
O destino do fim do motor a combustão interna na União Europeia segue em disputa. Enquanto a Alemanha – maior economia do bloco e, de longe, o maior fabricante automotivo – lidera uma ofensiva política para “suavizar” (tornar inefetivo) o banimento dos motores a combustão interna em 2035, a maior marca da Suécia, a Volvo, e sua subsidiária esportiva, a Polestar, saíram em defesa da medida original. O suecos afirmam que, se insistir na tecnologia da combustão interna, a Europa vai ficar para trás.
Naturalmente, a Volvo e a Polestar – que têm sua linha totalmente eletrificada e controle acionário da chinesa Geely – não são atores neutros nessa disputa. Tampouco as montadoras alemãs pressionando seu governo não são exatamente organizações de ciência ambiental.
Em entrevista exclusiva ao Guardian, Michael Lohscheller, CEO da Polestar, criticou as movimentações políticas recentes lideradas por Berlim: “Os chineses não vão parar. Eles vão assumir o controle”. Para Lohscheller, se Bruxelas sinalizar um adiamento de cinco anos, por exemplo, não estará salvando a indústria, mas sim colocando “centenas de milhares de empregos em risco” ao permitir que a tecnologia europeia se torne obsoleta frente à concorrência asiática. A posição é compartilhada pela Volvo Cars, que é acionista minoritária da Polestar (a maioria das ações está com a Geely).
Lohscheller, que é alemão e já liderou a Opel e a Volkswagen na América do Norte, não poupou palavras contra a mentalidade por trás do lobby alemão. “É muito óbvio na Alemanha que todo mundo quer defender o passado. Eles não querem mudar nada, só defender o que eles têm. Eu posso falar disso com autoridade porque sou alemão. N China e nos EUA, funciona assim: ‘qual é a próxima ideia? Qual é a a próxima companhia que devemos tentar’. É uma grande dfierença. É uma diferença completa de mentalidade.”
A Alemanha contra o fim da combustão interna
Do outro lado da trincheira está o governo alemão. Conforme reportado anteriormente, a Alemanha tem intensificado a pressão sobre a Comissão Europeia para reverter o banimento total dos motores a combustão.
Empregos são a maior justificativa dos alemães para tentar manter a combustão interna viva após 2035. Na coletiva de imprensa na qual a Alemanha afirmou que irá pressionar pela revisão da lei do banimento da combustão interna, o vice-chanceler e Ministro das Finanças, Lars Klingbeil, afirmou: “A futura viabilidade da indústria automotiva da Alemanha, garantindo empregos, é o argumento central para nós. Nós concordamos que o futuro da indústria é elétrico… mas queremos estar aberto para mais tecnologias, precisamos de flexibilidade.”
O argumento de Berlim, apoiado por partes da indústria tradicional (como a BMW e a Porsche), foca na “neutralidade tecnológica”. Eles defendem que o banimento não deve focar no motor em si, mas nas emissões. Na prática, a Alemanha quer garantir uma sobrevida aos carros a combustão interna “altamente eficientes” através do uso de (atualmente inexistentes) combustíveis sintéticos e híbridos plug-in, alegando que o foco exclusivo em elétricos a bateria (BEVs) ameaça a base industrial do país.
É um argumento idêntico ao da indústria brasileira (que é, na sua parte mais tradicional, europeia e americana) defendendo o flex, contra estudos científicos que mostram que tanto o flex quando o híbrido plug-in, apesar de seu potencial, na prática não se saem muito melhores que carros a gasolina.
Para a Volvo e a Polestar, essa hesitação alemã cria um ambiente de incerteza tóxico para investimentos. Jim Rowan, CEO da Volvo, argumenta que a meta de 2035 é crucial para alinhar todos os fornecedores e garantir a competitividade europeia. “Enfraquecê-la agora enviaria o sinal oposto: de que a Europa pode ser dissuadida de seus próprios compromissos”, afirmou a empresa em comunicados recentes.
O temor é que, ao tentar proteger seus motores a pistão por mais alguns anos, a Europa perca a corrida tecnológica definitiva para a China, que já domina a cadeia de baterias e software. Um alerta idêntico ao que a ONG ICCT Brasil fez a respeito do país buscar manter a combustão interna sob outro argumento, o do biocombustíveis.
Via The Guardian