Empresário brasileiro: carro elétrico não é coisa de hippie e você pode estar perdendo dinheiro

Com elétricos explodindo em vendas no varejo e patinando nas diretas, talvez seja hora dos CNPJs entenderem o que os CPFs enxergam neles
Atualizado: 11 de março de 2026 03:03
Moça hippie abraçando uma árvore
Abraçando uma árvore, quem nunca? | Kateryna Hliznitsova / Unsplash

Vamos começar por isto: o título é uma brincadeira. Não acredito que qualquer empresário neste país literalmente acredite que carros elétricos são coisa de gente que curte rock psicodélico e vende artesanato na praça. Mas os fatos me levam a desconfiar que, talvez, haja uma percepção equivocada por parte do empresariado: a de que esse consumidor seja algum tipo de idealista aceitando tomar prejuízo para salvar o planeta. Este artigo é sobre isso.

A gente aqui no evdrops não é torcedor, é jornalista. Quando notícias são negativas, nós diligentemente as reportamos. Mas, no cenário geral, e em contraste com países como os Estados Unidos, o Brasil parece estar apertando o passo na direção da eletrificação.

Vez após vez acabamos por noticiar que as vendas de veículos elétricos sobem em duplos ou até triplos dígitos de um ano para outro. E até mesmo noticiamos recentemente um fato que nem a gente esperava noticiar tão cedo: o de que um elétrico – e puro, não híbrido – se tornou o carro mais vendido do Brasil.

Isto é, o mais vendido entre consumidores comuns, no varejo. Porque em vendas diretas, a maioria para empresas, carros elétricos parecem mal existir no Brasil.

Adiante, vou falar desse fenômeno e, quem sabe, convencer pessoas jurídicas a seguir o exemplo das físicas e adotar ao menos considerar a eletrificação. Ou também, talvez mais importante ainda, fazer com que legisladores notem que já passa da hora de olhar também para o setor comercial.

PFs vs PJs: o tamanho do abismo

Vamos começar mostrando o contraste: há um abismo entre o que fazem consumidores comuns e o que fazem consumidores corporativos. Os números a seguir são todos do informativo mensal da Fenabrave.

Elétricos disparam em vendas no varejo e são quase irrelevantes em vendas diretas, que são realizadas para pessoas jurídicas e produtores rurais (com uma exceção para pessoas com deficiência).

Estes são os 5 carros mais vendidos no varejo:

Os 5 carros mais vendidos em fevereiro de 2026 no varejo, segundo a Fenabrave

E estes são os 5 mais vendidos em venda direta:

Os 5 carros mais vendidos em fevereiro de 2026 em vendas diretas, segundo a Fenabrave

Maior fabricante de elétricos do mundo, a BYD tem dois carros dos mais vendidos no varejo, um deles um elétrico puro (BEV) e outro um híbrido plug-in (PHEV). A lista dos mais vendidos por venda direta só tem fabricantes tradicionais. O primeiro modelo eletrificado a aparecer nela é o GWM Haval H6 (que tem versões híbrida convencional e plug-in), na 24ª posição.

O Dolphin Mini, carro mais vendido no Brasil no varejo, sequer aparece na lista dos 50 mais emplacados em venda direta. O primeiro elétrico puro é o Volvo EX30, em 40º lugar – provavelmente sendo comprado para uso pessoal de executivos. O BYD Dolphin GS é o 50º. Enquanto a BYD é o segundo maior fabricante do Brasil no varejo, não está sequer entre os 10 mais em venda direta.

Ainda mais dramática é a comparação entre comerciais leves versus carros. Contando apenas automóveis, aproximadamente um em cada cinco veículos vendidos no Brasil tem algum tipo de eletrificação. E um em cada quinze é um elétrico puro. Dos 140.548 automóveis emplacados em fevereiro, 27.904 eram eletrificados, 8.654 desses, elétricos puros.

Porém, quando olhamos para veículos comerciais leves, o resultado é irrisório: dos 36.249 veículos comerciais leves emplacados em fevereiro, 182 eram eletrificados – um em cada duzentos. E, entre esses, apenas 34 eram elétricos puros. Menos que um em cada mil.

Em caminhões, temos um número que quase dá para contar nas mãos e nos pés: 27 dos 6.661 caminhões vendidos em fevereiro eram eletrificados. Isso dá 0,4%, ou um em cada 250. E, em ônibus, segmento com grande demanda do setor público, há uma fatia mais generosa, mais ainda bem abaixo dos carros: 83 de 1.742, ou 4,7% (um em cada vinte).

O que explica essa diferença?

