
Em novembro do ano passado, um site de leilões nos EUA anunciou um veículo que todos consideravam extinto: um GM EV1, um carro elétrico definitivamente à frente de seu tempo que acabou literalmente destruído por seu próprio criador, num dos casos menos felizes da história automotiva.
Estava num depósito de carros retomados em Atlanta, Georgia, e a imprensa pegou rapidamente a história. Com a notícia se espalhando, o carro atingiu um valor estratosférico no leilão. Foi arrematado por US$ 104.000, valor mais de 100 vezes maior que o pelo qual costumam sair os carros no mesmo depósito.
O comprador, Billy Caruso, fez um acordo com o restaurador Jared Pink, que comanda o canal do YouTube The Questionable Garage, a quem havia vencido nos lances. Pink o está ajudando a trazer o carro de volta à vida, em troca de gravar tudo para seu canal.
O primeiro episódio dessa epopeia pode ser visto aqui:
O filho enjeitado
Trazer um carro desses de volta está sendo um desafio para fazer o Dr. Frankenstein pensar duas vezes: os menos de 50 sobreviventes do EV1 foram inutilizados pela própria GM, que tinha o controle absoluto sobre cada exemplar, e cedidos a universidades e museus apenas sob a condição de que jamais tentassem restaurá-lo.
O exemplar leiloado foi considerado abandonado pela lei local e, com a GM perdendo seu direito, acabou sendo o primeiro EV1 a pertencer legalmente a um indivíduo.
O primeiro episódio da aventura no Questionable Garage não foi muito simpático à GM – e vai ficar claro por que. Mas, com quase 300 mil visualizações, o marketing acabou por mexer seus pauzinhos e a empresa propôs uma parceria para dar suporte à restauração, provendo peças, software e até mesmo arranjando uma conversa o presidente da GM, Mark Reuss.
A convoluta história do GM EV1
A história do EV1 coméca em 1990, quando agência governamental California Air Resources Board (“Conselho para Recursos Aéreos da Califórnia”) publicou um mandato exigindo que os seis maiores fabricantes dos EUA tivessem 2% de suas frotas como veículos de zero emissões. Então, a GM tinha acabado de apresentar seu protótipo elétrico, o Impact, uma visão de futuro capaz de fazer até 295 km/h.
Em 1994, a empresa criou o programa PrEView, em que pessoas poderiam dirigir um Impact por duas semanas, causando sensação entre jornalistas e aficionados. Em 1996, a GM transformou o projeto no EV1, feito para usuários comuns, por assinaturas mensais a partir de US$ 349 (US$ 738 hoje, perto de R$ 3.850).
Comparado com um carro de hoje, o EV1 era um neandertal, mas também era um velociraptor se posto ao lado dos carros de seu tempo. Um subcompacto de dois lugares, com 4,31 m de comprimento, 1,77 de largura, e 1,28 de altura, era equipado com uma bateria de chumbo-ácido com 16,5 kWh (menos da metade da capacidade de um compacto moderno), que pesava 533 kg. Isso era o suficiente para uma autonomia de 89 km (ciclo EPA). Uma segunda versão, em 1998, ganharia uma bateria de níquel-hidreto metálico, com 26,4 kWh e bem mais razoáveis 169 km de autonomia. A velocidade máxima era eletronicamente limitada a 80 milhas por hora (129 km/h) – mas era capaz dos mesmos 295 km/h do conceito Impact, o que a GM provou numa demonstração. Podia fazer de 0 a 100 km/h em (para a época estonteantes) 8,3 segundos.
Então os carros já haviam conquistado um fã-clube fiel, mas a GM chegou a uma conclusão que fabricantes ocidentais alegam até hoje: não teria lucro o suficiente com eles. Assim, em 2002, todos receberam a notificação para devolverem seus carros e, mesmo sob protestos, salvo cerca de 40 unidades enviadas a museus e universidades, começaram a ser compactados e transformados em sucata no fim de 2023.

A GM arrependida
O incidente não pegou bem para a reputação da marca. Em 2006, um documentário, Quem Matou o Carro Elétrico? denunciou sua atuação no caso.
Então já era claro o tamanho do erro da GM. Em 2003, enquanto a empresa mandava seus EV1s para o compactador, um novo fabricante surgia nos EUA. Seu nome era Tesla. No ano seguinte, ela daria início à atual renascença dos carros elétricos ao criar o Roadster, o primeiro carro elétrico que era um sonho de consumo.
A GM, que passou a chance de ser a pioneira, retornaria aos elétricos em 2011, com um modelo adaptado, o Spark EV e só lançaria um elétrico em plataforma própria em 2016, com o Bolt.

Hoje, a empresa celebra o EV1 com os entusiastas: “O EV1 não apenas provou que um carro elétrico podia ser construído”, afirma a empresa num post sobre a restauração. “Ele provou que a GM estava disposta a correr o risco de construir um deles, e que as lições de engenharia advindas dessa aposta renderam frutos nas décadas que se seguiram. O EV1 pôs em movimento tudo o que estamos fazendo em coisas elétricas agora.”