão pegar fogo são 61 vezes maiores que as de um elétrico puro pegar fogo.
A ONG Australiana EVFireSafe chegou a um número próximo, baseando-se nas estatísticas do país. Segundo ela levantou a probabilidade de um carro elétrico sofrer incêndio é de 0,0012%, contra 0,1% nos veículos convencionais. Por esses números, veículos a combustão pegam fogo 83 vezes mais que elétricos.
Na Noruega que é a Noruega, onde 98,3% dos carros novos são eletrificados, na primeira metade de 2025 foram registrados 403 incêndios veiculares. Desses, 30 foram de elétricos puros, 12 híbridos e 359 de combustão interna. A fração de elétricos puros na frota é 31,3%: proporcionalmente, eles deveriam ter marcado 130 incêndios, mas fizeram 5 vezes menos.
Assim, ainda que incêndios de elétricos devam se tornar mais comuns conforme a frota cresce, incêndios de carros em geral devem diminuir por conta dessa adoção.
O que fazer em caso de incêndio de um carro elétrico?
O Capitão Murilo Amendoeira enfatizou que a prevenção é o caminho mais eficaz para manter a segurança e, se possível, evitar o risco de incêndios envolvendo carros elétricos. “Devemos focar primeiramente na prevenção e depois na proteção contra os incêndios”, comentou. “Esses cuidados estendem-se a todos os dispositivos que utilizam baterias de lítio, como celulares, bicicletas e patinetes elétricos.”
O oficial dos Bombeiros encerrou a conversa com o aviso mais importante: “Em caso de incêndio, a orientação é a mais clara possível. Abandonar o carro no local imediatamente e acionar o Corpo de Bombeiros pelo telefone 193”.