
O Departamento de Energia dos EUA (DOE) e o Bureau Americano de Navegação (ABS) anunciaram um acordo para explorar o uso de tecnologia nuclear em aplicações comerciais marítimas. A ideia é desenvolver não apenas navios nucleares civis, como também plataformas flutuantes geradoras de energia nuclear.
O memorando, assinado na última terça-feira (13 de outubro), cria uma estrutura para estudos de viabilidade, pesquisa técnica e coordenação entre agências governamentais e a indústria. Também serão feitas pesquisas a respeito de portos, estaleiros e a infraestrutura necessária para criar esse tipo de embarcação.
História dos navios nucleares civis
Um navio nuclear é basicamente um navio a vapor, no qual o calor da fissão nuclear é usado para aquecer a água e mover uma turbina a vapor, que pode mover diretamente as hélices ou gerar energia para propulsão elétrica. Os navios a vapor do século 20 (como o Titanic) operavam de forma similar, trocando o reator por uma caldeira para gerar vapor.
Se o plano der frutos, não será a primeira vez na história que reatores nucleares movem navios civis. Foram diversas tentativas desde os anos 1950.
- O NS Savannah foi tecnicamente um cargueiro (ainda que operasse mais como um navio de exibição) encomendado pela Administração Marítima dos EUA. Lançado em 1959, foi vendido a uma operadora privada em 1965 e desativado em 1972.
- O NS Otto Hahn era um cargueiro de minérios feito na então Alemanha Ocidental em 1964, que entrou em operação comercial em 1970, foi convertido em um navio convencional em 1979 e vendido à iniciativa privada, sendo sucateado em 2009.
- O japonês Mutsu era basicamente um navio de pesquisa, que foi lançado em 1969, teve um pequeno acidente em 1974 e foi convertido em 1995 num navio convencional, o RV Mirai, que acabou descomissionado apenas em 2025.
- O russo Sevmorput ainda está na ativa. Lançado em 1988, ele basicamente transporta cargas para as forças armadas russas, mas é operado por uma estatal russa, a Atomflot.
Fora esses navios, há 13 quebra-gelos nucleares, todos russos, e vários deles construídos no século 21. Essa foi a única aplicação que se mostrou viável para a propulsão nuclear civil. Em todos os experimentos, os custos de operação eram altos demais para justificar a adoção da tecnologia por empresas.
Nosso take: um bem acidental?
Navios nucleares são uma possibilidade para substituir os combustíveis fósseis usados na navegação, setor responsável por cerca de 3% das emissões de gases-estufa.
Deve soar um pouco estranho para quem vem acompanhando as notícias do governo Trump que ele incentive uma tecnologia de zero emissões. A administração fez de tudo para cancelar os programas de controle de emissões no país, chegando até mesmo a pagar multas para cancelar contratos de construção de usinas de energia limpa.
Mas, entre as tecnologias sem emissões, a fissão nuclear é uma grande exceção, com o governo chegando a apregoar que o país está numa renascença nuclear.
Provavelmente a decisão vem da escola administrativa de sempre fazer o que mais irrita os progressistas. Tradicionalmente, grupos ambientais se opunham à energia nuclear, pelos efeitos óbvios no ambiente de acidentes como Chernobyl e Fukushima. E, enquanto algumas organizações como o Greenpeace mantém essa posição, outras, como a Nature Conservancy, defendem que evitar o mal maior do aquecimento global justifica os riscos locais.
Assim como aconteceu com a Guerra do Irã iniciada pela administração Trump, que acabou por incentivar pesadamente a eletrificação no mundo, pode ser que mais uma vez seja feito um bem ao planeta por puro acidente.
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