
Um incêndio atingiu hoje diversos veículos numa garagem em Teresina, no Piauí. Segundo a cobertura do GP1, o fogo foi informado à meia-noite e os bombeiros, constatando a gravidade, fizeram uso de cinco mangueiras para controlar as chamas. Uma equipe de socorro também foi enviada ao local, mas não foi necessária, pois não houve feridos.
Ainda que as equipes de emergência tenham controlado o fogo rapidamente, o incêndio destruiu diversos veículos. Segundo os bombeiros, ele começou numa Range Rover Velar híbrida e atingiu mais dois carros além dela: uma Ford Ranger Raptor e um Toyota Corolla Cross. Duas motos também foram danificadas.
Um veículo automotivo tradicional deu a notícia como “carro elétrico pega fogo”, citando um valor estimado do prejuízo, e informando (incorretamente, se vale a informação do GP1) que o carro que causou o incêndio um elétrico puro BYD Seal. Termina dizendo que o caso “reacende o debate” sobre o recarregamento em garagens de condomínios, um direito recém conquistado pelos moradores do estado de São Paulo.
Análise sem pânico
E isso dá uma ideia do tipo de cobertura que pode ser feita a respeito do incidente, espalhando o pânico sobre uma nova tecnologia. Vamos desmontar o caso para entendê-lo.
Primeiro, a Range Rover Velar é um carro híbrido plug-in (PHEV), não um elétrico puro (BEV). Ela possui uma bateria de 17,1 kWh, o que é mais ou menos metade daquela de um Dolphin Mini. Sua capacidade de carga é até 35 kW (não muito rápida, como é comum em híbridos).
Não se sabe ainda em que carregador ela estava operando, mas wallboxes do tipo que são instalados em prédios não são carregadores rápidos como os dos eletropostos. Eles geralmente possuem potência baixa, por volta de 7 kW, com alguns modelos chegando a 22 kW. O primeiro caso é equivalente a um chuveiro elétrico ligado, e o último, a três deles, sendo também geralmente o limite de alimentação de duas residências. Então não há uma demanda tão alta assim, a ponto de causar por si só um incêndio. Exceto, claro, com uma instalação inadequada, com a qual um chuveiro também poderia causar.
E talvez não tenha começado na bateria. No ano passado, uma gambiarra com um carregador causou um incêndio com um Dolphin Mini que acabou noticiado, mas isso aconteceu porque o interior do carro pegou fogo após um curto-circuito de um carregador irregular que estava sobre o banco. A bateria não chegou a se incendiar. Se o carro estava sendo carregado de forma inadequada, pode ter acontecido de o incêndio ter uma causa externa e não ter envolvido inicialmente a bateria.
O que incendeia baterias?
Baterias elétricas podem entrar em combustão “espontânea” num evento de fuga térmica, uma reação em cadeia em que uma célula superaquecida leva ao incêndio de outra. É um evento relativamente raro, e mais ainda durante carregamento lento. Mas não é impossível: um carregador ou carro com defeito pode não parar o carregamento quando a bateria está completa, levando ao superaquecimento. A temperatura externa também é capaz de fazer isso, principalmente sob o sol e asfalto escuro (o que não era o caso).
O fato da caminhonete ser híbrida plug-in e não elétrica pura acaba contando contra. Enquanto as estatísticas indicam que carros elétricos puros têm uma chance muito menor de incêndio que carros a combustão interna, isso não acontece com híbridos porque eles possuem todo um conjunto a combustão, então têm os mesmos riscos que carros a combustão interna somado aos dos elétricos. Isso faz com que híbridos sejam os veículos mais propensos a incêndios de todos.
Por fim, a lei paulista que obriga os condomínios a aceitar os wallboxes não é um oba-oba. Ela tem diversas exigências técnicas e demanda que apenas profissionais qualificados façam a instalação, e apenas se o condomínio tem condições de atender à demanda. Inclusive a norma dos bombeiros em São Paulo, que tem que ser atendida, exige sprinklers sobre a vaga de carregamento, algo que possivelmente teria parado ou amenizado o incêndio em Teresina.
Sem pânico
O que exatamente causou o incêndio só iremos saber quando sair o laudo técnico em um mês. Mas é de se esperar que haja falha humana ou mecânica em algum lugar, e não que um carro simplesmente tenha pego fogo do nada.
Muitos países já possuem muito mais pontos de recarga que o Brasil sem que isso tenha se tornado uma crise de segurança pública. De qualquer maneira, incêndios em veículos elétricos, e mais ainda híbridos, certamente já acontecem e irão acontecer, dado que a frota eletrificada no Brasil já está em quase 600 mil unidades. E, justamente por serem raros, esses incêndios se tornam notícia, enquanto fogo em carros a combustão é um acidente a mais.
Assim como acontece com os carros como um todo, e também trens, motos, aviões e navios, acidentes são trágicos e riscos existem, mas a tecnologia é aceita pelo benefício que ela traz. O direito de instalação é chave para não excluir as pessoas que vivem em condomínios da possibilidade de terem um carro elétrico – não sem uma justificativa.
Então não. Não há “reabrir” esse “debate” por um acidente que ainda nem foi esclarecido. Só há espalhar pânico.