Quando há um contraste tão grande assim entre consumidores e empresas, o primeiro pensamento é a diferença de motivações de compra. Consumidores se movem por economia, mas também por luxo, estilo, preferências pessoais, e valores que incluem a preservação ambiental. Empresas agem pelo mais puro e gélido cálculo econômico, no qual considerações ambientais podem ou não fazer sentido – fazem se há incentivos do governo, mas o governo brasileiro parece convencido, contra qualquer evidência científica, de que biocombustível é a saída.

Em diversos segmentos comerciais, não dá para culpar o consumidor corporativo. Simplesmente não há ainda opções viáveis e elétrico é um luxo. Por exemplo, comparando o preço de um furgão Mercedes Sprinter (R$ 329 mil) e um e-Sprinter (R$ 442 mil) é difícil justificar a diferença apenas pela economia. Ainda que a BYD tenha entrado recentemente com a picape Shark, ela não concorre no setor utilitário, mas no de estilo de vida, com cabine dupla e a R$ 380 mil.

Mas para carros, a conversa é diferente. A descoberta do carro elétrico pelo consumidor começou como status e preocupação ambiental, mas a explosão mesmo só aconteceu quando os chineses chegaram com seus preços imbatíveis e o bolso passou a pesar mais.

O modelo que lidera todos os rankings, o Dolphin Mini, é um dos elétricos mais baratos do Brasil – mas não o mais barato, que é o Kwid E-tech. Uma parte considerável de sua explosão de vendas é por parte de motoristas de aplicativo, que nem de longe poderiam ser acusados de idealismo. Uma pesquisa com proprietários brasileiros de EVs revelou que um número pequeno deles comprou por preocupação ambiental (apenas 9%) e que a preocupação climática parece ter diminuído entre os anos da pesquisa (provavelmente porque gente menos interessada no tema passou a comprar). O menor custo de energia foi a motivação para 62% dos compradores.

Isso é uma razão pragmática que poderia ser compartilhada com o setor comercial.

Faça as contas

Grosso modo, um carro elétrico gasta cerca de 75% menos no Brasil por distância percorrida do que usando combustíveis do posto. Como com veículos a combustão, carros maiores costumam gastar mais – o Geely EX2 supera 80%. E isso num momento típico: essa proporção que certamente muda ainda mais em situações de crise que levam à alta de petróleo, como a atual.

Como sua manutenção é muito mais simplificada, um carro elétrico também acaba economizando 50% nessa parte.

E quanto você economizou? Não responda ainda, porque eles são livres de IPVA em diversos estados, e do rodízio urbano em diversas cidades do Brasil.

Vamos pôr na ponta da caneta. Você pode usar esta calculadora para fazer a mesma conta.

Podemos pegar por exemplo o carro mais vendido em venda direta: o Fiat Mobi. Ele pode chegar a R$ 69.990 com todos os descontos aplicados. Um Dolphin Mini, em venda direta, pode custar menos de R$ 99 mil.

O Mobi faz entre 13,5 a 15,5 km por litro de gasolina, entre estrada e cidade. O preço médio da gasolina (hoje, 14/03/2025) é R$ 6,3 por litro.

O Dolphin Mini usa entre 9,6 e 12 kWh por km (aqui a proporção é inversa, ele consome menos na cidade). O preço do kWh varia entre estados do Brasil, entre R$ 0,641 a R$ 0,978. Vamos ficar em R$ 0,8.

No uso puramente urbano, você economizaria os R$ 30 mil de diferença em 79 mil km rodados. No uso 100% na estrada, aos 89 mil.

Isso não soa tão impressionante, é porque literalmente falamos no segundo carro mais barato do Brasil, completamente “pelado”, com abridores de vidro com manivela. O Kwid Zen, igualmente nu, é ligeiramente mais barato, por R$ 67.290, mas tem um consumo um pouco superior ao Mobi.

E ainda assim, dependendo do uso da sua empresa, você tem um intermediário que pode pagar a diferença entre um a quatro anos com o carro mais básico possível apenas com o combustível, sem contar o uso em rodízio, manutenção ou IPVA. Quando você chega no terceiro lugar na tabela, o valor de venda direta parte de R$ 88 mil. O Onix, R$ 87.539. A diferença se paga ainda mais rápido e, ao comprar um deles, a diferença com os mais básicos nunca seria paga.

E, por fim, esses valores são baixos porque o governo brasileiro está artificialmente puxando eles para baixo, ao decidir que os carros mais vendidos do Brasil eram “sustentáveis” e dar uma alucinada vantagem fiscal à combustão interna. Essa vantagem dura até empresas como a BYD nacionalizarem mais da produção para se adaptarem à lei. Mas nem com essa vantagem esses carros mantiveram seu domínio no varejo.

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