
Depois das conclusões do ICCT, mais um estudo afirma que o Brasil é potencialmente o país mais beneficiado no planeta pela eletrificação: diferente de países com matriz elétrica suja, se nossa frota fosse eletrificada, poderíamos acabar com 94% de nosso consumo de combustíveis fósseis.
Não apenas isso, enquanto a Europa dá o primeiro passo para sabotar suas metas climáticas e os Estados Unidos são regidos por um governo negacionista, o chamado Sul Global, incluindo o Brasil, está assumindo a dianteira na eletrificação. Essas são as conclusões do estudo intitulado The EV Leapfrog (“O Salto dos EVs”), realizado pelo think tank de transição energética Ember.
O estudo derruba o mito de que carros elétricos seriam um luxo para nações ricas. Segundo os dados, o centro de gravidade da eletrificação deslocou-se em 2025, com países da Ásia, América Latina e Oriente Médio adotando a tecnologia em ritmo recorde, saltando na frente de um Ocidente relutante.
“Esse é um grande ponto de virada”, afirma Euan Graham, analista de dados da Ember. “Mercados emergentes não estão mais correndo atrás, eles estão liderando a mudança para a mobilidade elétrica. Esses países enxergam os avanços estratégicos dos EVs, do ar limpo à redução na importação de combustíveis. A ideia de que o crescimento de EVs iria parar fora da Europa e China já é desatualizada. Mercados emergentes irão moldar o futuro do mercado de carros global. As decisões feitas hoje sobre a infraestrutura de carregamento e o suporte antecipado irão determinar quão rápido esse embalo irá se manter.”
ASEAN e Brasil na dianteira
Os números são contundentes. O relatório destaca que 39 países já atingiram uma fatia de mercado superior a 10% nas vendas de carros elétricos em 2025 — e um terço deles está fora da Europa.
O Sudeste Asiático (ASEAN) emerge como o novo polo de liderança:
- Tailândia: Atingiu 21% de participação nas vendas, comercializando mais elétricos nos primeiros três trimestres de 2025 do que a Dinamarca.
- Vietnã e Singapura: Ambos giram em torno de 40% de market share, superando níveis vistos no Reino Unido e em vários membros da União Europeia.
- Indonésia: Chegou a 15% de participação, ultrapassando pela primeira vez a taxa de penetração dos Estados Unidos.
Na América Latina, o Uruguai, com 27%, é o campeão da eletrificação, 1 p.p. acima da União Europeia. O estudo menciona Brasil e México como protagonistas, figurando agora como os principais destinos das exportações de veículos elétricos chineses fora da OCDE.
É possível ver no gráfico como os EUA estagnaram, a União Europeia teve uma queda e recuperação, o Sudeste Asiático e o Uruguai viram uma explosão, e o explodiu e o Brasil, Colômbia e México têm visto um crescimento constante, prestes a superar os EUA.

(O Brasil não é ainda um membro do clube dos países com mais de 10% de EVs, mas estamos quase lá. Marcamos 9,3% do total de vendas em novembro, segundo a ABVE. Em outubro, aqui se vendeu proporcionalmente mais EVs que os EUA.)
O Brasil como o maior beneficiado
Como apurado pelo ICCT e até pela Anfavea, o Brasil é um o país que mais pode se beneficiar da eletrificação, entre todos os estudados. E a razão apontada pelo Ember é a mesma: nossa matriz elétrica é limpa.

Um carro elétrico é tão limpo quanto sua matriz elétrica, e a maioria dos países ainda usa muito carvão e diesel na geração. Assim, trocar um carro para um elétrico puro (BEV), não elimina o consumo individual de combustíveis fósseis, mas diminui muito. Segundo o número trazido pela Ember (há muitos estudos sobre isso), um elétrico usa 80% da energia nele armazenada, enquanto um carro elétrico puro (BEV) desperdiça 80%. Por isso trocar representa uma diminuição mesmo com uma matriz suja.
Mas o Brasil é um caso extremo: aqui, trocar um carro para um BEV reduz em 94% a demanda gerada por combustíveis fósseis. O Reino Unido, com massivos investimentos em energia limpa e um novo programa de incentivo a EVs, vem em segundo, com 81%.
Causas para o “salto”
Diferente do passado, quando as nações emergentes importavam (ou fabricavam) carros com tecnologia ultrapassada no Norte Global, agora elas têm acesso direto à tecnologia mais recente a custos competitivos.
A análise da Ember aponta três motores para esse fenômeno. Um: a paridade de preço. A chegada massiva de modelos chineses baratos permitiu que a classe média desses países acessasse EVs sem depender de subsídios estatais pesados, como nos EUA e Europa.
Dois: dependência energética. Para países importadores de petróleo, a troca pela eletricidade doméstica é uma estratégia de soberania econômica e redução de gastos com importação de combustíveis.
E três, a tecnologia simplesmente superior. Consumidores e governos perceberam que investir em infraestrutura para combustão interna agora é apostar em uma tecnologia em queda.
O fim do petróleo em vista
A divulgação do estudo cria um contraste irônico com o cenário político atual. Na mesma semana em que a União Europeia propõe flexibilizar o banimento dos motores a combustão para proteger sua indústria tradicional, o Sul Global acelera na direção oposta, impulsionado pelo pragmatismo econômico e pela parceria comercial com a China.
“A mudança na política e no consumidor em mercados emergentes na direção de veículos elétricos é uma tendência globalmente significativa, trazendo novos líderes na eletrificação do transporte”, conclui o relatório. “E também deve ter impactos profundos na demanda por petróleo no futuro, com mercados emergentes no caminho de representarem a maioria das vendas de carros novos entre hoje e 2025. A Agência Internacional de Energia (IEA) recentemente lançou o Cenário com a Política Atual (CPS), que prevê um mundo em que as venedas de EVs fora da China e Europa permanecem em níveis de 2025. Essa suposição já se mostrou incorreta.”