
Em entrevista ao jornal financeiro francês Les Echos, Emanuele Cappellano, o líder (COO) da Stellantis na Europa, reclamou das aflições da indústria europeia, explicando por que não podem concorrer com os chineses. E também soltou que “não há demanda natural por carros elétricos”, dizendo que as pessoas só compram carros elétricos se houver subsídios do governo.
Antes de chegarmos lá (a afirmação aparece no fim da entrevista), vale ver o que mais o executivo falou antes, dando um contexto mais claro para sua afirmação e as intenções por trás dela.
Ajuda do Estado
A entrevista começa com Cappellano respondendo a respeito uma pergunta sobre a proposta da Comissão Europeia de exigir que veículos tenham um percentual de componentes produzido na Europa (conteúdo local), como parte do pacote que irá abolir a proibição da combustão interna em 2035.
O executivo afirma que acredita ser algo bom em princípio, que estimula o crescimento na indústria europeia, mas se preocupa com o impacto na competitividade. “Se implementarmos exigências de conteúdo local, mas o custo do carro aumenta em 10% a 20%, vamos novamente enfrentar o problema de acessibilidade [de preços]”.
E imediatamente deixa bem claro o que não pode ser feito localmente: “Veja, por exemplo, as baterias: se você me pedir amanhã para produzir localmente uma bateria, isso é um problema, porque ninguém tem a capacidade necessária. Mas, se você define um plano para produzi-las em 10 anos, então faz sentido. Se não, o conteúdo local só vai aumentar os custos.”
O repórter Yann Duvert seguiu com a pergunta: “Vocês ainda podem concorrer com fabricantes chineses?”. Ao que Cappellano respondeu: “Hoje, há uma diferença de cerca de 30% no custo de um veículo chinês e de um veículo europeu. Essa diferença é por vários fatores: uma parte é pelos subsídios à [cadeia de] suprimentos, então não é apenas uma questão da indústria de manufatura. A outra parte por conta de baterias e [componentes] eletrônicos. E, novamente, isso depende se a China tem uma cadeia de suprimentos local desenvolvida para esses componentes, o que não é o caso em outros lugares. [sic]”
“Então mesmo se a indústria se tornar mais competitiva em termos de tecnologia, a cadeia de suprimentos simplesmente não irá existir. E as regulamentações continuam muito diferentes, assim como o custo de energia, leis trabalhistas, e o custo das baterias. (…) Sem o apoio da União Europeia, nunca conseguiremos competir com os Chineses.”
“Sem demanda”
Cappellano então fala sobre como haviam 49 modelos de carros por menos de €15,000 em 2019, mas não há nenhum hoje, dizendo que são os custos dos materiais. Quando o repórter menciona que as margens de lucro aumentaram por um tempo, o executivo afirma que houve uma bolha depois da pandemia, mas que já acabou.
“Hoje a escolha é assim: ou eu pago uma multa, ou perco dinheiro vendendo veículos novos. Hoje as circunstâncias de impostos e regulamentação forçam os fabricantes a precificar seus veículos elétricos com uma margem negativa. É realmente difícil: se você quer estar dentro da lei, precisa perder dinheiro.”
“Se você olha para os relatórios financeiros de fabricantes europeus, vai notar que estão diminuindo ano após ano, e não falo só da Stellantis. As margens [de lucro] estão caindo e prestes a se tornar negativas.”
Após isso, começa a dar suas opiniões sobre veículos elétricos. “Isso é uma grande preocupação para nós hoje. Não há demanda natural por veículos elétricos. Ela apenas surge quando há subsídios em vários países ou quando os fabricantes de carros reduzem seus preços queimando dinheiro. Tentar aumentar a proporção de veículos elétricos então apenas gera perdas para os fabricantes.”
Cappellano fala de a seguir veículos comerciais, dizendo que os clientes rejeitam elétricos porque “Não querem comprar veículos elétricos e ver suas frotas envelhecerem. São clientes de negócios, não motivados por emoções ou o prazer de dirigir. Eles são racionais em suas escolhas porque o custo total de propriedade de um veículo elétrico é muito maior que o de um veículo com um motor a combustão interna.”
E conclui dizendo que quer vender mais carros e não consegue prever o futuro em 5 anos.
Análise
A entrevista faz um desfavor à Stellantis, que é parceira da chinesa e eletrificada Leapmotors, em basicamente dizer que a empresa não acredita em EVs.
A afirmação mais explosiva é outro jeito de dizer que as pessoas não se interessam por carros elétricos… caros. Algo que a Ford já entendeu.
Aqui no Brasil, o elétrico mais barato tem uma marca europeia: o Renault Kwid E-Tech, único carro elétrico por menos de R$ 100 mil. Ele é adotado justamente por frotas, porque o consumidor médio prefere o conforto maior por um preço pouco maior, oferecido pelas marcas chinesas.
Mas o preço está longe de ser o único motivo para a adoção Na Europa, numa pesquisa da consultoria McKinsey, 80% dos europeus disseram que esperam ter um veículo elétrico um dia, e 38%, que teriam um BEV ou PHEV como próximo veículo (em fevereiro de 2024). Aqui no Brasil, uma pesquisa em São Paulo revelou 77% de interessados.
Números mostram que donos de veículos elétricos raramente se arrependem – 94% deles (nos Estados Unidos) dizem que gostariam de comprar outro elétrico e 72% não comprariam um carro a combustão interna.
Aqui no Brasil, onde benefícios fiscais favorecem mais carros a combustão populares que elétricos, ainda assim se vê um crescimento da frota impulsionado por uma questão majoritariamente econômica – de que a baixa manutenção e o preço da eletricidade versus o do combustível compensa pela diferença dos preços, que está caindo. Aqui o custo para mover o carro é 75% menor para elétricos e o custo da manutenção, 50% menor.
Nossa situação não é igual a da Europa, mas não é tão diferente assim. Na Europa, o preço médio do kWh de eletricidade é de € 0,287 (~R$ 1,80) por kWh. No Brasil, é R$ 0,74/kWh. A gasolina custa por volta de € 1,60 por litro (~R$ 10), enquanto no Brasil fica a R$ 6,30. Aqui, um kWh custa 11% de um litro de gasolina – lá custa 17%. Assim, mesmo na Europa, soa descabido dizer que custos de manutenção com uma frota comercial elétrica são maiores.
Via Les Echos